Fraternidade e Diálogo

Olhar sem disfarces para a realidade é fundamental para compreendermos o contexto em que vivemos. Fazer as perguntas inconvenientes é importante para irmos além das aparências.

Por Paulo Mzé

Tendo em conta as ambiguidades presentes no diálogo e os tipos de diálogo possíveis, cabem algumas perguntas essenciais; uma delas é pelo horizonte do diálogo: o que desejamos alcançar com ele? Até onde estamos dispostos a ir para alcançar o objetivo? Estamos dispostos a rever os pressupostos para a superação das crises geradoras de intolerância? Reconhecemos o outro como interlocutor legítimo e autêntico? Estamos dispostos a “sair-em-direção-ao-outro” ou estamos mais “dobrados-em-nós-mesmos”? Estamos dispostos a reconhecer a autonomia do outro e a pluralidade como valor?

O diálogo pode servir de armadilha para se alcançar uma “paz de cemitério”, que é paz que uniformiza e elimina todos os contrastes. Ou diferenças geradoras de conflitos.

O filósofo Martin Buber, conhecido por desenvolver uma filosofia da relação do encontro e do diálogo, chama a atenção para três tipos de diálogo. O primeiro é o diálogo autêntico que pode ser falado ou silencioso. O segundo tipo é o que o filósofo chama de diálogo técnico, que se estabelece unicamente pela necessidade de um entendimento objetivo. Por fim, o terceiro tipo é o monólogo disfarçado de diálogo.

É preciso refletir sobre essas questões, quando optamos pela realização do diálogo. A tentativa de respondê-las nos dará a oportunidade de saber se estamos mais para um diálogo autêntico, técnico, ou para um monólogo. O ideal de diálogo é ser como instrumento válido em contexto de ódio e intolerância.

Os diálogos que precisam ser feitos ao longo do caminho

Estamos no auge da pandemia do novo Coronavírus, que de forma abrupta, expôs e agravou ainda mais a desigualdade social no nosso país. Atualmente, 85% dos brasileiros vivem nas cidades, com parcela significativa em condições extremas de precariedade e sujeita aos riscos dessa pandemia.

Atualmente, no Brasil as cidades atraem por propiciar maiores oportunidades de trabalho, por oferecer serviços públicos em educação e saúde, ausentes na zona rural, pelo comércio diversificado e os templos do consumo, com as luzes e a sofisticação dos shoppings centers, o grande leque de opções no campo religioso e cultural, fácil acesso a áreas de lazer, aos meios de comunicação, ainda que muitos deles sejam acessíveis apenas às classes de maior poder aquisitivo.

As cidades já enfrentam dificuldades crescentes, para remediar as suas mazelas, a começar pela apropriação privada do solo urbano para fins de especulação imobiliária e a lentidão do poder público em sanar o crônico déficit habitacional. Multiplicam-se favelas, cortiços e, agora na crise da pandemia de Covid-19, com a explosão do desemprego, disparou o contingente de pessoas vivendo em situação de rua.

Os acidentes de trânsito estão ainda mais frequentes, os congestionamentos cada vez mais extensos e prolongados; o esgoto e o lixo jogados diretamente nos cursos de água matam córregos e rios, fruto da crônica falta de saneamento básico. A tudo isso somou-se o precário abastecimento de água e a inadequada coleta e destinação final dos resíduos sólidos.

A insuficiente segurança pública entregou zonas cada vez maiores das cidades ao domínio do tráfico de drogas e das milícias, deixando a população indefesa e no meio do fogo cruzado de policiais e traficantes, com a multiplicação de mortes de passantes e crianças, vítimas de bala perdida. Moradores de periferias, em especial jovens, negros e pobres, são sempre suspeitos, presos sob qualquer pretexto, lotam as delegacias sem terem sido formalmente acusados, indiciados, nem muito menos, condenados. Isso quando já não engrossam a triste e revoltante lista de mortos em supostos confrontos armados.

Uma caminhada de Páscoa até Emaús (Lc 24, 13-35)

Dois dos discípulos que haviam estado com os Onze na manhã de domingo (v.9) dirigem-se a Emaús depois de ouvir o relato das mulheres e de Pedro. No texto grego, a aldeia de Emaús está a “60 estádios” de Jerusalém. Um estádio tinha cerca de 200 metros, o que faz a distância ser de quase 12 quilômetros.

Jesus é tomado por outro peregrino que volta para casa depois da festa de Jerusalém. Os dois discípulos não o reconheceram. Os discípulos estão angustiados pela morte de Jesus e têm dificuldade para acreditar que outro peregrino não saiba do acontecimento que abalou seu mundo. Descrevem Jesus como profeta poderoso, o profeta semelhante a Moisés, há muito esperado (Dt 18,15; At 7,22). Tinham esperado que ele não fosse apenas um profeta, mas, o libertador messiânico de Israel (cf. 1,68).

Jesus os repreende por sua cegueira. A vida toda leram os profetas, mas não reconheceram que eles se cumpriram no sofrimento e na morte necessários de Jesus. A cruz precedeu a glória. Os discípulos ficam impressionados como o que Jesus diz e convidam-no a ficar com eles. Jesus partilha com eles uma refeição que é descrita de modo a recordar a multiplicação dos pães (9,16) e a última Ceia (22,19). Nessa “fração do pão”, eles o reconheceram; logo ele desaparece da visão deles. Eles se lembram que o coração “ardia” neles, sem saberem por que, enquanto ele lhes explicava as Escrituras.

O texto bíblico de Lc 24,13-35 narram a história do casal de Emaús. Provavelmente o casal peregrino de Emaús conversava sobre estes fatos e compartilhava entre si suas dúvidas. A pergunta pelo motivo do ódio da população talvez estivesse presente neste diálogo. O que torna as pessoas tão irracionais a ponto de decidir pela pena de morte de uma pessoa inocente?

Olhar sem disfarces para a realidade é fundamental para compreendermos o contexto em que vivemos. Fazer as perguntas inconvenientes é importante para irmos além das aparências.

Esta análise ajuda-nos a identificamos algumas causas geradoras das intolerâncias. Uma delas é a incapacidade de abrir-se para o amor humano e optar por viver de forma autorrefenciada, em que apenas a felicidade ou os interesses individuais contam. Outra é a despolitização da economia, que esvazia o poder de participação e a decisão cidadã em assuntos centrais que importam na existência humana. A despolitização da economia gera falsos conflitos, como as intolerâncias religiosas, xenofobias, entre outros que fragmentam a luta política e mantém os atores raciais ocupados com agendas muito específicos que mudam diariamente. Isso faz com que a política deixe de ser arte do impossível para ser algo praticado e definido por tecnocratas que apenas farão o que é o possível e viável para o setor financeiro, e jamais, o que é necessário para toda a sociedade.

O papa Francisco advertiu, com toda força, na sua encíclica Fratelli tutti: “Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos em forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade” (EG, n. 59). E acrescentou ainda: “Quando se trata de recomeçar, sempre há de ser a partir dos últimos” (FT 235). Evocou também a figura de São Francisco como uma inspiração para hoje: “São Francisco, que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos” (FT 2).

Conheça mais Lucas

O Evangelho de Lucas é a primeira metade de uma obra em duas partes que narra a história das origens do Cristianismo desde a infância de Jesus até a chegada em Roma de Paulo, o primeiro pregador, por volta de 60 d.C. Dante chamou Lucas de “escriba da docilidade de Cristo” por causa da ênfase na misericórdia de Jesus para com pecadores e renegados.

No início de seu Evangelho, Lucas reconhece a obra do que o antecederam. Não está tentando substituir o Evangelho de Marcos, mais antigo, mas sente a necessidade de um novo relato para uma nova geração em circunstâncias diferentes.

Lucas é um cristão de língua grega que escreveu em Antioquia (Síria) ou na Ásia Menor (atual Turquia), no fim do século I, provavelmente na década de 80. A Igreja cristã depressa adquirindo uma composição mais pagã do que judaica; não se restringe mais à Palestina e tem a conformação de comunidades espalhadas por todo o Império romano.

Sua língua não é o aramaico, mas o grego. Lucas quer mostrar a continuidade da Igreja grega de então com Jesus e a comunidade hebraica primitiva. Acha que pode registrar melhor essas raízes acrescentando uma sequência à história de Jesus, ligando tematicamente as duas partes e, ao mesmo tempo, preservando as distinções históricas.

Além do Evangelho de Marcos, que modifica conforme suas necessidades, Lucas aproveita outras fontes orais e escritas, algumas de tradições usadas também pelo evangelista Mateus.

Para os leitores de Lucas, a geografia, a linguagem e as condições religiosas e políticas da Palestina eram estranhas e remotas. Muitos não estavam familiarizados com os escritos judaicos aos quais os pregadores se referiam com frequência ao explicar a história de Jesus.

Os cristãos da Ásia Menor e da Europa preocupavam-se em ser bons cidadãos do Império Romano, governo que fora tratado como intruso por muitos dos contemporâneos de Jesus na Palestina. Muitos cristãos da nova geração não eram pobres e sim abastados, mais urbanos que rurais.

Lucas é uma viagem ao Reino sob a orientação do Espírito Santo. O Evangelho retrata os primórdios da história cristã, desde o primeiro anúncio da concretização da salvação até sua consumação na morte e ressurreição de Jesus.

* Paulo Mzé, imc, é diretor da revista Missões.

Deixe uma resposta

quatro × 3 =