Combater a exploração sexual de crianças e adolescentes, uma atitude ainda mais urgente neste tempo de pandemia

Por IHU

combate à exploração sexual de crianças e adolescentes deve ser missão prioritária para uma sociedade que zela pelo seu futuro. No Brasil, no dia 18 de maio, é comemorada essa data, lembrando o chamado “Caso Araceli”, uma menina de oito anos de idade que, no dia 18 de maio de 1973, na cidade de Vitória (ES), foi raptada, estuprada e morta por jovens de classe média alta daquela cidade. Trata-se de uma jornada para mobilizar, sensibilizar, informar e convocar toda a sociedade a participar da luta em defesa dos direitos sexuais de crianças e adolescentes.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Igreja Católica tem um envolvimento cada vez maior nessa luta. No Brasil, essa bandeira tem sido assumida pela Vida Religiosa, através da Rede um Grito pela Vida. Como reconhece a irmã Valmi Bohn, coordenadora nacional da rede, “a situação de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, se agravou nesse contexto de pandemia, em que todos são convidados a permanecer em suas casas”. Segundo a religiosa, “está acontecendo muitas violências e violações dentro das casas, e as vítimas mais vulneráveis são as crianças e adolescentes que não podem ir para a escola, e as mulheres que muitas vezes são as que sustentam a casa”. Essa situação é provocada pela “convivência maior com seus companheiros, elas acabam sofrendo maior violência física e psicológica”.

(Imagem: Luis Miguel Modino)

No Brasil, “a maioria das vezes a violência sexual tem caráter muito familiar, pessoas próximas da vítima. Muitas famílias pensam que isso deve ser resolvido no âmbito familiar, o que favorece a continuação do abuso”, enfatiza a irmã Valmi. Nessa mesma perspectiva, a irmã Rose Bertoldo, auditora sinodal no Sínodo para a Amazônia, que também faz parte da Rede um Grito pela Vida, reconhece que “a gente sabe que hoje, o maior índice de abuso e exploração sexual, ele se dá na família. Como a gente vai proteger essa criança que está dentro do isolamento familiar. Quando ela ia para a escola, a escola era um espaço onde a criança podia fazer a denúncia, e agora ela está muito mais exposta a essas violências”. Junto com isso, não podemos esquecer, segundo ela, que “com maior acesso à internet nesse tempo de isolamento social, também tem contribuído para o aliciamento, para as explorações de crianças e adolescentes”.

pandemia tem impedido o trabalho cotidiano da rede, pois o fato de não sair de casa, não deixa acompanhar mais de perto essas situações, segundo sua coordenadora nacional. De fato, “os trabalhos em escolas e comunidades estão suspensos, porém, continuamos de outras formas, estamos nos redescobrindo nessa ajuda comunitária”, afirma a religiosa, que enumera alguma das atividades que estão desenvolvendo agora, como confecção de máscaras, adquisição e distribuição de alimentos para os mais vulneráveis, participação em lives ou filmação de vídeos de prevenção.

Valmi Bohn denuncia os muitos erros do governo brasileiro na “prevenção da pandemia e na proteção de nossas crianças e adolescentes, cada vez mais vulneráveis”. Ela vê Dia de Combate à Exploração de Crianças e Adolescentes, o Dia do Faça Bonito, que está comemorando 20 anos, como momento “de muita luta, de entidades da sociedade que se unem para cuidar, para proteger as crianças e adolescentes”.

Valmi Bohn. (Foto: Luis Miguel Modino)

Isso nos ajuda a prestar mais atenção diante de “situações de violência, de abuso e exploração sexual, de tráfico humano, que possam estar acontecendo nesse tempo perto da sua casa ou dentro da sua casa”, segundo a coordenadora nacional da Rede um Grito pela Vida. Ela orienta para “procurar no conselho tutelar, ou uma delegacia para denunciar”, insistindo em “procurar todos os recursos para combater esse grande mal da violência, do abuso e da exploração de nossas crianças e adolescentes, e vamos proteger a vida e a saúde de quem a gente ama”.

Igreja da Amazônia, ao longo do processo sinodal, “muito tem contribuído para dar visibilidade à realidade das violências nos territórios da Amazônia, principalmente o abuso e exploração sexual e o tráfico de pessoas” segundo a irmã Rose Bertoldo. A religiosa destaca que essa problemática, “apareceu com muita força nas escutas sinodais, são grandes gritos dos povos da Amazônia, que foram levados para a Assembleia Sinodal, e também foram trazidos por muitos outros padres sinodais”.

Rose Bertoldo. (Foto: Luis Miguel Modino)

Tudo isso tem sido recolhido no Documento Final do Sínodo para a Amazônia, de forma muito forte, reconhece a irmã Rose, que tem visto o processo sinodal como momento em que “a Igreja da Amazônia tem assumido essa superação dessas violências, a própria REPAM tem assumido isso e trabalhado nos seus territórios, com diversas ações de prevenção, de cuidado com a vida da infância”. Essa preocupação também está presente nas Igrejas locais da região amazônica, como acontece com o Regional Norte 1 da CNBB, onde a Rede um Grito pela Vida tem uma forte presença.

Nesse sentido, afirma a religiosa do Imaculado Coração de Maria, enquanto REPAM, as Igrejas do Regional Norte 1 “têm assumido como uma causa comum o enfrentamento a essas violências, realizando diversas ações nas parquias, nas comunidades, de enfrentamento, não só de dar visibilidade, mas principalmente de prevenir, de alertar as crianças e adolescentes sobre essas violências”. Em Manaus, a própria Assembleia Arquidiocesana assumiu todo esse processo de superação de violências, e uma delas é a violência contra crianças e adolescentes. Tem desenvolvido diversas ações a través das instituições, Rede um Grito pela VidaCaritasPastoral do Menor, os diversos espaços que tem contribuído.

Dentro do processo sinodal, os documentos surgidos têm abordado essa questão. Segundo Rose Bertoldo, “na própria exortação Querida Amazônia, o papa Francisco, logo no primeiro capítulo, do sonho social, traz presente toda essa realidade da violação de direitos dos povos da Amazônia, e chama a Igreja a assumir esse compromisso efetivo, principalmente diante do abuso, da exploração e do tráfico de pessoas”. A religiosa insiste que essa “é uma causa comum que a Igreja tem assumido e dado resposta a essas violações de direito que fere tanto a vida, principalmente das crianças e adolescentes”.

De 16 a 24 de maio, a Igreja católica está celebrando a Semana Laudato Si, fazendo memória do 5º aniversário da publicação da encíclica. Nessa conjuntura, o 18 de maio, é mais uma oportunidade para descobrir que “o papa Francisco nos chama a compreender nosso papel no cuidado da casa comum, na defesa da vida como um todo”, afirma a auditora sinodal. Ela insiste em que “uma das questões que aparece muito forte na encíclica Laudato Si, é quando o Papa pergunta para a humanidade que mundo queremos deixar para as futuras gerações”.

Desde essa perspectiva, a religiosa se pergunta “que gerações estamos formando para o cuidado dessa casa comum”, insistindo em destacar “a importância de cuidar da infância, porque uma criança que é abusada, que é violada em seu corpo, em sua dignidade, como ela vai cuidar depois dessa casa que é comum a todos nós”. Não podemos esquecer que o cuidado da infância sempre “se faz necessário e urgente, principalmente nesse tempo que a gente vive de pandemia, que o próprio isolamento social tende a acirrar essa violência contra crianças e adolescentes, principalmente o abuso e exploração sexual”, conclui Rose Bertoldo.

Fonte: IUH

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