Comunidade ucraniana no Brasil e os refugiados

Urge minimizar o sofrimento dos refugiados, sejam eles quem forem, venham de onde vierem.

Por Alfredo J. Gonçalves*
Foto: Sandor Csudai

De passagem por Curitiba, PR, converso como uma descendente de ucranianos que vou chamar de “J”. Como filha daquele povo, participa de um Comitê de organização que se prepara para a acolhida aos refugiados da guerra entre Rússia e Ucrânia. Não é pequena a preocupação de “J”, pequeno é o sentimento de sua força diante de um problema tão abrangente e tão inesperado. É visível a emoção em seus olhares, palavras e gestos.

Segundo “J” (e outras estimativas o confirmam), existiriam atualmente no Brasil cerca de 600 mil ucranianos. Desses, boa parte encontra-se na grande Curitiba, no Paraná, como também nos demais estados do sul. Diz ela que os ucranianos, se vierem para o Brasil, devem desembarcar nos aeroportos internacionais de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Somente num segundo momento é que deverão se deslocar para outras localidades do país. Difícil imaginar, e mais difícil ainda descrever os sentimentos de quem se encontra tão distante, frente ao drama que se abateu sobre os conterrâneos no país de origem.

O fato é que “J” e outros ucranianos já se mobilizam para uma digna acolhida de seus irmãos e irmãs que podem chegar. O flagelo dos bombardeios prossegue aterrorizante, e cresce a cada dia o número de fugitivos. Como dizer-lhes que, mesmo fora de casa e da terra em que nasceram, podem sim encontrar abrigo e refúgio. Essa é a preocupação da comunidade ucraniana. Várias famílias já se dispuseram para receber essas vítimas que, em seu torrão natal, jamais poderiam imaginar turbulências tão graves e trágicas.

Nunca é demais recordar que, de algumas décadas até os dias atuais, o mundo assiste estarrecido ao crescimento não apenas dos focos de refugiados, mas também da quantidade dos que se vêm obrigados a deixar a própria pátria. Os casos vão se multiplicando de forma devastadora e por toda parte: Síria, Venezuela, Sudão do Sul, Mianmar, Afeganistão, e de repente esse embate envolvendo Rússia e Ucrânia. Isso sem levar em consideração os “refugiados climáticos”, cujos números também crescem de forma exponencial. Tampouco podemos ignorar os “refugiados da fome”, provenientes de lugares como Etiópia, Eritreia, Somália, Mali, Zimbábue, Burquina Faso, Índia, Haiti!... E há ainda os que, mesmo empobrecidos, famintos e massacrados, sequer podem deixar o país, como vem ocorrendo no Iêmen.

Violência, guerra e pobreza se estendem pela face do planeta e, com elas, a fuga imprevista e desesperada de multidões em desespero. Diferenças étnicas, religiosas, políticas e ideológicas resultam em tensões, conflitos e enfrentamentos armados que constrangem tanta gente a essa marcha forçada. Marcha dramática, com sofridas e penosas separações, tanto para os que ficam quanto para os que partem. Para uns e para outros, sangra o coração e a alma. Para os primeiros, porque seguem em campo minado e conflagrado por batalhas que semeiam fogo, terror e morte. Para os segundos, devido à incerteza do que o horizonte lhes reserva. Terrenos e casas, bens e pessoas, relações e amizade, trabalho e profissão – tudo deve ser deixado para trás. Patrimônio familiar, social, emocional e espiritual, dura e cuidadosamente construído ao longo de uma vida, é violentamente abandonado. A imensa maioria tem de sair só com a roupa do corpo. Ou então, como diz o poeta, com “a cara e a coragem”.

Ficar significa correr riscos, conhecidos ou desconhecidos. Enquanto os mísseis explodem sobre edifícios, ruas, praças e casas, mulheres, crianças e idosos tentam escapar. Não o podem fazer os que, cedo ou tarde, deverão ser utilizados na defesa do país invadido. Daí a dolorosa separação entre marido e mulher, pais e filhos, netos e avôs. Difícil cortar raízes, faz sangrar o coração e a alma. As lágrimas banham os que se despedem sem saber o que lhes revelará o porvir. Do lado de cá, a comunidade ucraniana se prepara. Urge minimizar o sofrimento dos refugiados, sejam eles quem forem, venham de onde vierem. Um duplo desafio se impõe: cicatrizar feridas da guerra e, ao mesmo tempo, descortinar oportunidades para o recomeço.

* Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM).

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