Manifestações suspeitas

Alfredo J. Gonçalves *

De cara, no clima das manifestações que se espalharam por todo o Brasil no último dia 15 de março- cartazes, faixas, palavras de ordem, coreografia - emerge um tratamento vil e baixo contra a instituição da Presidência da República, em última instância, contra a própria democracia. Bem ou mal, Dilma Russelft foi eleita legitimamentepela maioria dos cidadãos brasileiros.De outro lado, torna-se difícil isentar de responsabilidade os desmandos da presidente atual, como também dos governos que se seguiram à ditadura militar. Todos, em maior ou menor grau, trataram de responder menos às necessidades da população e mais às suas expectativas.

Enquanto estas últimas são filhas do consumismo estrepitoso do mercado, aquelas nascem do chão vivo, real e concreto da pobreza. Umas produzem votos e frutos imediatos, mas logo apodrecem; as outras, de forma lenta e progressiva, tendem a erguer o nível de vida de um povo. Mas nada disso, como veremos, não justifica o retorno dos militares ao controle do país.

Seja como for, voltando às manifestações que reuniram mais de um milhão de pessoas, essa atitude de "cães raivosos", quase a destilar espuma pela boca e fogo pelas narinas, traduz um "ódio de classe" ou da "elite branca", como bem o definiu Juca Kifuri, em artigo recente na Folha de São Paulo. Uma elite que, de um ponto de vista histórico e estrutural, carrega a marca de um DNA extremamente conservador, retrógrado e autoritário, o qual, diga-se de passagem, versa sobre a população em geral uma indiferença arrogante e um desprezo recheado de preconceitos. Não seria exagero falar de apartheid social ou racismo de classe. Bastaria isso para desautorizar, pela raiz, suas reivindicações infundadas de "impeachement já".

Esconde-se em tudo isso uma hipocrisia oculta e mesmo explícita. Sem dúvida, todos somos contra a corrupção e contra o mau uso dos bens da União. Mas essa mesma "elite branca", há séculos, domina, corrompe e desvia dinheiro público, ao mesmo tempo que se beneficia dos privilégios e benesses do poder. A única diferença é que agora o Ministério Público e a Polícia Federal, graças a uma maior autonomia diante dos três poderes, se puseram a investigar para valer. O que levou à descoberto de que não poucos "defensores da ordem" mantêm o rabo preso com a "desordem". Enquanto anteriormente a corrupção ocorria de forma velada e legitimada pelas autoridades (i)responsáveis, hoje se usa de mais transparência por parte dos órgãos públicos.

Numa palavra, não foi a corrupção e o uso indébito da rex publica que aumentaram, como muitas vezes pretende a mídia. O que aumentou foi a investigação séria e consequente, capitaneada por uma vontade política antes adormecida. Daí o maior volume de notícias, imagens e denúncias sobre esse "vírus", bem conhecido e crônico na trajetória nacional da administração pública. Aumentou também, inegavelmente, uma relativa de distribuição de renda aos mais pobres, através de uma série de programas sociais, tais como o "Minha casa minha vida" (MCMV), para só falar de um. Certo, não se trata propriamente do que se pode chamar de política pública, mas não deixa de ser uma política compensatória, diante dos abissais desequilíbrios socioeconômicos de que se compõe tradicionalmente o tecido social brasileiro.

Mas a hipocrisia não se detém aí! Tem outras caras normalmente disfarçadas, mas que se revelam de improviso, chegando ao ponto de vociferar pelo retorno das "forças armadas". Bem entendido, tais vozes, por mais altissonantes e raivosas que sejam, limitam-se a uma minoria de mórbidos saudosistas.Não foram elas que deram o tom das manifestações. Desde o mais profundo de suas vísceras,porém, temem a ascensão popular e a justiça social, como o diabo teme a cruz. E por isso gritampela volta do regime de exceção de décadas passadas. Nestes parágrafos, não há espaço (nem necessidade) de elencar os males do regime de exceção que se impôs no Brasil (e em outros países do continente) a partir do golpe militar de 1964. Aqui basta repetir, alto e bom som, o lema"Brasil nunca mais" do livro publicado pelo grupo de Justiça e Paz que girava em torno da figura de Dom Paulo Evaristo, Cardeal Arns.

Nunca mais o fechamento do Congresso Nacional, a eliminação pura e simples dos partidos e oposições de todas as tonalidades; nunca mais a censura da imprensa falada, escrita e televisiva, ou das manifestações culturais; nunca mais as perseguições, prisões e especialmente a odiosa prática da tortura contra lideranças políticas, sindicalistas, estudantis e religiosas; nunca mais a submissão às botas e fardas soldadescas que, com violência e sem escrúpulos, pisoteiam os direitos humanos e a dignidade do cidadão; nunca mais a fobia enfermiça da "ideologia de segurança nacional" que via "comunistas" em todas as vozes dissonantes... Não, nunca mais a tirania do pensamento único, seja ele político, ideológico, religioso ou militar!

Tampouco dá para ocultar a cumplicidade, às vezes estridente, dos mais poderosos meios de comunicação social. Hoje em dia não podemos nos dar ao luxo de ignorar ou subestimar o "quarto poder" das telecomunicações. Aliados aos latifundiários e expoentes do agronegócio, aos banqueiros e empresários de alto rango,aos grandes comerciantes e especuladores em geral - promovem um bombardeamento diário sobre aqueles que "ousaram usurpar-lhes parte do bolo". Para tais setores da "elite branca", o poder em mãos de gente que não pertence ao "círculo cerrado" das pessoas de bem (e de bens) - ou à Casa Grande, como diria o sociólogo Gilberto Freire - significa usurpação. A elite brasileira não admite, em nenhuma hipótese, perder terra, renda e capital, por mais razoável que seja a argumentação. O que explica a enorme dificuldade de levar adiante uma verdadeira reforma agrária e agrícola, bem como uma reforma política e tributária.

Prevalece, em lugar disso, a pretensão de regrar, controlar e impor limites ao processo democrático, impedindo que os habitantes da base da pirâmide social (ou seja, da Senzala) tomem as rédeas da nação.Revela-se aqui, consciente ou inconscientemente, o doentio saudosismo dos currais eleitorais, do voto de cabresto, do apadrinhamento político e da negociação aberta ou velada com a influência do mandato. E traduz-se, ao mesmo tempo, o temor não pelos saques aos cofres públicos, uma vez que sempre os perpetraram sem qualquer tipo de escrúpulos, mas pela democratização dessa prática política, pela extensão dos privilégios e benesses a outros extratos sociais.

Coisa curiosa, mas perfeitamente explicável, as elites históricas brasileiras, acostumadas aos mandos e desmandos, reivindicam para si o monopólio e os ganhos da corrupção. Defendem com unhas e dentes não a ética na política e menos ainda a transparênciana prática democrática, e sim a manutenção dos mecanismos de acúmulo de capital, desde que limitado à "elite" que forma o pico da pirâmide. Temem a luz da verdade, mas temem ainda mais a presença de outros ratos que lhes venham disputar o queijo!

Barcelona, Cataluña, 16 de março de 2015

* Alfredo J. Gonçalves, CS, é Conselheiro Geral e Vigário dos Missionários de São Carlos.

Fonte: Revista Missões

Deixe uma resposta

dezessete − cinco =