O sopro do Espírito

Alfredo J. Gonçalves *

Diz o relato bíblico do Antigo Testamento, no Livro do Gênesis, que "Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente" (Gn 2,7). Desse poema que remete simbolicamente às origens, conclui-se que o "Sopro de Deus" ou "Sopro do Espírito" é sinônimo de vida. A partir dele, a energia vital penetra, vivifica e move todo o projeto da criação. Na base de tudo encontra-se o amor de Deus. Amor que, por sua natureza expansiva se estende à criatura humana, conferindo-lhe, ao mesmo tempo, o dom da liberdade.

A chama se apaga...
Cedo, porém, abusando da bondade divina e de sua própria liberdade, o homem rompe com a melodia da criação - "e Deus viu que tudo era bom" - destorcendo-lhe o sentido mais profundo. Pelo pecado da soberba, da arrogância e da ambição, a inteligência, que tudo pretende dissecar, sobrepõe-se à beleza e à sabedoria da contemplação. A razão férrea e fria, na ânsia de tudo dominar e manipular, conquistar e explorar, tudo acaba perdendo. Ergue-se um muro intransponível entre o Criador e a criatura, tornando-os estranhos um à outra. Em lugar do sopro vital, entram a fazer parte da história o vento gélido do mal, do egoísmo e da morte. O homem torna-se surdo, mudo e insensível à voz e à presença de Deus. Torna-se prisioneiro de uma gaiola, epicentro de um universo fechado sore si mesmo. A sinfonia universal converte-se em uma cacofonia de notas, sons e ruídos incompreensíveis. A imagem simbólica dessa pretensão humana encontra-se, também ela, no mesmo Livro do Gênesis, no episódio da Torre de Babel (Gn 11, 1-9).

Seus méritos ou esforços pouco valem para um voo rumo ao "paraíso perdido". Na escada entre o céu e a terra, é Deus que toma a iniciativa e desce para salvar a humanidade decaída. Nisso esconde-se o mistério da encarnação, o qual não se resume ao nascimento, vida e morte de Jesus, mas repesenta um processo em que o Senhor "vê, ouve e conhece" a situação e o sofrimento do seu povo escravo no Egito, e por isso "desce" para libertá-lo e conduzi-lo à Terra Prometida. A história salvífica começa na criação e se stende até a escatologia. De um extremo a outro do espectro, por diversas vezes o povo dar-se-á que tal trajetória contém impressas - a luz, amor e fogo - as impressões digitais de um Deus que vem caminhar conosco pelas estradas do êxodo, do deserto e do exílio.

O fato é que, descobrindo-se nu, e despido da presença paterna/materna de Deus, o homem procura falsas compensações. Cria ídolos de toda espécie, não hesitando prostrar-se aos pés da própria obra, como se fosse verdadeiro deus. Tenta substituir a nudez com um revestimento feito de farrapos externos que o deixam ainda mais exposto. Sua história, pessoal ou coletiva, desenrola-se numa busca frenética e vertiginosa busca de referências, onde uma supera a outra de acordo com a moda. No fim das contas, todas acabam sendo devoradas pelo vórtice do vazio existencial. A razão, a ciência e a tecnologia, apesar de mergulharem suas raízes na ordem divina da criação, são muitas vezes usadas para as sofisticadas inovações da indústria bélica. Nessa corrida armamentista, o importante é manter a todo custo o punho da força e o domínio sobre os demais seres vivos, particularmente o homem, e sobre a natureza como um todo.

O progresso e a democracia, subordinados a essa mentalidade dominadora, na grande maioria dos casos, nada fazem a não ser submeter-se às leis ditadas pelo acúmulo de riqueza e maximização do capital. Com o chamado "movimento de globalização", impõe-se por toda parte o mercado total e absoluto. Impõe-se igualmente o imperativo da produção, crescimento, comercialização e consumo, num círculo vicioso e espiral que a tudo e a todos tiraniza e devora. No fim da linha, impõe-se, ainda, a necessidade de "descartar" pessoas e coisas. Ou, como diria o Papa Francisco, a "cultura do descartável". Disso resulta que palavras como "poder e ter", "prazer e rumor", entre outras, passam a fazer parte desse universo. Universo no qual o "ser" entra em cena apenas como mero coadjuvante, ou, mais grave ainda, em boa parte das vezes sequer é chamado ao teatro da vida.
Nesse quadro de opressão e injustiça crescentes, o acúmulo de poucos caminha de braço dado com a exclusão socioeconômica de multidões anônimas, a fome tropeça diariamente com a opulência e o desperdício, a esperança se alterna com o desespero. Não falta alimento para os habitantes do planeta Terra, falta solidariedade; não falta dinheiro para o bem estar de todos, falta justiça; não falta riqueza num solo que tudo coloca à disposição da humanidade, falta partilha e comunhão.

... E se reacende...
No meio deste processo de reflexão, vale uma para parada para uma pergunta ao mesmo tempo incômoda e interpeladora: estamos diante de uma situação irreversível, de um caminho sem retorno? A resposta a essa pergunta é decisivamente negativa. Não, não estamos diante de um processo irremediável! "A Deus nada é impossível" - repetimos a cada instante! E nem sempre nos damos conta da profundidade oculta na frase. De fato, apesar do muro do mal, do pecado e da morte, erguido pelo homem entre este e Deus, o Criador não pode deixar de amar. O amor constitui o respiro vivo e continuo de sua natureza divina. "Deus é amor" (1Jo 4,8) constitui, sem dúvida, a definição mais simples e simultaneamente mais completa dessa verdade que permanecerá sempre oculta.

Amor que se introduz através das fissuras do muro de separação, através das menores rachaduras e lacunas de todas as barreiras levantadas pela desobediência humana. Um amor que não conhece fronteiras nem impedimentos. Não obstante toda a volência, toda negação e a tragédia da cruz, oferece a si mesmo como dom da felicidade mais completa. Como quem espreita um momento oportuno para repetir à criatura amada o convite a ouvir a melodia inexprimível da vida, a música das músicas. De forma inteiramente gratuita, segue enviando notas e raios desse amor inefável, na esperança de um milagre de conversão. "Estou à porta e bato. Quem ouvir minha voz e abrir a porta, eu entro em sua casa e janto com ele, e ele comigo" (Ap 3, 20).

O ser humano, por seu lado, por mais espessa que seja a barreira que o separa de Deus, não pode deixar de ter saudade do canto original, da mais genuína sinfonia. A voz do Criador, expressa na maior e mais bela das músicas, toca-lhe profundamente as fibras do coração, seu toque e seu ritmo pulsam-lhe no íntimo da alma. Como na parábola do Filho Pródigo, ou Pai misericordioso (Lc 15, 11-32), o retorno a casa, onde há luz, amor e familiaridade, adquire uma força irresistível. Por que não? - pergunta o pecador do lado de cá do muro! Se na casa de meu Pai até mesmo o menor dos servidores leva uma vida mais digna e feliz do que esta, inventada por uma "liberdade" impetuosa e irresponsável, por que permanecer aqui fora, longe do conforto e da paz?

Arrependido, levanta-se e põe-se a caminho. Do lado de lá, o Pai, apenas o vislumbra à distância, abre-lhe os braços e emite ordens para a preparação do banquete festivo, onde recomeça a canção do amor.
Mas, como é fácil percener, tal retorno não ocorre de forma mecânica, como que num passo de mágica. Tem suas etapas e exigências. Três verbos extraídos do Evangelho de Mateus podem ilustrar esse processo de conversão e regresso à casa paterna: pedir, buscar, bater (Mt 7, 7-10). Três verbos que retomam o "sopro do Espírito", a energia vital para penetrar, vivificar e mover a semente da vida que, sob a terra, aspira pelo ar livre, pelo céu azul e pela luz do sol.

... Para pedir, buscar, bater...
Primeiro é preciso pedir: "pedi e vos será concedido"! Entra em cena, ao mesmo tempo, o sentimento nocivo da separação e a exigência da humildade. Ambos conduzem a uma atitude permanente de oração, mais do que a fórmulas estereotipadas de um devoconismo ou ritualismo estéreis. Faz-se necessário despir a máscara da auto-suficiência e erguer os olhos ao alto. Passar de uma atitude prepotente a uma relação de abertura e diálogo, passagem que contém, alternadamente, renúncia e descoberta de tesouros até então desconhecidos.

Humildade não é sinônimo de humilhação. O ser humano nunca é tão grande como no momento em que se põe de joelhos diante do Criador. Este, por seu lado, mediante o arrependimento, está sempre disposto ao perdão e à misericórdia. Humildade, nesta perspectiva, significa reconhecer que - órfãos, sós e perdidos - não fazemos mais do que reforçar as cadeias que nos aprisionam sobre nós mesmos, reforçando o muro da divisão e aprofundando a solidão e a infelicidade.

Em segundo lugar, vem a busca: "buscai e encontrareis"! O amor é dom gratuito de Deus. Nem por isso deixa de ser igualmente busca. Dom e busca não se excluem, ao contrário, constituem a conditio sine qua non para o encontro. O amor, quando não correspondido é igualmente impossibilitado de fechar-se sobre o próprio umbigo: volta-se a outros campos mais férteis, a outros corações mais aolícitos, a outras oportunidades mais prometentes. O próprio pecador se afasta da casa iluminada onde sua alma deixou raízes indeléveis. Perde-se nas trevas do erro e de um vazio sem sentido. Caindo em si, recorda-se do abrigo aconchegante deixado para trás. Saudoso do calor e da música da casa, interpelando pela iniciativa do amor divino, engatinha o primeiro passo em direção ao lar abandonado. A partir deste momento, com perseverança na busca, o processo segue o ritmo natural. Criador e criatura se atraem e tendem ao reencontro, pois "o coraçãoo irrequieto do homem, tendo sua fonte em Deus, é incapaz de descansar enquanto a Ele não retorna", lembra Santo Agostinho. Ganha força o

"sopro da vida".
Enfim, após pedir e buscar, o pecador bate à porta: "batei e vos será aberto"! Depois de tão longa e penosa trajetória, de tantos esforços, de nada adianta permanecer na soleira da casa tão ardentemente desejada. Por que permanecer do lado de fora, ouvindo a música que a enche de alegria e luz os espaços internos! E agora a situação se inverte: se no primeiro momento o Criador "estava à porta e batia" à espera que lhe abrissem, agora é a criatura que chama e implora. Certamente, porém, não se fará esperar. O Pai não desvia o olhar a quem procura seu rosto, nunca fecha a porta a quem bate, jamais vira as costas a quem o busca de coração sincero. Abre-se então uma grande janela, descortina-se um horizonte simultaneamente familiar e inédito de novas relações e novas descobertas. Após esse período de depuração e purificação, devido à dor e ao sofrimento do pecado e da separação, o reencontro se faz mais ansioso e profundamente desejado. Paradoxalmente, a ausência faz crescer o sentimento daqueles que se amam verdadeiramente. A reaproximação ganha um tempero todo especial, um sabor inédito e desconhecido pelo "filho mais velho" da parábola citada anteriormente, o qual, em toda sua vida, jamais arriscara a sua liberdade fora da casa e da proteção paterna.

... À porta do Pai e do irmão
Entretanto, os três verbos assinalados e refletidos nos parágrafos precedentes - pedir, buscar e bater - trazem embutida outra exigência. Requerem necessariamente uma contrapartida por parte do pecador que, vindo de longe, aproxima-se do coração de Deus. Em outras palavras, não se retorna à casa do Pai sem passar pela existência dos irmãos, cujos rostos, não raro, encontram-se desfigurados justamente pelo pecado, pelo mal e pela morte. O voo para Deus faz escala nas situações e contradições da existência social, econômica, política e cultural. Sómente quem tem os pés firmes no solo vivo e concreto da história, será capaz criar asas e voar.
De fato, os relatos evangélicos demonstram que ao amor filial de Jesus corresponde o amor fraterno pelos pobres e excluídos, os doentes e indefesos, os pequenos e últimos - os mais sofridos, marginalizados e necessitados. O amar a Deus e o amor ao próximo andam de mãos dadas: integram-se, entrelaçam-se, complementam-se e se interpelam de forma recíproca. Parafraseando Paulo Freire, ninguém salva ninguém, ninguém se salva sozinho; a salvação tem um caráter ao mesmo tempo pessoal e comunitário, uma dimensão estando subordinada à outra. Mostra-o de de uma maneira absolutamente inequivocável o relato do chamado Juízo Final: "tudo o que vocês fizeram a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25, 40).

Em termos mais concretos, antes de "pedir, buscar e bater", antes de dirigir-se à cada do Pai, é preciso perguntar pela condição do próximo, daquele que está "caído à beira da estrada", como na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). A conversão vertical, digamos assim, vem acompanhada da conversão horizontal. Ambas se complementam. Longe de representarem duas vias retorno, constituem antes duas dimensões de um único processo de retomada do caminho abandonado. Da mesma forma que afastar-se de Deus é distanciar-se dos outros, reaproximar-se do Pai implica igual reaproximação com os irmãos. Nos dois casos - Juízo Final e Bom Samaritano - o critério último da salvação é a atitude diante do clamor daqueles cuja vida se encontra ameaçada.

A própria oração do Pai Nosso (Lc 11, 1-4) não deixa dúvidas. Por um lado, quem diz "Pai nosso" logo deverá reconhecer também que o "pão é nosso". Traduzir essa oração na vida cotidiana - oração que, em lugar de mera fórmula a ser repetida diariamente, consiste em uma atitude de vida - implica um olhar para o alto, na contemplação do Pai, do seu nome santo, da sua vontade e do seu Reino e, ao mesmo tempo, um olhar ao redor, no empenho para que não falte o "pão de cada dia" a todos os irmãos, vale dizer, as condições reais de uma vida justa, digna e solidária.

Por outro lado, se no "pedir, buscar e bater", solicitamos ansiosamente o perdão e a misericórdia do Pai para nossos pecados, somos igualmente convidados a perdoar as "ofensas", faltas e fraquezas uns dos outros. Como esperar do Pai, a quem não podemos ver, o que recusamos aos irmãos, a quem vemos e com quem convivemos? O caminho que conduz à cada do Pai passa, necessariamente, pelo compromisso com a existência concreta daqueles que, por seu turno, batem insistentemente, desesperadamente à nossa porta. Vale repetir, um processo único em duas dimensões.

* Alfredo J. Gonçalves, CS, é Conselheiro Geral e Vigário dos Missionários de São Carlos.

Fonte: Revista Missões

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