Cultivar a solidariedade

Dom Demétrio Valentini *

Vamos enveredando para mais um final de ano, que o mês de novembro já deixa entrever. 2009 foi pródigo de apelos, como Ano Paulino, Ano Catequético, Ano Sacerdotal. Sem esquecer que ainda estamos no Ano Centenário de D. Helder.

A este propósito, novembro acena de novo para D. Helder. No dia 12 se comemora a fundação da Cáritas Brasileira, em 1956. Para assinalar esta data, há anos a Cáritas vem promovendo a Semana da Solidariedade, de 05 a 12. Se ela faz sentido todos os anos, mais ainda neste, em que estamos recolhendo a memória deste grande profeta que Deus suscitou em nosso tempo.

São diversas as maneiras para medir o tempo. Seja em anos, em meses, em semanas, em dias, e até em horas. Cada qual realça uma dimensão.

Qual a dimensão ressaltada pela semana?
A semana é a melhor medida para o ritmo da vida. Cada semana faz o giro completo. Não é por nada que a Bíblia apresenta o relato simbólico da criação do mundo no espaço de uma semana. Cada semana dá a volta na vida.

É por isto que a consciência mais aguda do nosso cotidiano faz referência à semana, não ao mês. Podemos duvidar sobre o dia do mês em que estamos, mas não duvidamos em que dia da semana nos encontramos.

Qual o sentido de destacar uma semana inteira?

Para enfatizar um valor que não pode faltar na vida.

Assim chegamos ao sentido da "Semana da Solidariedade", que a Cáritas Brasileira propõe anualmente, por ocasião do seu aniversário.

É para dizer que na vida não pode faltar a solidariedade. Ela deve fazer parte da dinâmica da vida. Não pode se limitar a ações esporádicas, a atitudes inócuas ou superficiais, que em nada alteram a existência humana. A solidariedade precisa se constituir em componente normal de nosso relacionamento humano.

João Paulo II insistia que era preciso "globalizar a solidariedade". Numa época em que todos os setores da sociedade recebem o impacto da globalização, é possível impregnar de solidariedade a própria globalização.

Bento 16 esclarece que, em princípio, a globalização não é nem boa nem má. Depende de como ela se realiza. Podemos aproveitar os caminhos da globalização para propagar valores que elevam e dignificam a existência humana, esclarece ele na recente encíclica Caritas in Veritate.

A solidariedade tem seus níveis, alguns mais evidentes e talvez mais superficiais. Outros mais profundos e mais consequentes.

Ainda lembrando a figura de D. Helder, ele próprio costumava dizer: "Quando dou aos pobres um pedaço de pão, me chamam de santo. Quando pergunto pelas causas da fome no mundo, me chamam de comunista!".

A Semana da Solidariedade serve tanto para os pequenos gestos, que sempre são válidos, como para mostrar quanto a solidariedade pode transformar as estruturas da sociedade, sejam políticas ou econômicas.

Como não vivemos sem as semanas, não devemos viver sem a solidariedade. É o recado que a Cáritas continua nos dando, segundo o exemplo de D. Helder.

* Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira

 

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