Pluralismo religioso e enriquecimento recíproco no campo das Missões

Tamrat Markos Mitore *

Na Carta Encíclica Redemptoris Missio (nº 55), fala-se do papel que a Igreja exerce no tocante ao diálogo inter-religioso. Ela colabora na construção do Reino de Deus, promovendo com os homens de outras tradições religiosas o conhecimento e o enriquecimeto recíprocos nas diferentes formas. Qualquer tipo de diálogo

tem um fim comum: a comunicação recíproca, a comunhão interterpessoal. A Igreja - sacramento universal de salvação - tende, por sua própria natureza, a comunicar-se com todos os homens, mulheres e tradições...

Nós, cristãos, devemos reconhecer que Deus se revela a todos os homens e mulheres, fala-lhes uma linguagem compreensiva, convida-os a viver em comunhão com ele. A revelação é principalmente um acontecimento histórico: Ele nos fez conhecer o mistério da sua vontade, a livre decisão que havia tomado outrora (Ef 1,9).

A este ponto, não podemos esquecer de falar sobre a cultura que faz parte do mundo do pluralismo. Ela é a forma específica em que se expressa a natureza humana, o campo onde os homens e as mulheres se movem para atingir conscientemente o seu destino. Toda cultura tem fronteiras verticais e horizontais definidas pelo espaço e pelo tempo. Por isso, podemos dizer que cada cultura tem seus valores que não podem ser absolutizados, dado que todos os valores são relativos.

Por certo, quando falamos dos valores culturais, tanto dos tempos antigos quanto da atualidade, não faltam pessoas que julgam possuir valores salvíficos, e chegam até a catalogar os outros valores como sendo de segunda ou última classe. Lembro uma expressão famosa, que talvez nos ajude a compreender o que estou dizendo: "Fora da Igreja não há salvação"... Ou esta: "Salvar almas"... Penso que afirmações deste tipo restringem as possibilidades reais da salvação em outras culturas e religiões. Deus, independentemente da Igreja, manifesta seu amor em cada povo, em cada cultura, na história... Portanto, devemos dizer que o único que salva é Deus, não as religiões... Ao mesmo tempo, contudo, é preciso crer e confessar que as religiões são caminhos de salvação, onde homens e mulheres de diferentes culturas, através do conhecimento da Verdade, buscam a salvação.

O diálogo inter-religioso é um modo possível de fazer conhecer o Evangelho e de adquirir experiências espirituais de outras religiões. É um fato: seus seguidores, testemunhando entre si os próprios valores humanos e espirituais, cooperam na edificação de uma sociedade mais justa e fraterna. O Papa João Paulo II, na Carta Encíclica Redemptoris Missio, enquanto reconhece as dificuldades e desafios existentes neste campo, insiste sobre a importância e a necessidade do diálogo inter-religioso e do pluralismo religioso no campo da missão: "Sabendo que bastantes missionários e comunidades cristãs encontram, no caminho difícil e por vezes incompreendido do diálogo, a única maneira de prestar um sincero testemunho de Cristo e um generoso serviço ao homem, desejo encorajá-los a perseverar com fé e caridade, mesmo onde os seus esforços não encontrem acolhimento nem resposta. O diálogo é um caminho que conduz ao Reino e seguramente dará frutos, mesmo se os tempos e os momentos estão reservados ao Pai" (Redemptoris Missio, 57).

Nossos dois Institutos missionários (IMC e MC), pelo fato de terem dado início ao trabalho missionário em vários países do mundo (Coreia do Sul, Mongólia, Costa do Marfim, Djibuti...), mostram que compreenderam muito bem a importância e a necessidade do diálogo inter-religioso e do ecumenismo. Apesar de desafiador, este trabalho deve ser continuado. Aos poucos vão aparecendo também os frutos.

No dia 18 de outubro de 2009 - Dia Mundial das Missões - um fato importante marcou nossa atividade de animação missionária e vocacional na Região do Brasil. Uma jovem carioca - Irmã Michelle da Cruz, missionária da Consolata - que acreditou no pluralismo religioso e seus conteúdos, foi enviada para Djibuti, onde trabalhará entre os muçulmanos. Natural do Rio de Janeiro, na Paróquia "Nossa Senhora Consolata", foi batizada pelos nossos Missionários, que na ocasião regiam aquela comunidade paroquial. Nós, da equipe de Animação Missionária e Vocacional, achamos importante acompanhá-la neste dia muito significativo do seu "envio missionário".

Tivemos assim oportunidade de falar da vocação missionária a um considerável grupo de jovens e adolescentes da catequese daquela paróquia.

Merece destaque o grupo dos Leigos Missionários da Consolata do Rio pelo muito que fizeram na organização da celebração do "envio" da Irmã. A eles, bem como a quantos colaboraram, nossos agradecimentos! Bendito seja Deus para sempre!

* Tamrat Markos Mitore, IMC, é etíope e trabalha no Centro Missionário José Allamano, em São Paulo.

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