Paulo apóstolo e missionário

Paulo tem a certeza que o caminho da fé não significa conquistar a Deus, mas, pelo contrário, ser conquistado por Ele

Por Giovanni Crippa *

O apóstolo Paulo nasceu em Tarso, na região da Cilícia, Ásia Menor, atual Turquia (At 9, 11; 21, 39; 22, 3; cf. 9, 30; 11, 25), entre os anos 7 e 10 depois de Cristo. Pertencente a uma família judaica da Diáspora (desde o VI século antes de Cristo, houve inúmeras emigrações de judeus para fora da Palestina), foi criado dentro das “tradições paternas” (Gl 1, 14). Estes dois ambientes marcaram sua vida de tal maneira que ele teve dois nomes: o judaico, Saulo, (At 7, 58), e o grego, Paulo (At 13, 9).

No caminho de Damasco aconteceu um encontro – estamos por volta do ano 36 d.C. – que mudou a vida de Paulo. Estava indo contra Cristo e naquele momento fez a experiência de Jesus que veio ao seu encontro: "Saulo, Saulo, por que você me persegue? Quem és tu, Senhor? Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo” (At 9, 4-5).

Ele mesmo resumiu esta experiência, o sentido da sua vocação e da sua missão: “Deus, porém, me escolheu antes de eu nascer e me chamou por sua graça, quando Ele resolveu revelar em mim o seu Filho, para que eu O anunciasse entre os pagãos” (Gal 1, 15-16).

A primazia da fé e da graça

Paulo tem a certeza que o caminho da fé não significa conquistar a Deus, mas, pelo contrário, ser conquistado por Ele. A fé é um render-se a Deus que se revela: “fui conquistado por Jesus Cristo” (Fl 3, 12). A conversão não foi fácil. Homem seguro de si, convicto da sua fé judaica, da sua cultura grega, do prestígio de ser cidadão romano. Auto-suficiente, artífice da sua própria salvação, obtida através da observância da Lei. Intransigente com tudo aquilo que afetava suas certezas. Lutava por uma idéia: o conceito que tinha de Deus. Este lado negativo, porém, manifestava uma sinceridade profunda e um desejo de totalidade.

Depois de Damasco, Paulo não se baseia mais naquilo que é ou faz, mas no amor fiel de Deus. Paulo se sente amado gratuitamente por Deus, apesar de sua vida e do seu pecado. “Onde o pecado se multiplicou, a graça de Deus se multiplicou muito mais” escreve na carta aos Romanos (5, 20). Escrevendo a Timóteo, descreve o caminho da sua conversão: “... obtive misericórdia porque eu agia sem saber, longe da fé. Sim, ele me concedeu com maior abundância a sua graça, junto com a fé e o amor que estão em Jesus Cristo” (1 Tm 1, 13-14).

A centralidade de Cristo

O homem que nasce no caminho de Damasco passa pela cruz. Paulo procurava a Deus numa idéia, na Lei, mas agora encontra o rosto de Deus nos cristãos que ele mesmo perseguia. O caminho para encontrar a Deus é o Filho crucificado e vencedor da morte. O Cristo crucificado é o centro da sua pregação: “Nós, pelo contrário, anunciamos um Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23).

“Quando fui ao encontro de vocês – escreverá aos Coríntios – eu não quis saber outra coisa a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1 Cor 2, 2). No Cristo crucificado, Paulo descobre um Deus diferente, um Deus que ama até o fim, até morrer. É o amor que salva!

“Conhecer Cristo” para Paulo não é somente conhecer a verdade de Cristo, isto é, a sua morte e ressurreição, mas é, sobretudo, a descoberta de um amor sem limites. O apóstolo conhecia o amor que Deus tinha reservado para com o seu povo, conhecia as palavras com as quais o Deuteronômio, Isaías, Oséias, Jeremias e Ezequiel cantavam este amor. Mas em Cristo morto e ressuscitado por nós, Paulo descobre um amor que ultrapassa radicalmente a sua imaginação (cf Gl 2, 20).

O anúncio e o serviço

O amor de Cristo tornou-se a força motivadora de toda a ação evangelizadora e missionária paulina. De fato, como os homens poderiam ter o amor de Cristo sem alguém que o anunciasse ou testemunhasse? (cf Rm 10, 13-15).

Anunciar o Evangelho é uma ordem e uma necessidade interior, existencial, que exige a dedicação de toda a vida. Na primeira carta aos Tessalonicenses, a carta que Paulo escreveu por primeiro, ele afirma “Queríamos tanto bem a vocês, que estávamos prontos a dar-lhes não somente o Evangelho de Deus, mas até a nossa própria vida” (1Ts 2, 8). Depois de sua “conversão”, Paulo atravessa parte da Ásia Menor (atual Turquia), da Síria e da Arábia (atual Jordânia), até Jerusalém, antes de se dirigir para a Europa, indo até a Grécia e, enfim, a Roma.

Por causa de Cristo, Paulo torna-se missionário, renuncia à carreira, padece perseguições e dificuldades até o martírio. “Sou um crucificado por Cristo. Eu vivo. Mas não mais eu: Cristo é que vive em mim” (Gl 2, 19-20). “Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9, 16). Paulo se torna apaixonado por Cristo: “Quem nos poderá separar do amor de Cristo?” (Rm 8, 35-39). Apóstolo por vocação (cf Rm 1, 1-15), Paulo é, antes de tudo, o servo da Palavra. Sua preocupação primária não é batizar (1Cor 1, 10), mas fundar comunidades animadas pelos vários ministérios missionários. Sua metodologia missionária se adapta aos diferentes ouvintes: aos judeus apresenta Jesus como o herdeiro das promessas feitas a Israel; sua pregação aos gregos concentra-se na apresentação do Deus único e da iminente volta de Cristo na Parusia.

A exemplo do Mestre, Paulo se torna um crucificado por amor, que oferece a vida, um servidor: servo de Deus (2Cor 6, 4); servo de Jesus Cristo (Rm 1, 1); servo do Evangelho (Ef 3, 7); servo da Igreja (Cl 1, 25); servo de todos (1Cor 9, 19).

O testamento

Escrevendo a Timóteo, seu companheiro e fiel colaborador, Paulo deixa um testamento que é um programa de vida para todo missionário: “Lembre-se de que Jesus Cristo, descendente de Davi, ressuscitou dos mortos. Esse é o meu Evangelho, por causa do qual eu sofro, a ponto de estar acorrentado como um malfeitor. Mas a palavra de Deus não está algemada. É por isso que tudo suporto por causa dos escolhidos, para que também eles alcancem a Salvação que está em Jesus Cristo, com a glória eterna. Estas palavras são certas: se com Ele morremos, com Ele viveremos; se com Ele sofremos, com Ele reinaremos. Se nós O renegamos, também Ele nos renegará. Se lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode renegar a si mesmo” (2Tm 2, 8-13).

* Giovanni Crippa é um sacerdote católico italiano do Instituto Missões Consolata. Foi elevado a bispo pelo papa Bento XVI em 21 de março de 2012. É bispo diocesano da Diocese de Estância.
(CC BY 3.0 BR)

Deixe uma resposta

dezoito + cinco =