O tempo de Deus e o tempo dos pobres

Tempo latifúndio, tempo investimento e tempo gratuito. O tempo é coisa preciosa.

Por Alfredo J. Gonçalves *

ampulhetaO tempo é coisa preciosa. “Time is money”, dizia Benjamin Franklin. Mais do que sinônimo de dinheiro ou riqueza material, porém, o tempo é dom, graça e presente de Deus. Juntamente com o conceito de espaço, podemos dizer que o tempo consiste em um terreno que o Senhor nos confia para que nele possamos cultivar o mais belo jardim da vida. Entretanto, em termos concretos, o tempo acaba adquirindo concepções diversas e até mesmo contraditórias. Convém levar em conta três delas: tempo latifúndio, tempo investimento e tempo gratuito.

Tempo latifúndio

É o tempo dedicado unicamente à própria pessoa, ou quando muito, e em termos egoísticos, voltado de forma exclusiva para a família, o grupo corporativista, o partido, etc. Tempo reservado às próprias paixões, desejos, interesses. Muitas vezes infértil e infecundo: cercado de cercas e muros para que os pobres ou estranhos não tenham acesso. A mais comum dessas cercas ou muros é o ilustrativo “não tenho tempo!” O que significa que o seu tempo está reservado para as necessidades ou vícios pessoais, tais como, o excesso de Internet, o culto ao carro ou a um lazer mórbido, doentio. O ativismo, a sobrecarga de compromissos , a agenda cheia, não raro, são outras formas de impedir momentos de gratuidade, como veremos mais adiante.

Mas aqui se esconde uma armadilha. Como tudo o que se acumula e guarda somente para si mesmo ou para os seus, também o tempo se desgasta. Quando acumuladas, as frutas e legumes apodrecem. Apodrece também a água parada, a carne escondida na geladeira ou a comida na dispensa. Apodrece igualmente o tempo! O próprio transcorrer dos dias e anos faz corroer as coisas, enferrujar a solidez do ferro, por exemplo. Tempo acumulado e podre, gera o tédio e o vazio. Os danos voltam-se contra o proprietário. Daí a noção de latifúndio: desocupado, inútil e incapaz de produzir fruto.

Tempo investimento

Como demonstra a própria expressão, trata-se do tempo entendido como forma de investir para ganhar algo. A metáfora vem da especulação financeira, onde se investe capital em vista de lucro e de acumulação de mais capital. Prevalecem os critérios capitalistas de multiplicar a riqueza. Assim, o tempo investimento busca encontros interesseiros, que possam gerar algum tipo de “lucro”, seja do ponto de vista ético-religioso, seja do ponto de vista da influência política.

No contexto da atividade pastoral, o tempo é predominantemente “investido” com as pessoas, famílias, grupos, movimentos que podem representar um pronto retorno, tanto no que diz respeito à coleta e à saúde financeira da comunidade, paróquia ou diocese, quanto na preocupação de “encher a igreja”. Mais do que a esperança na ação oculta da graça e do Espírito Santo, com raízes na fé, prevalece a expectativa nas resoluções imediatas. Contrariamente ao que recomenda o Evangelho, os convites, visitas e relacionamentos tendem a selecionar os que têm algo a oferecer em troca. E tendem, por outro lado, a esquecer os que não têm condições de devolver os benefícios.

Reside aqui outra armadilha. Enquanto a esperança procura responder às exigências evangélicas, em particular sobre a ação de Deus na história, a expectativa se volta para as novidades do mercado e de um marketing cada vez mais pesado e apelativo. Em lugar da “esperança contra toda a esperança” de que nos fala o apóstolo Paulo, entra em cena o frenesi de adaptar-se à moda, com destaque para as inovações tecnológicas. Com isso, o tempo latifúndio se entrelaça com o tempo investimento, em vista de uma eficiência marcadamente mercadológica. Numa palavra, dinheiro e tempo passam a ser meios de investimento, seja para acumular capital sobre capital, seja para fazer crescer a influência social, religiosa, política, etc. Resulta, assim, a uma igreja voltada sobre si mesma, privilegiando os que já participam das atividades normais, quando não uma igreja de classe média ou alta.

Tempo gratuito

Basta um olhar aos relatos evangélicos para dar-se conta que aqui estamos diante do tempo de Jesus. Tempo do Pai e, ao mesmo tempo, tempo oferecido gratuitamente aos mais pobres e marginalizados. Vale a pena tomar em conta a atitude dos diferentes personagens que comparecem na parábola do Bom Samaritano. O sacerdote e o escriba estão comprometidos com as atividades do Templo. Sua atitude diz claramente que “não têm tempo” para o homem que foi vítima dos ladrões e encontra-se “caído” à beira da estrada. Passam adiante!

Diferente é a atitude do samaritano. Supõe-se que também ele tenha seus afazeres e suas necessidades próprias. Mas, em sua sensibilidade, é capaz de parar, tomar em mãos a condição do “ferido”. Diante da situação, passa da mera sensibilidade e comoção à solidariedade efetiva: coloca seus bens e seu tempo a serviço do “caído”. Em outras palavras, o samaritano prioriza o próprio tempo, orientando sua atenção sobre aquele cuja vida está ameaçada. “Vai e faz o mesmo”, diz o Mestre concluindo a parábola.

Efetivamente, não é outra a prática de Jesus, o profeta peregrino e itinerante de Nazaré. Sua caravana jamais atropela uma situação de dor, de sofrimento, de angústia. Jamais deixa de escutar o grito e o clamor dos doentes e sofredores. Sempre se detém diante de quem o procura, esteja a pessoa desesperada ou curiosa, inquieta ou perplexa, perdida ou ansiosa para encontrar o próprio caminho, o sentido da vida, a salvação. No percurso de Jesus, sempre há tempo para aquele que se encontra em maior dificuldade. Daí a predileção pelos excluídos, os pequenos, os indefesos, os últimos!... É exatamente esse tempo gratuito que traz em sua total disponibilidade a paz, a serenidade, a calma, o repouso... Numa palavra, a salvação!

Conclusão

Não será exagero afirmar que, embora nos sejam familiares todas essas visões de tempo, a noção de gratuidade é a único que é capaz de libertar de forma profunda e verdadeira, uma vez que não se concentra sobre si mesmo, mantendo-se aberta ao pobre e ao outro. Oferecer o próprio tempo é oferecer a si mesmo, abrir espaço para a vida partilhada, oportunizando o enriquecimento recíproco. Somente o confronto e o diálogo levam a um crescimento real e efetivo. Enquanto nas demais concepções de tempo – latifúndio e investimento – está em jogo uma espécie de “propriedade privada” e de rendimento do capital financeiro, social ou humano, no centro do tempo gratuito está a pessoa humana em sua inegociável dignidade. É o tempo de Deus, dos pobres e do Reino.

Torres Vedras, Lisboa, Portugal, 26 de setembro de 2015.

*Alfredo J. Gonçalves, CS, é Conselheiro e Vigário Geral dos Missionários de São Carlos.

Fonte: Revista Missões

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