Conhecimento X Sabedoria

O conhecimento multiplica intelectuais, cientistas, artistas, gênios; somente em conjunto com a sabedoria, entretanto, será capaz de costurar laços de amor, de bondade e de compaixão.

Por Alfredo J. Gonçalves

Conhecimento não é sinônimo de sabedoria. Os dois nem sempre caminham juntos. Com efeito, há os que acumulam grandes doses, cifras e fórmulas de informações. Ingerem por todos os poros múltiplos e variados dados a serem computadorizados. Ao lado disso, porém, exibem uma sabedoria mesquinha. E inversamente, existem os que, mesmo tendo limitadas potencialidades e sendo praticamente analfabetos, revelam grande sabedoria. O conhecimento tem a ver com a capacidade de armazenar saberes, muitos e distintos; a sabedoria coincide com a capacidade de cruzá-los e colocá-los em prática. O conhecimento converte a cabeça em uma espécie de gigantesco computador autômato, a sabedoria abre o coração e as mãos ao outro, irmão, diferente. Conhecer significa apoderar-se das leis que regem coisas, animais e pessoas; saber viver, ao invés, consiste em estabelecer entre eles relações sadias e saudáveis.

O conhecimento, por si mesmo, pode provocar a arrogância, a prepotência e a isolamento. De igual forma, a ignorância associada ao poder e à intolerância degenera em uma espécie de negacionismo pernicioso. Sem a sabedoria, o conhecimento tende a erguer-se só e solitariamente; ao lado dela, pelo contrário, tende a elevar consigo os demais. O conhecimento multiplica intelectuais, cientistas, artistas, gênios; somente em conjunto com a sabedoria, entretanto, será capaz de costurar laços de amor, de bondade e de compaixão. A fusão de um com a outra fortalece o fio sagrado da confiança, o qual tece as relações humanas em seus mais variados níveis. Isoladamente, o conhecimento será levado a criar ilhas, guetos e bolhas. Com isso, levanta fronteiras e muros que, por seu turno, geram hostilidades, preconceitos e discriminações mútuas; ao lado da sabedoria, constrói e cultiva comunidades abertas ao encontro, ao diálogo e à solidariedade.

O conhecimento conduz à posse e, mais ainda, à luta para mantê-la a qualquer custo; a sabedoria engendra e cultiva a relação. O conhecimento pode inchar, desabrochando num "ter" doentio; a sabedoria cuida com esmero do "ser". Se tiver que escolher entre um e outra, prefiro a sabedoria ao conhecimento. Melhor ainda se ambos puderem caminhar de braços entrelaçados e de mãos dadas.

Conhecimento e sabedoria por vezes chegam a se estranhar, o primeiro tendendo a se afastar da segunda. Mas ambos, quanto se fundem são também capazes de se iluminarem reciprocamente. Juntos, conhecimento e sabedoria, tendem à justiça, ao desenvolvimento integral, ao direito, ao bem-estar, à fraternidade e à paz. O conhecimento sem limites caminha em todas as direções, e bem pode significar neutralizar seu próprio esforço; a sabedoria serve para orientar, canalizar e focalizar as metas essenciais do conhecimento a serviço do bem-estar da humanidade.

A criança sem regras, ainda que seja um gênio, tende a converter-se em rei absoluto da casa, depois da escola e, por fim, da comunidade e do mundo. A sociedade contemporânea parece ter destituído os pais do direito e do dever de impor limites aos filhos. Outras instituições, tais como a creche, a escola ou a Igreja, tampouco estão preparadas e autorizadas para fazê-lo. Com relativa frequência, acabam sendo processadas se ousarem “tocar” na criança. Quem, em última instância, lhe mostrará que ela não está só sobre a da terra e que, por isso, necessita respeitar algumas regras para o bem de todos e todas? Muitas vezes essa função sobra para as forças policiais e repressivas do Estado. Mas então será tarde! O estrago já se espalhou descontroladamente. O câncer entrou em estágio de metástase, não há como deter sua contaminação perniciosa. Outros tecidos do corpo pessoal e social vão sendo necrosados, todo o organismo está comprometido.

Os desejos e os instintos, as paixões e os interesses, sejam estes de natureza pessoal, familiar, partidária ou corporativista, tomam o lugar do bem-comum. Em semelhante processo educativo/formativo, o mais natural é buscar respostas imediatas para perguntas igualmente imediatos. Não se pensa num plano para o amanhã e muito menos para a vida em geral. O mais importante consiste em desfrutar hoje, aqui e agora, tudo o que a existência pode oferecer. O bem-viver – social, política e ecologicamente solidário com a natureza, com os marginalizados e com as gerações futuras – cede o posto ao viver bem egocêntrico e egoísta. A vida centra-se sobre o próprio umbigo. É fácil verificar como do laxismo, da extrema tolerância e da indiferença, por uma parte, à anarquia, à marginalidade ou ao autoritarismo, por outra, a distância é apenas de grau. Desse modo nascem e crescem os déspotas, os tiranos, os ditadores, com suas mais diferentes patologias. E desse mesmo modo, se engendram igualmente os malfeitores. Onde não há limites, há espaço seja para as drogas, as armas os conflitos, a violência e as guerras, seja para a criatividade, a qual sempre requer luz e rumo.

Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM), São Paulo.

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