Primeira vez no Sínodo

O Sínodo não é mais apenas uma estrutura clerical, mas um ícone do povo de Deus.

Por Enzo Bianchi

Uma nota da Secretaria do Sínodo dos Bispos que apresentava algumas normas ditadas pelo Papa Francisco sobre a composição da assembleia sinodal não despertou a atenção da mídia. Na realidade trata-se de uma intervenção “revolucionária” – permitam-me o adjetivo – porque é o primeiro passo na prática de uma nova modalidade de viver a Igreja.

O Papa Francisco nunca havia falado de “sinodalidade” durante seu episcopado, mas nos primeiros meses de seu pontificado havia mencionado que nós, católicos, deveríamos aprender com a Igreja Ortodoxa a sinodalidade: um desejo formulado de maneira ainda confusa. No entanto, sendo um homem e um Papa de escuta, introduziu o tema da sinodalidade e em 2017 surpreendeu com a promulgação da Episcopalis communio, reformando a realização do sínodo da forma que havia sido predisposta por Paulo VI: já então previa a participação de fiéis não bispos a uma assembleia que sempre foi composta apenas por bispos. O princípio forjado em âmbito cristão na Idade Média: "O que diz respeito a todos deve ser tratado, discutido e deliberado por todos", juntamente com a teologia da Igreja de Bergoglio como povo de Deus, permitiu-lhe desenvolver uma visão inédita de como viver a Igreja.

As inovações corajosas introduzidas pelo Papa serão aplicadas já em outubro. Como sempre, os bispos eleitos das várias Igrejas participarão como representantes do episcopado, haverá alguns superiores religiosos, mas a partir de agora haverá entre eles um número igual de superioras religiosas.

Pela primeira vez na história, as monjas poderão tomar a palavra e com direito a voto determinar o resultado das discussões; uma religiosa (mulher) contará tanto quanto um religioso (homem).

Pelo menos por ocasião de um sínodo, deveria cessar a auxiliariedade feminina das freiras, quase sempre apenas a serviço dos presbíteros (homens).

Mas a inovação não diz respeito apenas aos religiosos: o Papa pede também que os fiéis, mulheres e homens em igual proporção, jovens e idosos, em número de setenta, participem como membros "sinodais" da assembleia com os poderes de todos os outros. Participei de três sínodos como especialista: no primeiro não pude intervir, nos dois últimos pude tomar a palavra.

O sínodo continua sendo sínodo dos bispos, os sucessores dos apóstolos, os garantes da fé ortodoxa, mas que agora podem ouvir não apenas a posição do Papa, mas por meio do voto os pensamentos dos fiéis admitidos ao sínodo em representação dos outros. Finalmente, o sínodo não é mais apenas uma estrutura clerical, mas um ícone do povo de Deus.

Com essa mudança, Francisco mostra-se decidido, profético, não só identificando novos procedimentos, mas começa a aplicá-los caminhando com toda a Igreja.

Esperemos que se adentre da mesma forma também em outros caminhos inéditos que o povo de Deus gostaria de percorrer com o sucessor de Pedro, nunca sem ele.

Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 01-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini. Publicado em ihu.unisinos.br

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