Terras demarcadas são garantia para enfrentar impactos ambientais em aldeias do Tocantins

Os povos Krahô, Krahô-Kanela e Krahô Takaywrá pedem providência quanto às cheias dos rios e os danos ambientais causados pelo agronegócio e pela monocultura

Por Sara Sanchéz, do Cimi Regional Goiás/Tocantins

Mais uma vez, no ano de 2023, os povos indígenas do sudoeste do Tocantins sofrem com a força das chuvas e as cheias dos rios na região. Os Krahô da aldeia Takaywrá já viveram essa situação em outros anos, e em 2022, os Krahô-Kanela da aldeia Càtamjê, assim como os Krahô Takaywrá, também experimentaram cheias de igual impacto. As aldeias viraram pequenos lagos que tomaram conta das casas e das escolas.

Com dificuldade e de forma precária, as comunidades improvisaram com madeira e tijolos pequenos passadiços e pontes para caminhar e se proteger da água, principalmente para socorrer crianças e pessoas idosas, além de espaços para salvar pertences e animais de pequeno porte como porcos, galinhas e cachorros.

As comunidades improvisaram com madeira e tijolos pequenos passadiços e pontes para caminhar e se proteger da água

Neste ano, as chuvas chegaram cedo e os indígenas estão preocupados com a situação de alagamento das aldeias que, ao que tudo indica, se estenderá, uma vez que já no primeiro mês do ano, a situação está crítica.

Os indígenas recorreram às autoridades competentes, como defesa civil, corpo de bombeiros, prefeitura, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) e Secretaria Estadual de Educação (Seduc) para que fosse escutado seu grito de socorro. Com as aldeias alagadas, as possibilidades de proliferação de doenças respiratórias e de pele pelas águas sujas e contaminada são muito alta.

Com as aldeias alagadas, as possibilidades de proliferação de doenças respiratórias e de pele são muito alta.

O povo Krahô Takaywrá já conta com a ação da defesa civil, corpo de bombeiros, prefeitura do município de Lagoa da Confusão e Funai, para levar as famílias mais afetadas pela cheia dos rios para um abrigo na cidade da Lagoa da Confusão (TO). Não obstante, alguns indígenas ficaram na aldeia para proteger os pertences da comunidade, com a finalidade de salvaguardar as poucas coisas que a água deixou.

As cheias na região banhada pelos rios Formoso, Dueré, Urubu, Javaé, e outros da bacia hidrográfica do rio Formoso e do estado do Tocantins se devem a um conjunto de fatores provocados pelo modelo predatório do agronegócio, que provoca, no verão, rios secos, quase mortos e desaparecendo, e no inverno, rios transbordando.

Esse desequilíbrio ambiental provocado pela ganância e depredação do cerrado e de outros biomas no país toma, a cada ano, novas vítimas. Tanto os indígenas quanto o Conselho indigenista Missionário (Cimi) regional Goiás/Tocantins tem denunciado esses crimes ambientais.

As cheias se devem a um conjunto de fatores provocados pelo modelo predatório do agronegócio

Em dezembro de 2022, foi enviado para o Ministério Público Federal (MPF) do Tocantins, um ofício solicitando providências quanto a um crime ambiental cometido próximo as aldeias Takaywrá e Càtamjê. Um fazendeiro da região queimou uma ponte de madeira que liga as cidades de Lagoa da Confusão e Dueré, no sul do estado, que era utilizada para escoar sua produção e construiu um barramento que mudou o curso natural desses rios. O crime provocou impactos na subsistência dos indígenas e no tráfego dos moradores da região que se valem dos rios, além de ter causado sérios danos a peixes e animais aquáticos que precisam trafegar e mudar de local na época da piracema.

No documento, encaminhado ao MPF em dezembro de 2022, os indígenas do povo Krahô Takaywrá já denunciavam os impactos causados pelo barramento no rio Dueré, que podia, na época das chuvas, alagar a aldeia, localizada aproximadamente a três quilômetros do barramento. Até hoje o povo Krahô Takaywrá aguarda providências.

Há vários anos os indígenas vem sentindo os impactos do agronegócio e das mudanças climáticas. A mudança nos ciclos das chuvas, o aumento da temperatura e o desaparecimento de animais e plantas locais tem provocado prejuízos ambientais, culturais, sociais e econômicos muito sérios a esses povos.

Um fazendeiro da região queimou uma ponte de madeira e construiu um barramento que mudou o curso natural desses rios

Em casos extremos de alagamento, os indígenas são removidos por um período de suas casas, algumas provisórias em território emprestado e outras, em território próprio, mas afetada pelo agronegócio. Por vezes, nesses locais provisórios, onde se resguardam das águas, sofrem rejeição e preconceito.

Neste contexto de emergência, os indígenas Krahô Takaywrá enfatizam, mais uma vez, a urgência para que o governo federal faça valer a Constituição Federal de 1988 e demarque suas terras. Eles precisam ter seu território garantido para não continuar vivendo de forma precária em uma pequena área de reserva do Projeto de Assentamento São Judas, no município de Lagoa da Confusão. Além de isso, cobram providências quanto aos crimes ambientais cometidos na região, que afetam a comunidade e todo o ecossistema da região.

Já os Krahô-Kanela da aldeia Càtamjê se vem afetados pelas cheias dos rios porque se encontram numa região mais baixa do território e muito próximo a um projeto de monocultura de arroz. Os grandes canais da lavoura que levam água até a plantação, no verão, provocam alagamento nas casas e na escola da aldeia Càtamjê.

Por vezes, nesses locais provisórios, onde se resguardam das águas, sofrem rejeição e preconceito.

Ações da sociedade civil e de organizações indígenas e indigenistas estão buscando apoio para contribuir com os povos indígenas que estão sofrendo com o impacto da cheia dos rios no Tocantins. O Cimi e o movimento indígena regional lutam pela demarcação, garantia e proteção das terras indígenas, principalmente dos povos que ainda não tem seu território demarcado.

As chuvas, apesar de esperadas, a depender de sua força, região e condições de moradia, trazem consequências graves ao povo mais vulnerável ou que vive em zonas de risco. Por isso, a importância de se proteger a nossa Casa Comum para evitar as mudanças climáticas e buscar, de forma urgente, um modelo de produção sustentável que não destrua a Mãe Terra, nem ameace a existência dos povos.

Fonte: REPAM

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