Desiderio e Desideravi

Carta Apostólica do papa Francisco reflete sobre a formação litúrgica do povo de Deus.

Por Gianfranco Graziola*
Foto: Vatican Media

Ao ler e refletir sobre a Carta Apostólica Desiderio e Desideravi, do papa, é bom entender que estamos diante de uma visão clara e lúcida de Francisco sobre um tema bastante delicado e controverso como aquele da liturgia, particularmente num tempo em que se sobressaem e manifestam expressões de intolerância fundamentalistas, indicando claramente quais são as linhas mestras e os caminhos a seguir pelo povo de Deus.

Osso de seus ossos e carne de sua carne

A primeira convicção de Francisco é que como povo de Deus todos nós somos chamados a deixar que a liturgia nos forme e nos ajude a entrar dentro do mistério da gratuidade de Deus. A partir disso ele nos apresenta como texto-base um versículo tirado do evangelho da comunidade de Lucas: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de sofrer”. (Lc 22,15)

Através deste único versículo, Francisco desenha uma leitura diferente do que deve ser a liturgia, superando a preocupação do rubricismo, do normativismo, e do legalismo, sem, porém, esquecer que ela é uma arte que devemos redescobrir cotidianamente em toda a sua beleza. Por essa razão, afirma claramente que a liturgia é um verdadeiro encontro com o Ressuscitado, caso contrário seria declarar que a novidade do Verbo feito carne se esgotou, porque a fé cristã ou é um encontro com Ele vivo, ou não existe.

A liturgia é, portanto, o que garante tal encontro, e por isso, o papa insiste ao afirmar que uma vaga lembrança da Última Ceia não adiantaria. Precisamos estar presentes nessa Ceia, para poder ouvir a sua voz, comer o seu Corpo e beber o seu Sangue. Nós precisamos Dele.

Na Eucaristia e em todos os sacramentos nos é garantida a possibilidade de encontrar o Senhor Jesus e de fazer chegar até nós a força do seu mistério pascal. E o nosso primeiro encontro que marca a vida é o Batismo, que é um sermos mergulhados em sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, um sermos mergulhados em seu ato pascal. Em perfeita continuidade com a Encarnação, nos é dada, em virtude da presença e ação do Espírito, a possibilidade de morrer e ressuscitar em Cristo.

E Francisco coroa este seu pensamento sobre a liturgia trazendo-nos a tradição dos padres e da Igreja que nos apresentam como o paralelo entre o primeiro Adão e o novo Adão é notável: “assim como do lado do primeiro Adão, depois de tê-lo lançado em sono profundo, Deus faz surgir Eva, assim também do lado do novo Adão, adormecido no sono da morte na cruz, nasce a nova Eva, a Igreja”. O espanto para nós está nas palavras que, podemos imaginar o novo Adão tenha feito suas ao contemplar a Igreja: “Aqui está finalmente osso dos meus ossos e carne da minha carne”. (Gn 2, 23) Por termos acreditado em Sua Palavra e descido às águas do Batismo, nos tornamos osso de seus ossos e carne de sua carne.

Antídoto para o veneno do mundanismo espiritual

Francisco tem outra convicção importante que expressa com certa insistência ao afirmar nesta carta a necessidade da redescoberta da liturgia no seu sentido teológico, vendo nela “a fonte primária e indispensável da qual os fiéis devem derivar o verdadeiro espírito cristão”. (SC14)

Ao mesmo tempo ele coloca a liturgia como antídoto, poderíamos dizer uma vacina contra o “mundanismo espiritual” alimentado por duas heresias: o gnosticismo, que reduz a fé cristã a um subjetivismo que mantém a pessoa aprisionada nos seus próprios pensamentos e sentimentos. O neopelagianismo que anula o papel da graça e “conduz a um elitismo narcísico e autoritário, pelo qual, em vez de evangelizar, analisa e classifica os outros, e em vez de abrir a porta à graça, esgota as suas energias em inspecionando e verificando”.

Se o gnosticismo nos intoxica com o veneno do subjetivismo, a celebração litúrgica nos liberta da prisão de uma autorreferência alimentada pelo próprio raciocínio e pelo próprio sentimento. A ação da celebração não pertence ao indivíduo, mas à Igreja-Cristo, à totalidade dos fiéis unidos em Cristo.

É por isso que a liturgia nada tem a ver com um moralismo ascético. É o dom do Mistério Pascal do Senhor que, recebido com docilidade, renova a nossa vida. Não se entra no cenáculo senão pelo poder de atração de seu desejo de comer a Páscoa conosco.

Redescobrindo diariamente a beleza da verdade da celebração cristã

Continuando na sua reflexão, Francisco nos convida a redescobrir todos os dias a beleza da celebração cristã. E isso acontece com a liturgia que é o sacerdócio de Cristo, revelado a nós e dado no seu mistério pascal, tornado presente e ativo por meio de sinais dirigidos aos sentidos (água, óleo, pão, vinho, gestos, palavras), para que o Espírito, mergulhando-nos no mistério pascal, transforme todas as dimensões da nossa vida, conformando-nos cada vez mais a Cristo.

Por isso a liturgia não é a busca de uma estética ritual que se contenta apenas com uma cuidadosa observância exterior de um rito ou se satisfaz com uma escrupulosa observância das rubricas, mas uma plena participação ao mistério de Cristo. Eis a necessidade de recuperar a capacidade de viver plenamente a ação litúrgica superando a fragmentação da pós-modernidade, do individualismo e subjetivismo, do espiritualismo abstrato que contradiz a própria natureza humana, pois a pessoa humana é um espírito encarnado e, portanto, capaz de ação simbólica e de compreensão simbólica.
Uma formação litúrgica séria, vital, existencial

O papa indica na formação litúrgica séria e vital um instrumento por meio do qual a Igreja, unida ao Concílio quis entrar em contato com a realidade do mundo moderno reafirmando a sua consciência de ser o sacramento de Cristo, a Luz das nações (Lumen Gentium), colocando-se à escuta da Palavra de Deus (Dei Verbum) e reconhecendo como suas as alegrias e as esperanças (Gaudium et Spes) dos homens e mulheres do nosso tempo.

Este compromisso existencial acontece - em continuidade e consistente com o método da Encarnação - de forma sacramental. A liturgia é feita com coisas que são exatamente o oposto das abstrações espirituais: pão, vinho, óleo, água, fragrâncias, fogo, cinzas, pedra, tecidos, cores, corpo, palavras, sons, silêncios, gestos, espaço, movimento, ação, ordem, tempo, luz. Toda a criação é uma manifestação do amor de Deus, e desde quando esse mesmo amor se manifestou em sua plenitude na cruz de Jesus, toda ela foi atraída. É toda a criação que é assumida para ser colocada a serviço do encontro com o Verbo: encarnado, crucificado, morto, ressuscitado, vivendo junto ao Pai.

E Francisco cita o que escreve Guardini: “Aqui se delineia a primeira tarefa do trabalho de formação litúrgica: o homem deve tornar-se novamente capaz de símbolos”. Esta é uma responsabilidade de todos, tanto dos ministros ordenados, como dos fiéis. A tarefa não é fácil porque o homem moderno se tornou analfabeto, não consegue mais ler símbolos; é quase como se nem sequer se suspeitasse de sua existência. Isso acontece também com o símbolo do nosso corpo.

Em conclusão de sua carta, o papa reafirma a necessidade e convida a redescobrir aquilo que é a primeira fonte e a riqueza dos princípios gerais expostos nos primeiros números da Sacrosanctum Concilium, captando o vínculo íntimo entre esta primeira das constituições conciliares e todas as outras.

É por isso que não podemos voltar àquela forma ritual que os padres conciliares, cum Petro et sub Petro, sentiram a necessidade de reformar, aprovando, sob a orientação do Espírito Santo e seguindo sua consciência de pastores, os princípios dos quais nasceram a reforma da qual os santos pontífices São Paulo VI e São João Paulo II.

Um desejo e uma exortação

“Como já escrevi - afirma Francisco - pretendo que esta unidade seja restabelecida em toda a Igreja de Rito Romano. Gostaria que esta carta nos ajudasse a reavivar nossa admiração pela beleza da verdade da celebração cristã, a nos lembrar da necessidade de uma autêntica formação litúrgica e a reconhecer a importância de uma arte de celebrar que está a serviço da verdade do mistério pascal e da participação de todos os batizados nele, cada um segundo a sua vocação. Abandonemos nossas polêmicas para ouvirmos juntos o que o Espírito diz à Igreja. Cuidemos da nossa comunhão. Continuemos a nos maravilhar com a beleza da liturgia. O mistério pascal nos foi dado. Deixemo-nos envolver pelo desejo que o Senhor continua a ter de comer a sua Páscoa conosco. Tudo isso sob o olhar de Maria, Mãe da Igreja”.

* Gianfranco Graziola, imc. Assessor Teológico e membro da Coordenação Nacional da Pastoral Carcerária.

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