Ano 2022

O que vemos hoje são deslocamentos sem rumo e sem horizontes.

Por Alfredo J. Gonçalves *
Foto: pxhere.com

Ano novo vida nova – a expressão faz parte do imaginário popular. No fundo, porém, as coisas costumam ser bem mais complexas. Nessa passagem de um período para outro, quantos males residuais acompanham a travessia! Basta ver o que o novo 2022 herdou do velho 2021. Certo que a Covid-19 fez das suas. Esse inimigo, tão invisível quanto letal, não conhece fronteiras, nem espaciais nem temporais. Sem dúvida, é o primeiro vírus que nos vem à memória quando nos remetemos ao último réveillon. Como se não bastasse o número de infectados, mortos e enlutados nos dois anos anteriores, o flagelo universal segue com suas variantes cada vez mais contagiosas, agora notadamente a ômicron.

Com ele, multiplicam-se também pesquisas, estudos e conclusões de que esse tipo de “peste” moderna ou pós-moderna deve se repetir. Quanto mais o ser humano invadir e devastar o habitat de determinados animais selvagens, aproximando a selva do meio urbano, mais haverão de se proliferar doenças até então desconhecidas. O contágio está diretamente ligado à ação humana sobre a natureza. Dessa ação descontrolada e irresponsável, decorrem ainda outras mudanças climáticas não menos graves, numa transformação acelerada do meio ambiente. Derrubada das florestas e desertificação constituem resultados previstos. Ao mesmo tempo que polui o ar, as águas e os mares, o efeito estufa gera ainda o aquecimento global. A partir de tais mudanças planetárias, desenvolve-se o vírus que poderíamos chamar de “agitação febril”.

Trata-se de um vaivém de seres humanos único na história, seja em termos de quantidade, seja em termos de direção. Em lugar das chamadas migrações histórias, decorrentes da Revolução Industrial, e que tinham origem e destino mais ou menos pré-determinados, o que vemos hoje são deslocamentos sem rumo e sem horizonte. O fenômeno migratório torna-se cada vez mais numeroso, mais intenso, mais diversificado e mais complexo. Pessoas e famílias, aos milhões, submetem-se, hoje em dia, não apenas a uma viagem de sentido único, de uma região a outra, ou a um desenraizamento seguido de um novo e certo enraizamento. Pelo contrário, submetem-se a um processo de idas e vindas repetitivas e contínuas, cuja única certeza é a incerteza em relação ao horizonte e ao futuro, a um endereço fixo e a uma pátria.

Além das vítimas da violência e da guerra, dos conflitos políticos, religiosos ou ideológicos, da pobreza, da miséria e da fome, as migrações hodiernas comportam outros tantos milhares (para não dizer milhões) de “refugiados climáticos”. Os deslocamentos adquirem um caráter febril e agitado porque refletem a febre de um organismo e/ou sociedade enfermos. Osfluxos humanos de massa figuram atualmente como ondas visíveis de correntes invisíveis. Uma forte agitação superficial que simultaneamente vela e revela transformações subterrâneas. Quando a população em peso se põe em marcha é porque as placas tectônicas da história se movem. Disso se deduz que as migrações representam uma espécie de termômetro dos tempos, na medida em que ou precedem ou seguem “mudanças rápidas e profundas” (Gaudium et Spes, nº 4). Quando o povo se move põe em marcha a própria história.

Mas não pararam por aí os vírus que cruzaram do velho para o novo ano. O negacionismo não fica atrás em termos de periculosidade e letalidade. Se não mata dolosamente, deixa morrer com indiferença. Quando se trocam os avanços científicos por ideologias sociopolíticas, o resultado acaba por ser incontrolável. Além de causar mortes desnecessárias, porém, negar as conquistas da ciência é minar o terreno dos relacionamentos humanos. Rompe-se o contrato social, quase sempre tácito, que pouco a pouco vai tecendo os laços e relações de pessoas e de grupos. Com isso, esgarça-se o tecido social, rasga-se o depósito implícito da confiança. O vírus enferrujado da desconfiança infiltra-se em todo tipo de vínculos, desde aqueles primários, familiares e de parentesco, até aqueles secundários, associativos, comunitários, sociais, políticos, culturais etc. Tudo se contamina, se enferma e apodrece.

A suspeita passa a rondar lares, famílias, amizades e relacionamentos de toda ordem. Basta constatar quantos cancelamentos se efetuaram, por exemplo, nas redes sociais, reais ou virtuais, mesmo entre pessoas unidas pelo sangue ou por compromissos diários. A polarização binária que vem marcando os últimos anos não passa de um fenômeno ideológico. Com a ascensão da extrema-direita, portadora de um discurso reacionário e nacional-populista, o tecido social se dividiu artificialmente. De um lado, os nossos, “bons e confiáveis”, do outro eles, adversários a serem vencidos. Todo e qualquer político, líder ou intelectual da oposição passou a ser visto não como um opositor, e sim como um inimigo figadal. Rompido o fio de ouro que tece as redes humanas, rompem-se igualmente os laços que as unem. O vírus do ódio e da mentira entrou nos lares e nos bares, nas comunidades e igrejas, nas feiras e mercados.

O vírus da corrupção, por seu lado, tão antigo e tão brasileiro como a política na Terra de Santa Cruz, também atravessou as águas turvas, torvas e turbulentas de 2021 para 2022. Camaleão que é, ele se metamorfoseia de acordo com as circunstâncias, o contexto político e as autoridades de plantão. O famigerado “toma lá, dá cá”, como toda mercadoria que se compra e vende, muda de nome e de preço conforme quem o camufla ou quem o desvenda. Pouco adiantou, entre outros desmontes, pretender acabar com o “lavajatismo” e seu poder de investigação. Logo emergiram os golpes sub-reptícios nos negócios com o centrão, a artimanha das rachadinhas, o orçamento secreto, bem como as falcatruas que há séculos se perpetuam de governo para governo.

A roda da podridão não deixou de girar: o dinheiro abre portas fáceis e largas para a ambição política em todas as instâncias do poder; este último, por sua vez, amplifica e escancara novas oportunidades de enriquecimento; renda e riqueza, a seu turno, funcionam como verdadeiro óleo lubrificador nas engrenagens de mandos e desmandos cada vez mais enferrujados. De tal sorte que os distintos mandatos, em lugar de representarem os cidadãos que colocaram seus votos na urna, acabam por converter-se em cadeiras cativas dos “donos do poder” (Raymundo Faoro). Tudo vale, portanto, para manter a qualquer custo o posto de vereador, deputado, senador!... Dinheiro faz galgar os degraus do poder e o mandato alarga os horizontes de quem sobe da base para o pico da pirâmide socioeconômica.

Os males dos parágrafos anteriores, como igarapés bravios, convergiram para agravar o vírus do desemprego, subemprego, trabalho informal, pobreza, miséria e fome. Os números relativos à insegurança alimentar e às privações diárias medem-se aos milhões de famílias. Destas e de seus membros, não poucos simplesmente foram parar “no olho da rua”. Por todas as capitais do país, multiplicaram-se de forma exponencial os dependentes regulares de cestas básicas e da marmita (a “quentinha”). Na raiz dessa queda ladeira abaixo, tropeçamos como esgarçamento cruel das relações trabalhistas. Trabalho e emprego, com o passar do tempo, sofreram um divórcio. Hoje parecem definitivamente dissociados. Aqueles empregos estáveis, seguros e fixos, de décadas passadas, cederam lugar aos serviços instáveis, temporários e efêmeros – aos “bicos”. Isso para sequer falar da remuneração, também ela em queda brutal.

O mercado informal de trabalho prevalece sobre o mercado formal. Termos como terceirização, uberização e flexibilização do trabalho, para os trabalhadores e trabalhadoras, adquirem o sabor de verdadeiros “palavrões”. Se à crescente precarização das condições de trabalho e das relações trabalhistas somamos a inflação, o resultado será a perda implacável do poder aquisitivo. Aqui é necessário precaver-se com os índices da inflação em torno de 10%. Isso vale para tudo o que se movimenta no mercado global. Ao lado dela, a chamada “inflação dos pobres” – que despendem grande porcentagem de seus ganhos com alimentos de primeira necessidade – a alta dos preços beira os 40 ou 50%. Resultado: a segurança deu lugar à incerteza, o pão se reduziu a migalhas, a moradia alcançou custos proibitivos, a previdência deve sair do próprio bolso. Resta o desafio de reverter semelhante quadro tão perverso quanto insustentável.

* Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do Serviço de Proteção ao Migrante, São Paulo, SP.

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