Francisco & Francisco

Contemporâneo de uma Igreja que combate os infiéis e hereges, Francisco chama a todos de irmãos e irmãs.

Alfredo J. Gonçalves

O Papa Francisco representa a Igreja dos pobres. Igreja que à riqueza e ao luxo, aos títulos e à pompa, à solenidade e ao ritualismo estéril, dá preferência a uma sincera simplicidade. Que se comunica com o povo e com o mundo não numa linguagem acadêmica, sofisticada, hermética e desconhecida, mas com gestos, palavras e parábolas populares e acessíveis ao mais simples dos mortais. E que, por isso mesmo, confere novo sabor e novo tempero à Palavra de Deus e à Boa Nova de Jesus Cristo. A palavra deixa as estantes cheias de pó e se transforma verdadeiramente em “Evangelho = Boa Notícia”. O Verbo se faz carne viva e amiga, presença ativa e sadia, olhar e sorriso que penetram e amam, consolam e reavivam, abençoam e trazem esperança.

CAGLIARI, ITALY - SEPTEMBER 22: Pope Francis delivers his speech during a meeting with young people on September 22, 2013 in Cagliari, Italy. Pope Francis heads to Cagliari on the Italian island of Sardinia for a pastoral visit that includes celebrating mass at the Sanctuary of Our Lady of Bonaria. The Pope announced in May that he wished to visit the Marian Shrine of Bonaria or 'Good Air' because it gave his hometown of Buenos Aires its name. During his 10-hour visit to the city of Cagliari, the Pope will also meet workers, business representatives, prisoners, the poor, young people, leading representatives from the world of culture and the island's Catholic bishops. (Photo by Franco Origlia/Getty Images)

Foto de Franco Origlia/Getty Images

Assim fez o pobre de Assis. Sua pobreza e sua nudez, como as de Jesus de Nazaré, interpelam as vestimentas bordadas a ouro e prata de tantos sacerdotes, templos e religiões. Sua acolhida aos leprosos e abandonados, como a do profeta itinerante do Evangelho, questiona a insistência na construção de fortalezas e palácios inacessíveis. Sua mensagem lúcida e límpida, vibrante e alegre, como as imagens do Reino, se revestem de beleza e poesia sem par. Água cristalina diante da sede crescente de encontro com o outro e com o totalmente Outro. No momento em que boa parte da Igreja insistia em aliar-se ao poder temporal, desfrutando de seus benesses, Francisco surge como um pobre servidor, lembrando o gesto do lavapés na última ceia, seguido da oração sacerdotal. Quando trono e altar pareciam dar-se as mãos, através da espada e da cruz, Francisco canta e louva o Criador na singeleza dos pássaros e das flores, dos astros e das águas, das árvores e dos frutos, a exemplo do homem de Nazaré.

Contemporâneo de uma Igreja que combate furiosamente os infiéis e os hereges, Francisco chama a todos e a tudo de irmão e irmã, seguindo o Mestre que prega o amor aos inimigos. Enquanto os tribunais eclesiásticos acendem fogueiras para queimar os pecadores e hereges, em boa parte mulheres, o pobre de Assis lhes vai ao encontro, consciente de que Jesus oferece o perdão a todas as Marias e Madalenas, Josés, Pedros e Antonios arrependidos. Numa época onde predominava o obscurantismo, o medo e o pecado, Francisco renova sobre a sociedade medieval o olhar terno, puro e doce do Filho de Deus.

Tempos difíceis, em que a própria Igreja se envolve em conflitos e guerras, Francisco se faz instrumento da paz, com os olhos fixos na palavras da Sagrada Escritura. Quando as trevas do ódio parecem tomar conta dos corações e das almas, o pobre de Assis se faz poeta e mensageiro da luz do amor. E se acaso e escuridão e o desespero cobriam a luz do sol e o azul do céu com nuvem sombria e ameaçadora, Francisco era o porta voz da fé e da esperança renovadas. Andarilho da palavra e do gesto, nutria os corpos encurvados, os espíritos abatidos e os corações desesperançados.

Um filho da burguesia nascente que, com ousadia, coragem e profetismo, deixa a própria casa e os familiares para lançar-se nas pegadas de Jesus, e consequentemente, no caminho tortuoso dos pobres e excluídos, dos migrantes e refugiados, dos invisíveis e descartáveis. Ousadia que traz sérias interrogações a quem, nos dias de atuais e mesmo dentro da Igreja e/ou dos Institutos e Movimentos Religiosos, segue exatamente o caminho inverso. Coragem que desafia um retorno às fontes genuinamente evangélicas, numa verdadeira “fidelidade criativa”, a qual, em lugar de uma mera imitação, busca recriar diante dos desafios de hoje a Boa Nova do Mestre. Profetismo para resgatar e reavivar a “opção evangélica pelos pobres” no contexto da economia globalizada que, a um tempo, concentra e descarta, exclui e mata, produzindo contemporaneamente riqueza e miséria, ostentação e fome, mansões e casebres.

Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 4 de outubro de 2021

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