O Deus desconhecido

Alfredo J. Gonçalves *

Deuses conhecidos são perigosos. Tanto mais perigosos quanto mais conhecidos. Deixam-se manipular facilmente, come se fossem feitos à nossa imagem e semelhança (e não o contrário, conforme ensina o Livro do Gênesis). Além disso, costumam justificar toda e qualquer argumentação, postura ou comportamento. Diante das mais diversas extravagâncias humanas, ou de seus acertos, limitam-se a oferecer um sorriso benévolo e condescendente. Tudo ouvem, nada respondem e pouco interpelam. Raramente nos desinstalam, impulsionando-nos a sair de casa e dar um passo à frente. Parecem desconhecer o conceito de missão. Revelam-se mais ou menos indiferentes aos nossos embates cotidianos, satisfeitos em reduzir sua influência ao coração e à alma, deixando o corpo por conta e risco.

Por serem demasiadamente conhecidos, jamais surpreendem nem espantam. Ao contrário, com esmero e de forma cuidadosa, fazem tudo o que deles se espera, nada exigindo em troca. São pacíficos não no sentido de enfrentar as tensões e contradições, buscando o diálogo e a concórdia, mas procurando esquivar-se aos conflitos e disputas aborrecidas. Melhor passar um verniz, uma pomada ou um bálsamo sobre as feridas sociais - injustiças, exploração e desigualdades, por exemplo - do que perder tempo com tais ninharias. Não se vê em tais deuses nem vivo entusiasmo nem uma deprimente angústia, não sobem aos céus nem descem aos infernos, não conhecem o pranto nem o riso largo e aberto, não sabem o que seja alegria ou tristeza. Mais do que manifestar tais exageros extremados e próprios dos seres mortais, apresentam um comportamento social e politicamente correto, dentro de seus limites etéreos.

Deuses robôs? Marionetes? Máquinas teleguiadas? Sim, possuem algo disso por sua absoluta previsibilidade. Nada fazem que não esteja devidamente programado. Seguem à risca o manual que os acompanha desde a "fabricação", obedecendo ao toque mágico dos botões. Nada de passos em falso, nada de improvisações, nada de jogo de esconde-esconde. As orações a eles dirigidas e os cultos em sua presença são respeitosamente preparados, ponto por ponto, vírgula por vírgula, nada podendo escapar ao controle. Quem os manipula, manipula igualmente a relação espiritual entre os fiéis e o sobrenatural. No fundo, os deuses conhecidos o são de tal forma que quase é possível fotografá-los. Aliás, seriam capazes de pousar para uma foto histórica, se a ideia não fosse tão bizarra a quem os fabrica e, em seguida, se inclica diante deles em atitude de louvor.

Mas, afinal, que ideia é essa de fabricação de deuses? Como os fabricam? Ah sim, consciente ou inconscientemente, são fabricados por pessoas e movimentos religiosos que necessitam de deuses de caráter privado e espiritualizante. Seres que respondam às necessidades religiosas (e somente religiosas) de quem busca "sossego, tranquilidade, paz de espírito", e coisas do gênero. Seres alados que saibam comportar-se como tal, permanecendo limitados ao âmbito do templo, da oração pessoal ou comunitária, da celebração. Sem necessidade de pisar o chão batido e calcinado dos seres humanos, de sujar-se no sangue, suor e lágrimas do cotidiano. São deuses que não possuem pés, apenas asas! E por isso não devem imiscuir-se no "mar de lama e de pecado" que é a sociedade. Figuras angélicos, impossibilitadas de caminhar pelos porões, becos e periferias das grandes cidades.

Seus fabricantes, no caso das classes médias e altas, normalmente têm a vida material assegurada e, portanto, podem dar-se ao luxo de uma religião única e puramente espiritual. Cômoda, sem tantas exigências e, sobretudo, sem implicações socioeconômicas. Nada de misturar as coisas: religião é religião, política é política.

Quanto nos extratos de baixa renda, ao lado do comodismo de uma religião sem compromisso solidário, prevalece a concepção fatalista de que as mudanças sociohistóricas independem de nossas mentes e de nossas mãos. Assim, é preciso deixar tudo na vontade imprescrutável de Deus. "Só o Senhor tem poder! Só o Senhor salva" No fim da linha, o resultado é o mesmo: religião é religião, política é política. As dimensões material e espiritual devem seguir caminhos paralelos, nada de cruzamentos constrangedores e desnecessários. Água e azeite não se mesclam, apenas se justapõem. Deus e o "mundo" devem permanecer convenientemente separados.

Diferente é o "Deus desconhecido" de que fala o apóstolo Paulo no Areópago de Atenas (At 17, 16-34). O Pai amoroso e cheio de misericórdia, simultaneamente humano-divino e divino-humano, cujo Filho conheceu o pó e a lama pelas caminhos da Galileia, tocou e deixou-se tocar pelos leprosos e doentes em geral, pelos pecadores e marginalizados, pelos cobradores de impostos e estrangeiros, pelas mulheres, prostitutas e crianças, pelos pequenos, infesos e últimos... "Verbo que se faz carne e armou sua tenda entre nós", o qual, ao mesmo tempo que revela a face radiante do Pai, sabe que Este permanece o "Deus escondido" (Is 45, 15). Deus que, mesmo sendo de "condição divina, esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens" (...). "Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz" (Fl 2, 6-11). Profeta itinerante de Nazaré que "percorreu cidades e povoados" e que, "vendo as multidões cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor", mostra toda sua "compaixão" (Mt 9, 35-38).

Não se trata de um Deus alado e sem pés que escapa dos embates e combates mundanos. Bem ao contrário, assume o mundo e o carrega consigo sob o peso da cruz. Cumpre lembrar que o termo "mundo", nos escritos neotestamentários (especialmente em João e Paulo) opõe-se ao Reino de Deus não enquanto sociedade na qual vivemos e disputamos um lugar ao sol, mas enquanto domínio do mal e da morte. Mais do que dois lugares, trata-se de duas dimesões: reino da graça e da luz em contraposição ao reino do pecado e das trevas. Da mesma forma que o Deus do Povo de Israel desce e se faz presente no êxodo, no deserto, no exílio e na diáspora, o Deus do Novo Testamento se encarna e se faz peregrino pelas veredas da trajetória humana.

Irrompe no tempo pesente para "dispersar os soberbos de coração, derrubar do trono os poderosos e elevar os humildes, encher de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias" (Lc 2, 46-55). Numa palavra, um Deus que rompe com as cadeias de todos os tiranos e tiranias, para reabrir novas oportinidades aos que ficaram à margem da vida e da história. No mundo cheio de contrastes, e através de suas cordenadas históricas, oferece alternativas e amplia os horizontes do futuro. Voltando à imagem do Aerópago ateniense, podemos reafirmar com o Papa João Paulo II a necessidade de uma "nova evangelização em seus conteúdos e em seus métodos", frente aos desafios dos areópagos modernos e pósmodernos. Nestes, movidos pelos apelos do mercado e do marketing, multiplicam-se os deuses e ídolos, o que torna mais empenhativa a busca do rosto do Deus verdadeiro e desconhecido.

Paulo em Atenas tem consciência desse projeto de Deus, não acima ou além da história humana, mas cujas raízes emergem a partir do solo onde ela se desenvolve. Tanto que, em lugar de desprezar sem mais as tradições, costumes, culturas e valores religiosos dos gregos, toma conhecimento de tudo isso. Dialoga com seus deuses e, em meio ao debate, apresenta o Deus desconhecido. Deixa entrever que o Deus verdadeiro será sempre desconhecido, pois jamais se esgota nos limites do conhecimento humano. O Ser infinito não pode ser definido, tematizado e apreendido pelos instrumentos de uma razão finita. Restando inominável e inescrutável, indecifrável e incomensurável (termos da chamada "teologia negativa"), inquieta, questiona e interpela toda e qualquer formulação humana.

Diferentemente dos deuses conhecidos (com minúscula e no plural), o Deus desconhecido (com maiúscula e no singular) não se deixa manipular. Permanece como Silêncio absoluto, enquanto o Filho é a Palavra e o Espírito o Encontro (Bruno Forte). Restando sempre desconhecido, em lugar de submeter-se a nossos desejos e argumentos, provoca uma busca constante de sua face oculta e resplandecente. Disso resulta que nossa condição diante Dele será sempre a de quem caminha, fazendo de cada ponto de chegada um novo ponto de partida. Peregrinos a caminho de sua casa/pátria, para o encontro definitivo e eterno.

* Alfredo J. Gonçalves, CS, é Conselheiro e Vigário Geral dos Missionários de São Carlos.

Fonte: Revista Missões

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