FSM: Socióloga indiana Corinne Kumar e o novo imaginário político do Sul do mundo.

Jaime C. Patias *

A socióloga indiana Corinne Kumar, radicada na Tunísia, país localizado entre a Índia, o mundo árabe da África, o deserto do Saara e o mar Mediterrâneo, participou do Fórum Social Mundial realizado entre os dias 25 e 29, em Porto Alegre, RS, como representante da ONG "Global South" (Sul Global). Kumar que é também escritora, começou seu trabalho nos anos 70, na Índia, com o Centro de Estudos para o Desenvolvimento (CIEDS Coletiva).

A socióloga explicou que o Centro surgiu como um espaço de diálogo entre as esquerdas de inspiração marxista tornando-se, ao longo dos anos, num lugar para diálogo e práticas alternativas entre mulheres, artistas, poetas e escritores. "Trabalhamos em bolsões de pobreza em Bangalore, na Índia. Mas na Ásia, atuo no Conselho Asiático de Direitos Humanos das Mulheres, uma rede de trabalho entre grupos de Diretos Humanos das Mulheres", afirmou Kumar. Na Tunísia, a ONG trabalha com jovens universitários questões críticas na linha do Fórum Social Mundial. Com uma fé inabalável no conhecimento das mulheres e todas as sabedorias vulneráveis, Corinne Kumar é uma mulher profundamente comprometida com as questões relacionadas aos direitos humanos e da paz.

Uma de suas inspirações vem do Movimento de Resistência Zapatista de Chiapas, no sul do México, cuja luta é movida pela força das palavras: "Reivindicando nós caminhamos". Esse provérbio tornou-se título do seu mais recente livro sobre o novo imaginário político do Sul do mundo. "Os Zapatistas caminham e reivindicam. Dessa forma eles praticam sua política. Essa é uma visão muito poderosa", argumentou Kumar.

Corinne Kumar esteve em Porto Alegre, RS, a convite do Comitê Internacional do Fórum para contribuir no Seminário Internacional, parte da programação comemorativa aos 10 Anos do FSM. No Seminário a ativista falou sobre os Direitos Coletivos refletindo acerca da busca de um novo imaginário político, a partir do Sul do mundo.

A escritora procura olhar o Sul do mundo, não mais como o Terceiro mundo, ou o mundo subdesenvolvido, mas a partir de uma nova perspectiva, carregada de um novo significado, como o início de um movimento a exemplo do que aconteceu em 2003, quando surgiu um movimento global contra a guerra e a invasão do Iraque. Em entrevista Kumar afirmou que esse "foi um movimento no Sul do Norte e no Sul do Sul. Quero ver o Sul como a sabedoria e o conhecimento, de pessoas que foram marginalizadas, a exemplo dos povos indígenas, das mulheres que não se encaixam no pensamento ocidental europeu onde a sabedoria dos indígenas, das mulheres e dos negros foram desqualificadas", destacou, acrescentando que essa "é uma forma de resgatar as sabedorias do novo Sul, que foram marginalizadas".

Para Corinne, o novo Sul será o novo paradigma político, não somente novo na sabedoria, mas numa política de compaixão e cuidado. "Hoje o mundo precisa de uma política capaz de cuidar, não somente dos Direitos Humanos, mas dos seres humanos na sua integridade", ressaltou ela. "O sul tem para oferecer ao mundo uma nova noção de justiça que pode ser entendida como verdade, reconciliação ou cura", explicou.

A socióloga falou também sobre a violência na Índia destacando as duas situações mais gritantes: contra as mulheres e os dalit. Ela informou que "a violência contra a mulher no país está aumentando. Existem milhares de situações que provocam violência contra a mulher, mas eu gostaria de mencionar uma delas que está ligada ao sistema de dote (valor pago pelas mulheres no casamento). Muitas mulheres estão sendo agredidas e queimadas com uso de combustível, por causa do dote, fazendo desaparecer qualquer vestígio", denunciou Kumar.

Tudo começa depois de certo tempo de casados, quando o homem ou a sua família pede mais dinheiro para o dote. Uma vez, o dote consistia num valor simbólico, mas entrou a ganância, daí os abusos. Caso a mulher não pague, ela é penalizada. Kumar citou o caso de um homem que havia queimado sua esposa e três meses depois, fez o mesmo com uma segunda mulher, tudo por causa do dote. Casos como esse, não são investigados alegando falta de evidência. "Mas eu me pergunto, quando você é queimado dentro da casa, quem vai esta lá para testemunhar? As crianças?", questionou ela explicando que hoje, com a Organização das Mulheres, elas estão ficando mais fortes.

Nos últimos dois anos, mais de quarenta organizações se uniram para criar Tribunais das Mulheres, alternativas de espaços políticos, onde as mulheres são ouvidas como vítimas. A socióloga explicou que existe um medo generalizado quanto aos números da violência contra a mulher, mas em três anos, pelo menos 25 mil mulheres sofreram violência envolvendo o dote. "Somente em Bangalore, todos os dias pelo menos três mulheres são queimadas. A Índia é cheia de contradições, por um lado temos a fronteira da ciência e por outro, o mais extremo fundamentalismo. Esse é um grande desafio", desabafou Kumar que denunciou também o uso do conhecimento científico para discriminar mulheres. Quando se sabe que vai nascer uma menina, em vários casos há uma deliberada interrupção da gestação.

De acordo com Corinne Kumar, um segundo grupo que sofre discriminação e preconceito na Índia são os dalit que no sistema de castas do hinduísmo, são os "intocáveis" ou impuros. Estão abaixo da última das quatro castas. Contudo, pelo menos eles estão mais organizados e conseguem mostrar ao mundo sua causa. Em sua opinião, o país tem muitos desafios, mas tem também muitas coisas bonitas acontecendo. "É importante frisar que a sociedade indiana é muito dinâmica e intensa. Com algumas exceções, pelo menos o povo tem a liberdade de se organizar em movimentos para reivindicar seus direitos", arrematou.

* Jaime C. Patias, revista Missões no FSM 10 Anos, em Porto Alegre.

Fonte: Revista Missões

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