Laranjeira Nhanderu ?? a burocracia e o despejo

Egon Heck *

"A qualquer momento a justiça poderá decretar o despejo da comunidade Kaiowá Guarani de Laranjeira Nhanderu. A juíza está irada com a Funai por não estar cumprindo o que foi determinado na decisão judicial de 27 de maio, quando ficou acertado o efetivo trabalho do órgão no sentido do andamento do processo de identificação da área e envio à justiça de relatórios quinzenais sobre o andamento das atividades". Essa é a informação que chega à comunidade Kaiowá Guarani, no município de Rio Brilhante. É a volta da ameaça e do drama vivido há poucos meses.

Cabisbaixo, Faride, sempre extrovertido, era a imagem da preocupação e da revolta. Final de dia. Encontro de conversa, no barraco de dona Glória, à beira da BR 163. O pesadelo que voltou a rondar a vida da comunidade, os deixou desassossegados e indignados. "Precisamos sair da moita, pra gritar novamente ao Brasil e ao mundo", foi dizendo uma das lideranças. Adelaida, uma das mulheres guerreiras, manifestou sua preocupação, especialmente com os velhos e as crianças novamente ameaçados de serem despejados para a beira da estrada, correndo sérios riscos de vida e sendo submetidos a grandes sofrimentos. "Nossas galinhas e outros bichinhos vão estar sujeitos a morrerem todos atropelados por esse montão de carros que passam toda hora aqui na estrada".

Várias lideranças foram manifestando sua enorme preocupação, por estarem chegando a uma situação que esperavam não iria acontecer. Zezinho, que desde a decisão juíza Dra. Marli, naquele final de maio, começou a se mobilizar cobrando dos responsáveis atitudes para o cumprimento da decisão, se mostrava extremamente preocupado e indignado diante da omissão da Funai em enviar logo antropólogo para concluir o laudo de identificação de sua terra.

Já da parte da Funai, vem as evasivas dos entraves burocráticos. "Não podemos criar um novo grupo de trabalho..." Já da parte dos técnicos responsáveis pelo laudo de identificação vem o temor de ir para a área em função das constantes ameaças dos senhores do agronegócio e políticos da região, inclusive estimulando os proprietários a contratarem seguranças(jagunços) para evitar qualquer movimentação nas propriedades.

"Em Rio Brilhante as pessoas estão dizendo que o presidente Lula garantiu as terras pra nós. Por isso estamos com muito medo", foi dizendo Faride, enquanto ia matando os pernilongos(muriçocas ou carapanã, dependendo da região da país, mas em todos os lugares sedentos de sangue) que no entardecer buscavam fazer a sua refeição.

De fato o presidente Lula, incomodado por estar sendo cobrado no país e em várias partes do mundo sobre a dramática situação dos Kaiowá Guarani, declarou várias vezes que essa situação de terra dever ser revolvida o quanto antes. O que não se entende é que se isso é determinação da autoridade máxima de um país, com tamanha popularidade e que quer passar para a história como grande estadista, não consiga resolver uma questão humanitária e de justiça tão elementar.

A comunidade de Laranjeira Nhanderu espera que não tenham que pagar com mais sofrimento e despejo, o não cumprimento da ordem do presidente da República, enrolada na burocracia do próprio Estado e na teimosia racista e genocida de grupos econômicos e políticos.

* Egon Heck, assessor do Cimi MS.

 

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