Tolerância Zero

Egon Dionísio Heck *

Mato Grosso do Sul. "A tensão cresce a cada dia naquele Estado. Na segunda-feira, dois dias antes de o STF retomar o julgamento, fazendeiros de Dourados se reuniram no parque de exposições rurais da cidade e deliberaram que vão resistir de todas as maneiras às reivindicações indígenas por terras. "Tolerância zero para as demarcações indígenas e para a infração dos direitos de propriedade do produtor rural" foi a declaração final do encontro".(Estado de São Paulo, 22/03/09)
A volta da TFP - Tradição, Família e Propriedade!

No auge da ditadura militar, a TFP florescia como linda flor no quintal da repressão. Alimentava-se do mais fino ódio da "guerra fria". Espalhava o terror dos monstros comunistas que comiam criancinhas. Movia-se com total desenvoltura em quartéis, palácios entapetados, ruas e consciências nuas.

Plantada a semente da democracia, caído o muro de Berlin, a TFP foi perdendo sua razão de ser. Pensava-se enterrada. Seu fundador, Plínio Corrêa de Oliveira, deixou uma obra como fina flor da direita obscurantista "O Tribalismo Indígena". Nela se esmerou em combater o Cimi, a ala progressista da igreja católica, todos os que não comungavam com a obsessão de destruir e cortar pela raiz tudo que não estivesse alinhado ao capitalismo sacramentado na "civilização ocidental cristã".

Qual não foi minha surpresa ao participar de um encontro dos movimentos sociais em Campo Grande ao receber um folheto que apresentaram como uma organização de Jardim. "Paz no Campo" era seu nome. Uma grande manchete chamava atenção - "Toda a verdade sobre a questão indígena". Fiquei curioso. Afinal de contas qual seria o milagreiro que apresentava uma das questões mais complexas e controversas em quatro meias páginas. Num rápido olhar na parte central, dois grandes mapas, um do Mato Grosso do Sul e outro do Brasil. No primeiro nada mais fazia do que repetir o mapa que desavergonhadamente o agronegócio e políticos tem repetidamente difundido na imprensa, onde 26 municípios, 12 milhões de hectares são cercados e anunciados como pretensas terras indígenas. O panfleto da TFP consegue superar todas as mentiras já anunciadas quando despudoradamente escreve dentro do mapa "Área da reserva indígena já demarcada no MS". Sem dúvida mereceria cadeia quem espalha tamanha mentira, com o único intuito de impedir o direito constitucional dos índios à terra para viver. Na última página o mapa de Roraima, com a chamada "Onde há minério , há reserva de índio". E o mais grosseiro ficou para o final "Isso representa a nova face do comunismo e do anarquismo. O que está em jogo é o Brasil. Ou ele trilha as sendas benditas da Civilização Cristã ou será entregue à barbárie, objeto último dos religiosos do CIMI".

Guerra: milícias armadas

"O deputado estadual Zé Teixeira (DEM) defendeu nesta terça-feira a contratação de empresa privada de segurança pelos produtores rurais para evitar a invasão de propriedades pelos índios. Para justificar o armamento dos proprietários rurais, ele afirmou que existem 32 fazendas ocupadas pelos índios. Apesar dos mandados de reintegração de posse, eles não são retirados pela Polícia Federal. "O produtor deve defender o que é seu, a legalidade e a propriedade", recomendou o democrata". (Agorams, 24-03-09)

Esqueceu de esclarecer o nobre deputado que na grande maioria dos casos de retorno dos índios a suas terras tradicionais, permanecem aí por decisão judicial ou por termos de ajustamentos de conduta.

Em Brasília uma das servidoras do setor fundiário da Funai desabafava: "está pior do que no tempo da ditadura". Já uma procuradora da 6ª. Câmara, do Ministério Público Federal, em Brasília, mostrou-se extremamente preocupada com o que ouviu e sentiu no Mato Grosso do Sul.

Os povos indígenas do MS conseguiram responder a toda essa agressão garantindo com que essa será levada para uma discussão em âmbito nacional, no Acampamento Terra Livre, em Brasília, no inicio de maio. Os Kaiowá Guarani, com a sabedoria e resistência de 500 anos vão fortalecendo sua união e alianças para garantir a continuidade do reconhecimento de suas terras.

A semana dos povos indígenas, organizada anualmente pelo Cimi, volta a insistir na importância da terra para os povos indígenas "Paz e Terra para os povos indígenas - a paz é fruto da justiça". Nada mais importante do que refletir sobre esse tema, num momento pós confirmação da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, e estar em curso a identificação de todas as terras Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul.

A melhor resposta à guerra, em suas diversas dimensões, é fazer avançar a paz. A justiça será a guia segura que fará prevalecer a lógica da vida sobre o domínio da violência.

Campo Grande, 25 de março de 2009

* Assessor do Conselho Indigenis (CIMI) Mato Grosso do Sul

Fonte: Cimi MS

 

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