2º Congresso Missionário Nacional

Jaime Carlos Patias *

Do Brasil de batizados ao Brasil de discípulos missionários! A dimensão missionária é parte integrante do caminho evangelizador da Igreja.

Estimular, educar e celebrar o compromisso dos batizados com a Missão universal da Igreja é o objetivo dos Congressos Missionários nacionais e continentais celebrados há 40 anos. Nessa perspectiva é ainda atual o apelo da Conferência de Puebla (1979): "Finalmente, chegou para a América Latina a hora de intensificar os serviços recíprocos entre as Igrejas particulares e de estas se projetarem para além de suas próprias fronteiras, Ad Gentes. É certo que nós próprios precisamos de missionários, mas devemos dar de nossa pobreza" (DP 368). Há pouco mais de um ano, a Conferência de Aparecida, voltou ao tema: "a conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária" (DA 370). "O mundo espera da nossa Igreja latino-americana e caribenha um compromisso mais significativo com a Missão universal em todos os continentes" (DA 376).
Foi exatamente no mesmo auditório, no subsolo do Santuário de Aparecida, SP, onde os bispos falaram da Missão continental, com um olhar tímido para a Missão universal, que a Igreja no Brasil realizou o 2º Congresso Missionário Nacional - 2º CMN, reunindo, entre os dias 1º e 4 de maio, cerca de 600 pessoas, representando os 17 regionais da CNBB, Conselhos Missionários, grupos de animação, forças e organismos missionários do país.
Parte dos trabalhos do Congresso foi realizada no Colégio do Carmo, das irmãs Salesianas, em Guaratinguetá. Tudo pensado e organizado por uma Equipe de Coordenação e assessores. As famílias das paróquias de Aparecida e Guaratinguetá abriram suas portas e corações para acolher os congressistas, num gesto de partilha e solidariedade, características da Missão para a humanidade.

Superar a timidez
"Apesar dos avanços e compromissos assumidos, há um clamor dirigido à Igreja no Brasil: escuta, segue e anuncia. Continuamos convocados a projetar-nos para além de nossas fronteiras", anunciava padre Daniel Lagni, diretor das Pontifícias Obras Missionárias - POM, ao abrir os trabalhos. Na sua opinião "é chegada a hora de romper de vez com os tímidos e estreitos círculos de uma consciência e prática missionária doméstica, por mais que sejam necessárias e inquietantes. Ainda é muito limitada a presença, ação e serviço missionário da Igreja no Brasil pelo mundo". Essa colocação vinha a propósito do tema: "Do Brasil de Batizados ao Brasil de discípulos missionários, sem fronteiras", e o lema: "Igreja do Brasil: escuta, segue e anuncia", fio condutor do Congresso. Definitivamente, a Igreja discípula-missionária realiza-se, na Missão universal e a Missão Ad Gentes é equivalente à Missão para a humanidade.

Aprofundando a Missão
Os participantes tiveram a oportunidade de refrescar a memória do Vaticano II, Concílio que tanto marcou a Igreja. Para tal, contaram com a assessoria do teólogo espanhol radicado no Equador, Frei Santiago Ramírez Alonso, que pôs em relevo a Missão para a humanidade na Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Num segundo momento, da Conferência de Medellín, em seus 40 anos, padre Agenor Brighenti, teólogo da Missão, destacou a opção pelos pobres como a urgência da missão hoje. Iluminado pelo Documento da V Conferência do CELAM, o tema central do Congresso foi desenvolvido pelo teólogo padre Paulo Suess, que traçou algumas pistas para Caminhar com Aparecida além de Aparecida. O Documento coloca a Missão sem fronteiras e discípulos missionários por toda parte: nas comunidades, na paróquia missionária, na missão continental e nos confins do mundo. Para Paulo Suess, "o lugar não é importante, desde que os batizados compreendam que a missão não é uma atividade extraordinária, mas ordinária e cotidiana, porque "toda a Igreja é missionária", "a obra de evangelização é o dever fundamental do Povo de Deus" (AG 35) e o povo de Deus é missionário "por natureza".
A esse respeito Agenor Brighenti lembrou a importância de se considerar "este Pentecostes, que põe a Igreja na América Latina em estado permanente de missão". Porque, segundo ele, "se em algum momento não sabemos para onde ir, pode ser muito útil saber de onde viemos; para continuar fazendo processo, precisamos situar nossas raízes na história", ponderou.

Mutirões de reflexão
Além das três grandes conferências, um momento significativo do Congresso foram os 12 Mutirões de Reflexão, realizados no Colégio do Carmo, em Guaratinguetá, abordando temas como: Os Congressos Missionários Continentais e o significado da caminhada missionária da América Latina desde o Vaticano II até Aparecida; A formação da comunidade como discípula missionária sem fronteiras; A missão para a humanidade como responsabilidade dos ministérios ordenados nas Igrejas locais; Os consagrados e as consagradas como presença profética da Igreja missionária no meio de nós e nos confins do mundo; Perspectivas evangélicas para a missão dos leigos, das leigas e das famílias diante dos novos desafios do mundo globalizado; A Infância e juventude missionária: sementes de uma nova humanidade; Discípulos missionários da Amazônia para o mundo; Comunicação e missão; A missão e o desafio do diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural para uma ética e uma paz mundial; Migração como caminho de evangelização; A Igreja em discipulado missionário junto aos povos indígenas e afrodescendentes; A animação missionária além-fronteiras como tarefa específica dos organismos missionários. Numeroso era o grupo de assessores e representantes da Infância e Adolescência Missionária - IAM e da Juventude Missionária - JM, indicando um futuro promissor.

A reflexão desenvolveu-se em dois momentos: primeiro em grupos temáticos segundo o interesse dos participantes, depois em plenário, com a apresentação dos resultados. Os mutirões, além de refletirem sobre a especificidade de cada tema, foram caixas de ressonância dos outros momentos do Congresso.
Os participantes experimentaram ainda um gostinho da missão além-fronteiras ao ouvirem vozes missionárias que evangelizaram "na outra margem", na América, África e Ásia: as leigas missionárias Aparecida Severo, na Amazônia e Mônica Guarniere Machado, na Guiné Conacrí, o padre Camilo Pauletti, em Moçambique e a irmã Elvira Augusto, moçambicana no Brasil; as irmãs Elenice Buoro e Maria Nieta Oliveira, no Timor Leste; padre Luiz Carlos Emer, na Coréia do Sul e padre Joachim Andrade, indiano no Brasil. Os relatos de vivências na missão além-fronteiras criaram uma harmonia entre a reflexão, o aprofundamento e a prática missionária. Nesse espírito, os discípulos missionários chegaram ao domingo, dia 4 de maio, com o coração aquecido pela chama da missão, podendo então viver o Dia do Envio.
"Este foi um momento de renovação da paixão e do entusiasmo pela Missão. Aqui confluíram práticas missionárias que fizeram pensar e rever as respostas que temos dado aos novos desafios que exigem redimensionar a missão", disse padre Agenor Brighenti, para quem as experiências dos missionários brasileiros em outros países e a presença de alguns participantes estrangeiros, reforçou o caráter universal da Missão.
Frei Santiago Ramírez ressaltou o compromisso e o entusiasmo."Os participantes mostraram que estão comprometidas e que têm clareza da Missão. Isso dá esperança de que a Igreja brasileira se abra mais à Missão e vença seus limites", observou. Para o frei, há setores e ambientes que se mostram sensíveis e claros na direção de uma Missão que se preocupa com a humanidade e tudo que a envolve, mas há outros que estão fechados sobre si mesmos. "Se temos clareza do que diz a Conferência de Aparecida, que se preocupa com os problemas de hoje, vamos nos abrir a uma Igreja que, como Jesus, olha com compaixão e amor para todos, sem limites de fronteiras", concluiu.

As considerações traçadas pelos assessores Agenor Brighenti e Frei Santiago Ramìrez, revelam o fio condutor que perpassou os 12 Mutirões que, por sua vez, além de recolher seu conteúdo, aponta para algumas conclusões.
Duas celebrações eucarísiticas no Santuário Nacional e aquelas realizadas nas paróquias com as famílias que acolheram os congressistas, foram momentos de comunhão que renovou o entusiasmo de todos. Em vários momentos a imagem de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, mãe e mestra de comunhão e Missão, a proteção dos Padroeiros das Missões, São Francisco Xavier e Santa Teresinha do Menino Jesus, foram invocados para iluminar os trabalhos.

O Congresso conseguiu pautar os meios de comunicação que noticiaram a sua realização, publicaram matérias e desenvolveram os temas abordados. Marcaram presença pelo menos seis emissoras de TV, a Rede Católica de Rádio - RCR que congrega cerca de 170 emissoras, e outras emissoras que produziram programas ao vivo de Aparecida. 15 veículos de Comunicação participaram das três Coletivas de Imprensa que ao todo reuniram nove convidados.
Plenamente sintonizado com todo o trabalho de animação no continente, o 2º Congresso Missionário Nacional aparece na esteira de um processo, com etapas antes, durante e depois, onde os participantes abrem novos caminhos para a evangelização. Quem esteve em Aparecida, lugar de convergência de milhares de peregrinos, certamente fez uma experiência de fé e de Igreja, a partir do Discipulado, de Pentecostes e da Evangelização para a humanidade. Na seqüência, as dioceses e paróquias do Brasil estão convocadas a promover eventos, para envolver e animar os batizados e impulsionar a conversão pastoral e a renovação missionária das comunidades.

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A realização e coordenação do Congresso esteve sob a responsabilidade do Conselho Missionário Nacional (Comina), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a qual articula e congrega a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial, das Pontifícias Obras Missionárias (POM), dos Institutos e Organismos Missionários, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), do Centro Cultural Missionário (CCM), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dos Leigos e Leigas Missionários. Todas essas forças trabalham em estreita comunhão com os Conselhos Missionários Regionais (Comires), diocesanos (Comidis) e paroquiais (Comipas), em preparação para o 3º Congresso Missionário Americano - CAM 3 e 8º Congresso Missionário Latino-Americano - Comla 8, a realizar-se em Quito, Equador, de 12 a 17 de agosto, ao qual o Brasil enviará 130 delegados.
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Os números do Congresso
Participantes = 603
Leigos e leigas = 298
Padres = 183
Religiosas = 103
Bispos = 19
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A Missão em seis enunciados
1º. O sujeito da missão: Juntamente com Medellín e Aparecida, conseqüentes com a eclesiologia "Povo de Deus" do Concílio Vaticano II, se fez ênfase na comunidade eclesial, no seio da Igreja Local, como o sujeito da missão. Como diz Aparecida, "a vocação ao discipulado é convocação à comunhão na Igreja". Se começa a ser missionário pelo chamado do Pai, no encontro com Jesus Cristo, mas este encontro do discípulo passa sempre pela mediação da Palavra acolhida no seio de uma comunidade de fé. A adesão a Jesus Cristo passa pela adesão ao sacramento da comunidade. Isso desautoriza missionários voluntaristas ou como aventureiros dispersos e atomizados, bem como vinculados simplesmente a um grupo ou movimento eclesial.

2º. Os ministros da missão: Como é a comunidade eclesial, no seio de uma Igreja Local, o sujeito da missão, seus ministros são todos os batizados: os ministros ordenados, os consagrados e consagradas, os leigos e leigas, as famílias. Em vista disso, insistiu-se muito na importância e na necessidade da formação missionária de todos os membros da comunidade: formação bíblica, teológica e nas ciências humanas. Neste particular, colocou-se em relevo o desafio da formação dos candidatos ao ministério ordenado, propiciando-lhes, além de uma esmerada formação missionária, também experiência de prática. Entre os leigos e leigas, destacou-se com ênfase o segmento missionário mais entusiasta do Congresso - a infância e a juventude missionárias.

3º. Situações que interpelam, hoje: Apareceram, com toda crueza e realismo, algumas situações, em que a vida se apresenta mais ameaçada e minguada: os migrantes, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa; os indígenas; os afro-americanos; a Amazônia, com suas comunidades indígenas e de ribeirinhos, agredida também em sua biodiversidade; a África e a Ásia; a Europa, que vive um momento delicado; o mundo urbano e sub-urbano; e, entre vítimas por questões de gênero, as mulheres.

4º. As mediações para a missão: Ressaltou-se como primeiro meio de evangelização o testemunho, na consciência de que o mensageiro é também mensagem; de que a instituição eclesial, em sua organização e estruturas, também são mensagem. Foi tema de reflexão os meios de comunicação social, questionado seu uso, às vezes, cedendo à tentação do mercado e da religião como espetáculo. Mediações também para a missão são as missões populares, projetos Igrejas-irmãs, o estabelecimento de laços entre comunidades eclesiais e missionários, bem como os Conselhos Missionários, em seus diversos níveis eclesiais.

5º. Dimensões da missão: Em um mundo cada vez mais pluralista e diversificado, a missão, enquanto não têm destinatários mas, interlocutores, precisa ser: ecumênica (a unidade dos cristãos para que o mundo creia); inter-religiosa (antes do missionário sempre chega o Espírito Santo) e inter-cultural (em Jesus, o Verbo se fez cultura). Conseqüentemente, a diversidade das culturas precisa ser levada em conta na catolicidade. A Igreja, quanto mais encarnada na diversidade das culturas, tanto mais católica será; e, ao contrário, quanto mais identificada com uma só cultura, menos católica será, pois estará menos apta para fazer presente a plenitude da revelação.
6º. Os âmbitos da missão: Não se deixou de referir-se à missão, a começar de casa, Inter Gentes, pois até a própria localidade está se tornando, cada vez mais, espaço de missão Ad Gentes. Depois, ressaltou-se o âmbito nacional, com as interpelações principalmente da Amazônia, seguido do âmbito latino-americano, este rico espaço de tecitura de uma tradição autóctone, que tem enriquecido a nós e a outros continentes. O âmbito mundial, enquanto a missão é sempre para a humanidade, é a expressão da universalidade da salvação de Jesus Cristo. Finalmente, além de Ad Gentes, a missão é também além-fronteiras, entendidas estas não somente ultrapassar limites geográficos de país ou continente, mas também fronteiras de culturas, etnias, fronteiras etárias ou de gênero - "já não existe nem judeu nem grego, nem escravo e nem senhor...".

Como se pode constatar, a reflexão feita nos 12 Mutirões catalisaram ricos processos missionários presentes na Igreja hoje, assim como buscas de respostas a grandes desafios que se encontram na missão, em nosso país e fora dele. Mas o Congresso não foi só reflexão. Além de nos ter propiciado profundidade, renovou-nos a paixão e o entusiasmo pela Missão. Entretanto, mais importante que o Congresso é o Congresso depois do Congresso, pois nossa hora é agora.

Agenor Brigheiti, assessor do 2º CMN.
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Jaime Carlos Patias, imc, diretor da revista Missões e integrante da Assessoria de Imprensa do 2º CMN.

Publicado na edição Nº05 - Junho 2008 - Revista Missões.

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