Descolonizar as Missões Cristãs

Não existe uma fé madura que não necessita ser inculturada. A novidade e diversidade do Reino que não cabem nas igrejas, exigem que a teologia seja pública e plural, deliberadamente.

Por Isaack Mdindile

A lógica cristã é uma lógica imperial, na medida em que engloba sob a mesma esfera a construção de conceitos organizadores deste mundo e do outro com um imaginário do poder, da sociedade, do tempo, da justiça e do sonho, em suma, da história e da sua derradeira verdade (MBEMBE, 2013, p.27).

IMG-20210310-WA0055Desde o tempo colonial até hoje, pode-se dizer que nunca existiu nada como o controle absoluto das mentalidades africanas. Ou seja, esgotar e limitar a história africana no binômio interpretativo; escravo/dominador, pagão/cristão constitui-se num erro que oculta a maior parte da historiografia africana. Vale lembrar que a propagação da fé cristã no continente nunca foi pacífica. Sempre foi marcada pelo jogo de soma-zero, no qual para o cristianismo vigorar era necessário apagar as divindades africanas, já que o modus operandus cristão vigente divergia consideravelmente do pensamento complexo africano.

Essa linha de pensar busca questionar as visões simplistas e positivistas partindo da não completude do conhecimento e da aceitação da diversidade dos saberes e percepções acerca do mundo e da vida. Segundo essa cosmovisão, a realidade é um tecido de múltiplos fios interligados e em permanente processo de construir e reconstruir. Por isso, as noções binárias e separatistas como o sagrado e o profano, alma e corpo, negro e branco, primeiro mundo e terceiro mundo, não conseguem capturar a fluidez e a complexidade da realidade que se encontram nas civilizações do povo.

O cristianismo, com sua missão universal de expansão entre Ad Gentes e conquista espiritual só é possível e realizável sob a condição de não fugir ao sincretismo religioso, mas antes, pelo contrário, de fazer o processo da produção da própria catolicidade autóctone. Aqui devemos mostrar a legitimidade do sincretismo como processo de vida e sua relevância na África que é muito grande, dada a profunda inquietação religiosa do povo, de distinta procedência tanto da África-ancestral quanto a África-islâmica e cristã (tríplice herança), como caracteriza o cientista político Ali Mazrui.

Não existe uma fé madura que não necessita ser inculturada. A novidade e diversidade do Reino que não cabem nas igrejas, exigem que a teologia seja pública e plural, deliberadamente. A Igreja Católica sempre esteve convencida da necessária inculturação da fé nas diferentes culturas, mas de fato isso não ocorria, por várias razões, sendo uma delas o temor de divisões dentro da própria Igreja. Contudo, diversidade não significa necessariamente divisão/cisma. Não faltaria justiça à lógica da encarnação e evangelização pensar num cristianismo monocultural e monocórdico (EG, 117).

Esse artigo tem como objetivo questionar a visão universalista das ciências e religião cristã, portanto mostrar a África marcada pela diversidade, complexidade e capacidade de agir e interagir aos imperativos religiosos da modernidade em busca de sua própria autodefinição sem perder de vista a sua inteligência de fé-ancestral. É indispensável enxergarmos o continente africano, sobretudo, seu universo religioso para além do processo histórico-evangelizador recente, dos lugares comuns e práxis hegemônicos ocidentais. Nesse sentido, a descolonização da teologia e suas missões se torna uma tarefa complexa, necessária e urgente.

O caminho é assumir com coragem e criatividade a árdua tarefa de africanizar o cristianismo. Isso é, canonicamente, reconhecer e promover as contribuições das religiões e filosofia africana ao universo-religioso global. E ao mesmo tempo descentralizar a fé crista e sua implicação nas instituições religiosas. Pois, uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária.

Uma leitura descolonizadora; ler com os olhos de Jesus

Jesus herdou de seu povo uma concepção monoteísta da divindade. Porém, não era a concepção definida pela teocracia pós-exílica. Certamente Jesus não era partidário deste monoteísmo que legitimava a exclusão e discriminação, justificava a hierarquia e os privilégios dos sacerdotes do segundo templo. Essa deve ter sido, na realidade, a teologia das pessoas que condenaram Jesus à morte, ou apoiaram sua condenação. Hoje no interior das igrejas, há poucos gestos e comportamento sério de revisão de suas práticas indulgentes, paternalistas e assistencialistas. Cristão sem formação teológica crítica é sujeito à manipulação ideológica e sofre de raquitismo espiritual.

Uma das formas e método decolonial (o pensamento decolonial vem buscando romper com as colonialidades vividas pelos povos não europeus. Esta abordagem epistêmica vem sendo desenvolvida principalmente por estudiosos latino-americanos da decolonialidade) é desenvolver uma espiritualidade africana da interconexão, da gratuidade que ama a vida como dom e que possa corresponder aos processos sociopolíticos decoloniais de aprofundamento democrático, de consolidação de direitos, de crítica às mais variadas formas de dominação, e à busca de alternativas à lógica imperial econômica. Tais visões de espiritualidade se expressam em aspectos práticos e concretos da vida social e política, como os processos de defesa da justiça social e econômica, dos direitos humanos e da terra, da cidadania e da dignidade dos pobres.

Portanto, deixemo-nos guiar pelos profetas camponeses, por Jesus de Nazaré, pelos povos da Amazônia e os povos negros, para que possamos realizar uma leitura e agir descolonizada da missão e dos textos bíblicos. Testemunharemos a partir deles, a experiência da Deus como presença libertadora, e sua palavra como força humanizadora e integradora.

Isaack Mdindile, imc, é missionário na Amazônia.

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