Acolhimento deve nortear conduta dos fiéis

Quando nós conseguimos dialogar, conseguimos entender o lugar do outro e o outro consegue entender o nosso lugar. Quando não dialogamos, somos intolerantes.

Por Vitor Struck

"A família é um tesouro e não necessariamente um museu". A frase do Papa Francisco foi lembrada pelo padre Gelson Luiz Mikuszka, Missionário Redentorista, Doutor em Práxis Cristã pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (Faje), professor e coordenador do curso de Teologia na PUC (Pontifícia Universidade Católica Campus Londrina) no avanço das discussões sobre a convivência tanto dentro de casa de filhos que se descobrem homossexuais, quanto de famílias formadas por pessoas do mesmo sexo na sociedade. Assim como Francisco, Gelson é um defensor da família tradicional, formada por um homem e uma mulher, mas ressalta o acolhimento, o amor e a misericórdia como os preceitos que devem nortear a conduta dos fiéis.

Padre Gelson Luiz Mikuszkas / Gina Mardones

Padre Gelson Luiz Mikuszkas / Gina Mardones

No contexto da sua formação, como o senhor vê estes modelos de famílias que vêm se formando não necessariamente por um homem e uma mulher e as tradicionais mas que têm aceitação pela homossexualidade dos filhos? 
A Teologia Cristã vai dizer que existe um modelo de família e ele é específico para todas as épocas. É o que vemos em Gênesis, capítulo 2 versículos 21 a 24, que é homem e mulher, que segundo a teologia Cristã é o sonho de Deus. Este é o modelo de família que vai pautar a teologia porque temos uma sólida convicção dos valores acerca de vida e da família e a Igreja vai caminhar a partir deste modelo que é bíblico. Tanto que isso diz respeito ao nascimento dos filhos, da humanidade que vai se recompondo. O papa Francisco diz que a família é um tesouro e não necessariamente um museu. Tesouro não envelhece, museu é feito de coisas antigas. Por que ele diz isso? É pautado neste modelo de família e sendo um tesouro, precisa ser preservado. Nós não jogamos tesouros fora, mas não é pra ser museu. Na exortação Amoris Laetitia o Papa destacou muito bem, a partir, da própria teologia, que a família torna concreto o dom de Deus através da beleza da alegria do amor. Está bem claro lá que o principal neste modelo é o amor e gera uma família. E a partir daí eu vejo que não há melhor aliado para a sociedade quando a gente age a partir disso e pensa a partir disso porque ai nós temos valores que se agregam a este modelo. Isso ajuda no progresso da sociedade, ajuda as pessoas a terem uma noção mais clara do que necessariamente são os valores. Também lá o papa vai dizer várias vezes que a família é uma relação interpessoal, logicamente, uma comunhão de pessoas. Agora ele não diz, também, que tipo de pessoas fazem esta comunhão e daí nesta comunhão de uma família, todas as pessoas com diferenças estão dentro desta comunhão.

Neste ano, pela primeira vez foi usado em um documento oficial que trata da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos a sigla LGBT e o papa vai focar mais na juventude na conversa com os bispos. O que o senhor acha desta forma com que ele trata o assunto? 
Eu creio que o papa Francisco tem bastante tolerância em relação às diferenças e esta tolerância é sinal de amor. Nós não podemos ser intolerantes. Mesmo que às vezes não concordamos com várias questões que acabam aparecendo nestas relações, precisa haver tolerância com muito amor, misericórdia e carinho. Veja, tanto a presença das pessoas que têm uma outra tendência sexual, que são os LGBT´s, quanto a presença dos divorciados. Tanto nas paróquias quanto nas pastorais têm mostrado que a própria Igreja, os próprios presbíteros, as pessoas das pastorais têm acolhido com muito carinho, muito mais amor e misericórdia, e entendido este discurso que o papa tem, que é um discurso de acolhimento. Antes de ver o que há de diferente eu creio que a Igreja está se firmando naquilo que mais une, que é o amor ao próximo. Este é o centro do Cristianismo que é o amor ao próximo e o próximo não tem nome: são todas as pessoas. Então é preciso hoje reler as demandas de uma forma a partir do amor ao próximo, é isso que o papa tem demonstrado e não seria diferente, porque Cristo foi assim. Nós sabemos dos episódios todos que os Evangelhos narram o Cristo acolhendo pessoas que na própria sociedade da época eram consideradas muito diferentes e até marginalizadas. Então não passa disso, é sempre o acolhimento, o amor ao próximo.

E no Brasil, o senhor vê que na Igreja Católica há uma divisão com relação a isso? 
Se houver é normal porque é uma caminhada, um diálogo a respeito disso. Tudo vai se esclarecendo com o tempo, tanto para com as pessoas quanto para a caminhada da própria teologia. Não digo que vamos mudar o sonho de Deus, mas existe uma possibilidade de haver mais diálogo, mais reflexão e creio que também uma noção mais clara sobre esse amor ao próximo. Nesse sentido, eu creio que vamos crescendo aos poucos.

O senhor acha que este debate, aqui no Brasil, veio muito tarde em comparação com outros países? 
Eu creio que caminha no seu processo. É lento. Nós temos uma cultura diferente dos outros países, logicamente, e creio que está dentro do processo normal. Não pode adiantar ou atrasar este processo, é lento e de reflexão. Nem tudo se concorda e não pode se pode relativizar nada. Relativizar é complicado, mas eu creio que é um processo de tradição e aos poucos a gente vai entendendo melhor o que está acontecendo e se entendendo melhor. Eu estive na Europa e os jovens do mesmo gênero, homens, se beijavam no rosto, sem nenhuma maldade. Aqui no Brasil já não é tão normal, mas pra eles lá era tranquilo. Estas são as diferenças de cultura. Quando nós conseguimos dialogar, conseguimos entender o lugar do outro e o outro consegue entender o nosso lugar. Quando não dialogamos, somos intolerantes, fechamos o diálogo, não nos entendemos mais aí os conflitos tendem a ser muito tensos.

E o senhor acha que existem líderes no Brasil que não querem tratar deste assunto de forma democrática? 
Olha, para dizer a verdade, eu não conheço nenhum líder que necessariamente seja tão crítico, tão fundamental assim. Mas eu conheço uns que já estão dialogando bem. Há um frei lá em São Paulo da Pastoral da Diversidade e eles estão dialogando muito bem. Até perguntaram para ele: ‘mas você dá eucaristia para estas pessoas?’ e ele diz assim: ‘a nossa questão doutrinária, moral, no ocidente está muito ligada à sexualidade, contudo as pessoas não questionam se as pessoas corruptas comungam’. As pessoas não questionam os corruptos, questionam se é LGBT, que tá ligado a sexualidade, e a corrupção mata gente no hospital. É uma questão interessante para nós pensarmos. E ele diz assim: ‘não sou eu quem necessariamente decido quem deve comungar mas uma boa catequese, uma boa instrução doutrinal vai mostrar. E nós fazemos uma boa catequese se formos tolerantes e dialogarmos com as pessoas’. Então não tem como você ajudar as pessoas a entenderem o que é a comunhão e o que é a Eucaristia, a doutrina e a teologia Cristã se você não tem diálogo com elas. Impor é complicado.

Fonte: Folha de Londrina

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