A greve dos caminhoneiros deixou claro o que vamos viver daqui em diante

A crise não é só dos com­bus­tí­veis, é de todo um go­verno que está le­vando o Brasil na marcha à ré. Re­tro­a­gimos a algo an­te­rior à dé­cada de 40, e a ten­dência é pi­orar.

Por Gabriel Brito

A pa­ra­li­sação dos ca­mi­nho­neiros e do país no fim de maio ainda é o grande tema na­ci­onal e tem tudo para deixar se­quelas, a exemplo do que já se per­mite vis­lum­brar na rá­pida greve dos pe­tro­leiros. Pa­ra­le­la­mente, a Pe­tro­bras volta ao centro de de­bates e dis­putas, dado que sua po­lí­tica de preços foi o dis­pa­rador da greve e seu pre­si­dente acaba de se de­mitir. Sobre esse in­trin­cado quadro, con­ver­samos com Ema­nuel Can­cella, ex-pre­si­dente do Sin­di­cato dos Pe­tro­leiros, que traçou um pro­fundo di­ag­nós­tico da gestão da es­tatal.

Entrevista_Emanuel-Cancela_Foto_Stefano-Figalo-05“Pedro Pa­rente na minha ava­li­ação nem de­veria ter ocu­pado o posto de pre­si­dente da Pe­tro­brás. Ele é réu, desde 2001, quando deixou um rombo bi­li­o­nário de 5 bi­lhões de reais por vendas de ativos na es­tatal. Agora, vimos o ‘Feirão do Pa­rente’. Ele vendeu dutos, campos do pré-sal, pe­troquí­mica, tirou a Pe­tro­brás das áreas de gás, fer­ti­li­zantes, bi­o­com­bus­tí­veis, ce­le­brou acordo de 10 bi­lhões de reais com os aci­o­nistas norte-ame­ri­canos mesmo sem con­de­nação ju­di­cial da Pe­tro­brás... Ele aplicou aquilo que os tu­canos acre­ditam: ‘o pe­tróleo é vosso’”, dis­parou.

Na con­versa, além de de­sancar o mi­nistro do apagão de 2001, Can­cella elenca ne­ga­ti­va­mente toda a po­lí­tica le­vada a cabo pela es­tatal – com apoio mi­diá­tico que só pode ser clas­si­fi­cado como mi­li­tância. Desde o cha­mado Plano de De­sin­ves­ti­mentos ao Plano de Ne­gó­cios 2017-2021, o pe­tro­leiro afirma se tratar de uma noção ab­so­lu­ta­mente en­tre­guista e ir­res­pon­sável, pois em pouco tempo já causou no­tório re­bai­xa­mento da qua­li­dade de vida da po­pu­lação.

“É a po­lí­tica de de­sin­ves­ti­mento: mandar cons­truir na­vios e pla­ta­formas no ex­te­rior, tirar a Pe­tro­brás dos se­tores men­ci­o­nados, vender campos do pré-sal... Que plano é esse que só visa fa­vo­recer o mer­cado – leia-se fi­nan­ceiro – e as pe­tro­leiras in­ter­na­ci­o­nais?”, atacou.

A en­tre­vista com­pleta com Ema­nuel Can­cella pode ser lida a se­guir.

Correio da Cidadania: Em pri­meiro lugar, como en­xergou a greve dos ca­mi­nho­neiros, que pra­ti­ca­mente pa­ra­lisou o país neste fim de maio, com suas de­mandas e ma­tizes tão di­ver­si­fi­cados?

Emanuel Can­cella: Os ca­mi­nho­neiros são os mesmos que blo­que­aram es­tradas no “Fora, Dilma” em 2016. Agora, fi­zeram uma greve que, sem dú­vidas, também foi im­pul­si­o­nada pelos pa­trões, os donos das trans­por­ta­doras. Porém, é bas­tante le­gí­tima no que diz res­peito aos tra­ba­lha­dores, isto é, aqueles bra­si­leiros que com­praram seu ca­mi­nhão, assim como se compra um táxi, para fazer do trans­porte seu meio de vida. Essas pes­soas pa­raram de modo le­gí­timo, pois os su­ces­sivos re­a­justes do di­esel es­tavam in­su­por­tá­veis.

Os pa­trões, a meu ver, es­pe­ravam com a pa­ra­li­sação – in­clu­sive do país – a tal in­ter­venção mi­litar. Mas os pró­prios mi­li­tares deram de­cla­ra­ções, senão de apoio, bas­tante be­ne­vo­lentes. Um ge­neral até disse que não se ima­gi­nava re­pri­mindo a greve. Frus­trou-se a ex­pec­ta­tiva das trans­por­ta­doras e elas sus­pen­deram a greve. Mas elas res­pondem por 30% dos ca­mi­nho­neiros e os ou­tros 70% a man­ti­veram.

A pri­meira lei­tura é: uma ten­ta­tiva gol­pista ou o que o valha por parte das em­presas acom­pa­nhada por uma greve le­gí­tima, por so­bre­vi­vência, por parte dos tra­ba­lha­dores, os ca­mi­nho­neiros. Foi um teste im­por­tante, pois até então os tra­ba­lha­dores não tí­nhamos feito uma pa­ra­li­sação de tal porte, apesar das ten­ta­tivas.

Por isso houve grande e ge­ne­ra­li­zada so­li­da­ri­e­dade, de cen­trais sin­di­cais, par­tidos, po­pu­lação... Uma greve que mos­trou que há como furar o blo­queio, não do go­verno Temer, que é ca­chorro morto, mas o blo­queio que o cerca: de mídia, Con­gresso e Ju­di­ciário.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como en­xergou as res­postas do go­verno Temer? 

Ema­nuel Can­cella: O go­verno Temer passou a perna nos ca­mi­nho­neiros ao dizer que di­mi­nuiria o preço do di­esel, fazer con­cessão em pe­dá­gios, re­for­mular al­gumas leis, mas na prá­tica não fun­ci­onou. Pelo que posso acom­pa­nhar, os postos não têm obe­de­cido aos preços es­ti­pu­lados e os go­vernos es­ta­duais re­gulam seu pró­prio ICMS como pre­ferem.

Por­tanto, os ca­mi­nho­neiros foram le­sados, pois mesmo dentro do acordo do Temer, ve­remos a re­to­mada dos re­a­justes nos com­bus­tí­veis daqui a dois meses. E quem acom­panha a ge­o­po­lí­tica de pe­tróleo diz que o preço vai subir. Pelo que dizem es­tu­di­osos do as­sunto – como Paulo Metri, Fer­nando Si­queira, que me con­ven­ceram – já, já o pe­tróleo volta ao pa­tamar de 100 dó­lares o barril. Todo o mo­vi­mento de baixar o pe­tróleo de 140 para 25 dó­lares foi ar­ti­fi­cial.

Entra em cena uma briga maior. A greve dos ca­mi­nho­neiros é o rabo do ele­fante. Os su­ces­sivos au­mentos do gás, do di­esel, da ga­so­lina, não in­fluem na in­flação? Es­tranho. Não são só os com­bus­tí­veis. Tem a PEC do Teto de Gastos, que con­gela os or­ça­mentos pú­blicos por 20 anos, por exemplo. Ou seja, ve­remos greves e mo­vi­mentos de re­beldia em ou­tros se­tores, como a saúde, já que os hos­pi­tais também estão que­brados. A crise não é só dos com­bus­tí­veis, é de todo um go­verno que está le­vando o Brasil na marcha à ré. Re­tro­a­gimos a algo an­te­rior à dé­cada de 40, e a ten­dência é pi­orar.

O pro­jeto deles é go­vernar para um terço da po­pu­lação e dane-se o resto. Por­tanto, a greve dos ca­mi­nho­neiros é im­por­tante pra co­meçar a deixar claro o que vamos viver daqui em di­ante.

Cor­reio da Ci­da­dania: A Pe­tro­brás está no olho da crise e dos de­bates. Como ana­lisa as res­postas ini­ciais de seu pre­si­dente, Pedro Pa­rente e de­pois sua saída, para dar lugar a Ivan Mon­teiro? 

Ema­nuel Can­cella: Pedro Pa­rente na minha ava­li­ação nem de­veria ter ocu­pado o posto de pre­si­dente da Pe­tro­brás. Ele é réu, desde 2001, quando deixou um rombo bi­li­o­nário de 5 bi­lhões de reais por vendas de ativos na es­tatal, quando era mi­nistro de um go­verno que tentou pri­va­tizá-la. Par­ti­cipou de toda aquela tra­moia das vendas de ações da em­presa em Nova York, se­gundo a AEPET (As­so­ci­ação dos En­ge­nheiros da Pe­tro­brás) por 10% do valor... Lembro que fi­zemos até um en­terro sim­bó­lico dele.

Agora, vimos o “Feirão do Pa­rente”. Ele vendeu dutos, campos do pré-sal, pe­troquí­mica, tirou a Pe­tro­brás das áreas de gás, fer­ti­li­zantes, bi­o­com­bus­tí­veis, ce­le­brou acordo de 10 bi­lhões de reais com os aci­o­nistas norte-ame­ri­canos mesmo sem con­de­nação ju­di­cial da Pe­tro­brás...

Por quê? Porque ele tem o aval da Lava Jato, que in­ves­tiga a Pe­tro­brás. A mesma ope­ração tão dura – cor­re­ta­mente – na gestão an­te­rior, agora, no­va­mente sob gestão tu­cana no setor, virou cúm­plice.

Pedro Pa­rente é o res­pon­sável pela greve dos ca­mi­nho­neiros, tanto pelos au­mentos como por dizer que a po­lí­tica de preços não mu­daria, já no meio da pa­ra­li­sação. E por isso ela cresceu muito mais.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que pensa das crí­ticas que cul­pa­bi­lizam a po­lí­tica de con­trole de preços do com­bus­tível ao longo de anos re­centes?

Ema­nuel Can­cella: A Pe­tro­brás é re­sul­tado da cam­panha “O Pe­tróleo é nosso”. A Pe­tro­brás do Pa­rente é do “Pe­tróleo é vosso”, como dito pelo pri­meiro di­retor da Agência Na­ci­onal do Pe­tróleo (ANP), David Zyl­bersz­tajn. É dele essa cé­lebre frase. Os com­bus­tí­veis têm de ser sub­si­di­ados para servir a seu dono, ou seja, a so­ci­e­dade. Foi o que se fez. A Pe­tro­bras se­gu­rava vá­rios au­mentos do barril de pe­tróleo para não pe­na­lizar o con­su­midor bra­si­leiro, a dona de casa. Pa­rente adotou os preços ao sabor do mer­cado. Chegou ao ab­surdo de co­locar va­ri­ação diária do preço.

Por­tanto, ele aplicou aquilo que os tu­canos acre­ditam: “o pe­tróleo é vosso”. Ele tra­ba­lhou na Pe­tro­brás para servir ao mer­cado, às grandes pe­tro­leiras... Não se sabe muito disso, mas o prin­cipal be­ne­fi­ciário da im­por­tação de de­ri­vados, já que temos ca­rência de re­fino no di­esel, é os Es­tados Unidos: em três meses pa­gamos 4 bi­lhões de reais aos EUA na im­por­tação de di­esel. Pa­ra­le­la­mente, Pa­rente di­mi­nuiu a carga de ca­pa­ci­dade de re­fino no país para 60%. As re­fi­na­rias bra­si­leiras estão com cerca de 40% de oci­o­si­dade, en­quanto o mer­cado pre­cisa de di­esel e ga­so­lina.

E mais: anun­ciou a venda de cerca de me­tade das nossas re­fi­na­rias. Ele es­tava aí pra servir ao mer­cado e às pe­tro­leiras. Ao mesmo tempo, Mi­chel Temer de­so­nerou as pe­tro­leiras em 1 tri­lhão de reais, em es­pe­cial a Shell. Essa é a visão deles do pe­tróleo. Não é só en­tregar o pré-sal, é en­tregar o mer­cado bra­si­leiro, mun­di­al­mente res­pei­tável.

Querem en­tregar os bi­o­com­bus­tí­veis, outro filão im­por­tante, re­no­vável, en­quanto o pe­tróleo é es­go­tável. O mesmo vale para as pe­troquí­micas, braço mais lu­cra­tivo do setor, os fer­ti­li­zantes, nos quais o Brasil também é forte... Uma gestão pau­tada na po­lí­tica do FHC, de pri­va­tizar a Pe­tro­brás. FHC acabou com os es­ta­leiros, que em mai­oria eram no Rio de Ja­neiro, e mandou fa­bricar pla­ta­formas no ex­te­rior. O go­verno Lula re­tomou a po­lí­tica de con­tratar pla­ta­formas aqui e eles no­va­mente re­ver­teram tal po­lí­tica.

Nada disso é no­vi­dade. Já ti­nham feito assim e sa­bíamos que não seria di­fe­rente. A Pe­tro­brás foi alvo de uma cam­panha vi­o­lenta por parte da Lava Jato, com va­za­mentos se­le­tivos, em es­pe­cial para a Globo. E fico feliz em ver que mesmo di­ante de tanto bom­bar­deio mi­diá­tico 60% dos bra­si­leiros são contra a pri­va­ti­zação da Pe­tro­brás.

Logo que vi a pes­quisa, achei ruim, mas de­pois vi que só 21% são a favor. O povo não ad­mite o roubo da em­presa. Cabe a nós re­tomar cam­pa­nhas que mos­trem à so­ci­e­dade o que a Pe­tro­brás re­pre­senta para o Brasil. Em 2014, no auge da em­presa, ela fi­nan­ciava 80% das obras do país. Agora, esse di­nheiro todo vai pra mul­ti­na­ci­onal e mer­cado fi­nan­ceiro in­ter­na­ci­onal.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que co­menta do “Plano de De­sin­ves­ti­mentos” da em­presa, sau­dado pelos arautos do mer­cado como ponto po­si­tivo da “re­cu­pe­ração da Pe­tro­brás”?

Ema­nuel Can­cella: É uma po­lí­tica que existe em todas as pe­tro­leiras do mundo, quando vendem ativos. Mas no Brasil usa-se tal fer­ra­menta pra pra­ticar um en­tre­guismo exa­cer­bado. Uma coisa é vender um ativo pra fazer um in­ves­ti­mento que pode dar re­torno maior à em­presa. Se fi­zermos um ba­lanço desse plano do Pa­rente, trata-se apenas de vender re­fi­na­rias. Tirou a Pe­tro­brás de se­tores al­ta­mente lu­cra­tivos, es­tra­té­gicos e em­pre­ga­tí­cios, como são os se­tores de gás, pe­troquí­mica, fer­ti­li­zantes, bi­o­com­bus­tí­veis, dutos...

Cor­reio da Ci­da­dania: A venda da NTS (Nova Trans­por­ta­dora do Su­deste) entra nesta dis­cussão? 

Ema­nuel Can­cella: A re­gião mais rica do país é o Su­deste, por­tanto, a que mais con­some com­bus­tível. A malha foi cons­ti­tuída ao longo dos anos, coisa que a so­ci­e­dade não vê porque os dutos são em mai­oria sub­ter­râ­neos, mas ti­veram in­ves­ti­mento al­tís­simo. Nada im­pede seu fluxo, não tem greve de ca­mi­nho­neiros que o faça. E o Pa­rente vendeu a NTS, coisa que agora está na jus­tiça, prestes a de­cidir a res­peito.

É a po­lí­tica de de­sin­ves­ti­mento: mandar cons­truir na­vios e pla­ta­formas no ex­te­rior, tirar a Pe­tro­brás dos se­tores men­ci­o­nados, vender campos do pré-sal... Que plano é esse que só visa fa­vo­recer o mer­cado – leia-se fi­nan­ceiro – e as pe­tro­leiras in­ter­na­ci­o­nais?

Falam de Pa­sa­dena ou re­fi­na­rias na Bo­lívia apenas para queimar a em­presa, mas nin­guém fala disso, que está acon­te­cendo agora. Ah, sim: Pa­sa­dena está dando lucro há cinco anos. Nin­guém fala que Pa­rente vendeu a pe­troquí­mica de Suape pelo preço de 4 dias de fa­tu­ra­mento. Nin­guém fala que vendeu o campo de Car­cará do pré-sal com o barril a preço de re­fri­ge­rante.

É um plano de des­truição da Pe­tro­brás. Que as ações em­bar­guem a ne­go­ciata da NTS.

Cor­reio da Ci­da­dania: Di­ante de tudo isso, nada mais óbvio do que novas ro­dadas de en­ca­re­ci­mento do com­bus­tível, pas­sadas e fu­turas.

Ema­nuel Can­cella: Com cer­teza. Se vender o duto do Su­deste, nin­guém cons­truirá outro. Só tem aquele. Era da Pe­tro­brás, agora não é mais. A em­presa não só paga pra usá-lo, como pre­cisa pegar a fila, pois não é mais dona e não tem pre­fe­rência.

Com re­lação aos preços dos de­ri­vados, se o pe­tróleo é nosso a po­lí­tica de preços deve mesmo sub­si­diar, e for­te­mente, itens es­tra­té­gicos como di­esel, gás de co­zinha, trans­porte... É do in­te­resse da so­ci­e­dade bra­si­leira. Hoje, só com esses seis meses de po­lí­tica de Pa­rente, mais de 1,2 mi­lhão de do­mi­cí­lios dei­xaram de co­zi­nhar a gás e usam lenha.

Daqui a pouco vai ter a greve dos ta­xistas, das vans... Não vão su­portar o preço dos de­ri­vados. Por isso de­fen­demos que Pe­tro­brás, Ele­tro­brás, BNDES têm de ter fun­ções so­ciais. Não podem ser ven­didas pra mer­can­ti­listas que querem ga­nhar di­nheiro com energia. A CEDAE não pode virar uma em­presa que trans­forme água em mer­ca­doria, nin­guém vai su­portar.

Es­tamos no centro de um de­bate de que país que­remos. Em­pre­sá­rios não têm pre­o­cu­pação so­cial. Isso devia estar claro há tempos. Pes­soas de­fendem sua po­lí­tica afir­mando que a Pe­tro­brás tem de dar lucro e aci­o­nista tem de ga­nhar. Só que os aci­o­nistas querem ga­nhar muito, aliás, nunca dei­xaram de ga­nhar. No en­tanto, a ló­gica do Pa­rente é dar as costas ao Brasil e servir a pe­tro­leiras e ao mer­cado in­ter­na­ci­onal.

FHC tentou pri­va­tizar a Pe­tro­brás, chegou a trans­formá-la em uni­dade de ne­gó­cios exa­ta­mente como se fez agora, a exemplo do campo de Car­cará. Como es­tava fraco, o FHC só con­se­guiu vender 30% da Refap (Re­fi­naria Al­berto Pas­qua­lino, no Rio Grande do Sul). Mas a ideia era vender cada uni­dade de ne­gócio, ou seja, as uni­dades da Pe­tro­brás.

Com re­lação à dí­vida da Pe­tro­brás, é uma farsa, pois po­demos olhar o lado cheio ou vazio do copo. A res­posta a isso é po­lí­tica: a Pe­tro­brás des­co­briu o pré-sal, que tem cerca de 100 bi­lhões de barris. O pe­tróleo está em 70 dó­lares. Co­loca os ze­ri­nhos aí e dá 7 tri­lhões de dó­lares, não pre­cisa ser bom de ma­te­má­tica. A dí­vida ale­gada é fi­chinha, façam o favor. O valor da em­presa tal como eles co­locam no mer­cado não diz nada. Tem pelo menos 100 bi­lhões de barris à mão, isso con­ver­tido em pe­troquí­mica, com­bus­tível dá muito mais que os 7 tri­lhões, que se­riam só de óleo in na­tura.

É piada fa­larem mal da Pe­tro­brás, como faz a mídia em­pre­sa­rial bra­si­leira. A em­presa ga­nhou três vezes o prêmio OTC (Offshore Te­ch­no­logy Con­fe­rence), por ter feito a maior ca­pi­ta­li­zação da his­tória, em 2010. Temos uma em­presa mun­di­al­mente re­co­nhe­cida. Mas nossos amigos da Lava Jato pre­ferem re­sumir tudo à pa­lavra Pe­trolão (risos). E se é pra falar de es­cân­dalo mais uma vez lem­bramos do Ba­nes­tado, o maior de todos, ex­clu­si­va­mente tu­cano, que por coin­ci­dência até hoje não prendeu nin­guém. Mesmo assim, o Moro ja­mais co­gitou in­ter­pelar o Pedro Pa­rente...

Cor­reio da Ci­da­dania: Como você ana­lisa o Plano de Gestão e Ne­gó­cios 2017-2021 da Pe­tro­brás? O que de­verá advir dele em termos tra­ba­lhistas e econô­micos?

Ema­nuel Can­cella: O Plano de Ne­gó­cios foi dei­xado pela Dilma, vi­sava cons­truir duas re­fi­na­rias, can­ce­ladas pelo Pa­rente, no Ceará e Ma­ra­nhão. Te­ríamos au­tos­su­fi­ci­ência no re­fino e ex­ce­dente para ex­por­tação. Isso está can­ce­lado pela Lava Jato e Pedro Pa­rente. É pre­ciso re­tomar tais ques­tões, re­ti­radas da al­çada da Pe­tro­brás, como já ex­pli­quei antes. Gás, pe­troquí­mica, bi­o­com­bus­tí­veis têm de voltar aos planos de ne­gó­cios.

Es­tamos fa­lando do mi­nistro do apagão de 2001. Quem salvou o Brasil do apagão foi o Ildo Sauer, di­retor de Gás da Pe­tro­brás du­rante quatro anos, que re­tomou o con­trole das ter­me­lé­tricas. Ele com­prou par­ti­ci­pação na mai­oria delas, que eram uma bomba de efeito re­tar­dado no go­verno an­te­rior, pois mesmos sem gerar um ki­lowatt de energia co­bravam em dólar. O Ildo, no go­verno Dilma, acabou com isso e de­be­lamos o apagão.

O Plano de Ne­gó­cios pre­cisa ir na di­reção con­trária da pro­posta de Pa­rente: tem de cons­truir re­fi­naria, re­tomar se­tores es­tra­té­gicos e o duto do Su­deste. Esses caras aí não o farão. Vão con­ti­nuar com o “plano es­tra­té­gico” de es­va­ziar a com­pa­nhia e dar tudo para as pe­tro­leiras, a exemplo da isenção de 1 tri­lhão de reais do ano pas­sado.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como en­trou a greve dos pe­tro­leiros no meio disso? Quais as prin­ci­pais rei­vin­di­ca­ções dos pe­tro­leiros? 

Ema­nuel Can­cella: Está di­fícil para qual­quer tra­ba­lhador fazer greve num país com mais de 13 mi­lhões de de­sem­pre­gados e os sin­di­catos um tanto que­brados. É muito di­fícil. Mas as di­re­ções vi­nham tra­ba­lhando nisso há muito tempo. Um com­po­nente po­lí­tico atra­pa­lhava: a questão do PT. Muitos acu­savam de ser mo­bi­li­zação pelo Lula etc. Mas após a greve dos ca­mi­nho­neiros con­se­guimos uma uni­dade, entre FUP e FNP. Não sei até quando.

Quando veio a multa de 500 mil reais por dia da jus­tiça re­al­mente se tornou in­su­por­tável e foi cor­reto sus­pender a greve. Mas ela pode voltar a qual­quer mo­mento, por conta da po­lí­tica de preços, que no­va­mente su­fo­cará a so­ci­e­dade. Ou­tros se­tores vão se ma­ni­festar con­tra­ri­a­mente. Um mi­lhão de lares aban­do­naram o gás de co­zinha. De todo modo, con­se­guimos fazer a greve e muitas pla­ta­formas e re­fi­na­rias pa­raram - não a pro­dução, porque numa pa­rada de 72 horas não tem como parar de fato.

A greve foi um avanço e pode voltar a qual­quer mo­mento.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como são as atuais con­di­ções da ca­te­goria? 

Ema­nuel Can­cella: Os pro­blemas in­ternos da Pe­tro­brás são imensos. Temos a pior po­lí­tica de re­cursos hu­manos de todos os tempos. Há dois anos os pe­tro­leiros não têm au­mento real, Par­ti­ci­pação em Lu­cros e Re­sul­tados, estão en­xu­gando os acordos co­le­tivos. O que é pior: dentro dessa linha de “com­bate à cor­rupção” estão des­con­tando nos con­tra­che­ques no mí­nimo 13% do que dizem ser rombo do fundo de pensão Pe­tros.

O clima in­terno é muito ruim. A po­lí­tica de Pa­rente em re­lação aos fun­ci­o­ná­rios é a pior que já ti­vemos. E ele que não venha dizer que falta di­nheiro, porque os 10 bi­lhões para aci­o­nistas pri­vados não fal­taram. A dis­cussão, que até a greve dos ca­mi­nho­neiros vinha pa­rada, irá con­ti­nuar.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como sin­di­ca­lista ex­pe­ri­ente, ex-pre­si­dente do Sin­di­petro, o que co­menta da atu­ação das cen­trais sin­di­cais neste mo­mento tão com­plexo por que passa o Brasil? O que co­menta do fato de, após  afrou­xarem nas greves do ano pas­sado, uma ca­te­goria com menos tra­dição de or­ga­ni­zação e for­te­mente pau­tada por in­te­resses pa­tro­nais (mas não so­mente) con­se­guir em­pa­redar o go­verno?

Ema­nuel Can­cella: Penso que a greve dos ca­mi­nho­neiros foi como a dos pe­tro­leiros na dé­cada de 90. Em 1995 fi­zemos uma greve de 32 dias para barrar a pri­va­taria tu­cana, em es­pe­cial da Pe­tro­brás. Ti­vemos amplo apoio so­cial. Mas tenho cer­teza de que se fi­zés­semos uma greve antes dos ca­mi­nho­neiros apa­nha­ríamos muito da so­ci­e­dade, con­ta­mi­nada pelas di­fa­ma­ções e agres­sões à Pe­tro­brás or­ques­tradas por mídia e Lava Jato.

Com mais de 13 mi­lhões de de­sem­pre­gados, que greve será feita? Houve al­gumas iso­ladas e im­por­tantes, mas no geral os tra­ba­lha­dores estão muito fra­gi­li­zados, ainda mais de­pois da re­forma tra­ba­lhista. Porém, essa greve mos­trou que temos con­di­ções de re­sistir na luta. Foi uma sur­presa que vi­esse através dos ca­mi­nho­neiros, que de certa forma foram porta-vozes do golpe contra a Dilma. Não faço uma de­fesa de seus go­vernos, mas não se provou nada contra ela e em nome do com­bate à cor­rupção co­lo­caram no lugar os mai­ores cor­ruptos da his­tória do país.

Temos de con­versar, com cen­trais, com os tra­ba­lha­dores, porque não há nada re­sol­vido. Pre­ci­samos de elei­ções e temos de eleger al­guém do campo mais de­mo­crá­tico e po­pular, quem quer que seja, pois esses te­riam algum com­pro­misso em re­vogar a obra do Temer. Podem não gostar, mas in­clui a li­ber­dade de Lula con­correr, pois não dá pra manter al­guém preso sem prova al­guma.

Por­tanto, temos de apostar um pouco na mo­bi­li­zação elei­toral, pois se de­pender de gol­pista até isso pode ser des­car­tado.

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

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