CEbs: uma Igreja mais viva do que nunca

O tema do 14º In­te­re­cle­sial foi: CEBs e os de­sa­fios do mundo ur­bano e o lema: Eu vi e ouvi os cla­mores do meu povo e desci para li­bertá-lo (Ex 3, 7).

Por Frei Marcos Sassatelli

“As CEBs con­ti­nuam sendo um ‘sinal da vi­ta­li­dade da Igreja’ (Re­demp­toris Missio - RM 51). Os dis­cí­pulos e as dis­cí­pulas de Cristo nelas se reúnem na es­cuta e na par­tilha da Pa­lavra de Deus. Buscam re­la­ções mais fra­ternas, igua­li­tá­rias e in­clu­sivas. Su­peram a cul­tura ma­chista e o cle­ri­ca­lismo. Ce­le­bram os mis­té­rios cris­tãos e as­sumem o com­pro­misso de trans­for­mação da so­ci­e­dade e a de­fesa da cri­ação, a nossa casa comum”. (Carta do 14º In­te­re­cle­sial das CEBs)

Do dia 23 a 27 de ja­neiro do cor­rente ano, par­ti­cipei do 14º In­te­re­cle­sial das Co­mu­ni­dades Ecle­siais de Base (CEBs), em Lon­drina (PR). Do es­tado de Goiás e Dis­trito Fe­deral (Re­gi­onal Centro-Oeste da CNBB) éramos cerca de 150 de­le­gados e de­le­gadas, dos quais 35 da Ar­qui­di­o­cese de Goi­ânia. No total - vindos de todos os cantos do Brasil - éramos 3.300 de­le­gados e de­le­gadas. Havia também uma boa re­pre­sen­tação dos povos in­dí­genas e qui­lom­bolas. Par­ti­ci­param ainda do En­contro 60 bispos, di­versos pa­dres e diá­conos, re­li­gi­osos e re­li­gi­osas, re­pre­sen­tantes de ou­tras igrejas cristãs e de ou­tras re­li­giões, con­vi­dados de países da Amé­rica La­tina e da Eu­ropa (Ar­gen­tina, Pa­ra­guai, Mé­xico, Ale­manha, França e Itália) e mem­bros de Mo­vi­mentos Po­pu­lares.

interclesiallondrinaO tema do 14º In­te­re­cle­sial foi: “CEBs e os de­sa­fios do mundo ur­bano” e o lema: “Eu vi e ouvi os cla­mores do meu povo e desci para li­bertá-lo” (Ex 3, 7).

O En­contro foi um ver­da­deiro Pen­te­costes. Todos e todas que o vi­ven­ci­amos, ou­vimos - como um apelo muito forte - as pa­la­vras de Jesus, atu­a­li­zadas para nós hoje: fi­quem em Lon­drina. O Es­pí­rito Santo des­cerá sobre vocês e dele re­ce­berão força para serem mi­nhas tes­te­mu­nhas em Lon­drina, no Pa­raná, no Brasil e até os ex­tremos da terra (cf. At 1, 4 e 8).

Os dias do In­te­re­cle­sial foram de muita par­tilha, re­flexão e ce­le­bração. Par­ti­lhamos, re­fle­timos e ce­le­bramos a vida à luz do mis­tério pascal e o mis­tério pascal à luz da vida. Um des­taque es­pe­cial me­rece a Ce­le­bração dos Már­tires do Brasil e da Amé­rica La­tina, que foi re­al­mente emo­ci­o­nante.

Todos e todas, for­ta­le­cidos e for­ta­le­cidas com a ex­pe­ri­ência vi­vida, na “ale­gria do Evan­gelho” fomos en­vi­ados e en­vi­adas - como dis­cí­pulos mis­si­o­ná­rios e dis­cí­pulas mis­si­o­nárias - para con­ti­nuar a missão de Jesus de Na­zaré, fa­zendo acon­tecer - com a nossa pa­lavra e, so­bre­tudo, com o nosso tes­te­munho - a so­ci­e­dade do bem-viver e do bem-con­viver, que - à luz da fé - é a Boa No­tícia do Reino de Deus na his­tória do ser hu­mano e do mundo.

Es­cu­tamos os si­nais dos tempos e - dis­cer­nindo-os à luz da pa­lavra - ou­vimos os apelos de Deus para nós hoje.

“As mu­danças cul­tu­rais, os de­sa­fios e cla­mores da so­ci­e­dade glo­ba­li­zada e da cul­tura ur­bana, o des­monte das es­tru­turas de­mo­crá­ticas em nosso país, a perda dos di­reitos civis e so­ciais e a de­gra­dação da dig­ni­dade hu­mana e da cri­ação levam as CEBs a as­su­mirem os se­guintes com­pro­missos:

- trans­mitir às novas ge­ra­ções as ex­pe­ri­ên­cias e os va­lores das ge­ra­ções an­te­ri­ores;

- pro­mover a cul­tura da vida;

- tornar-se uma Igreja de Co­mu­ni­dades em rede, com novos mi­nis­té­rios, que in­clua a mu­lher em sua plena dig­ni­dade ecle­sial;

- in­cen­tivar o pro­ta­go­nismo das ju­ven­tudes e com­bater o seu ex­ter­mínio;

- apoiar as lutas dos povos in­dí­genas, da po­pu­lação negra e qui­lom­bola, dos pes­ca­dores ar­te­sa­nais, da po­pu­lação em si­tu­ação de rua, dos mi­grantes e re­fu­gi­ados, da po­pu­lação en­car­ce­rada, das cri­anças e dos idosos por ci­da­dania plena;

- co­brar po­lí­ticas pú­blicas de in­clusão so­cial, par­ti­cipar dos con­se­lhos de ci­da­dania, pro­mover a de­mo­cracia di­reta e par­ti­ci­pa­tiva e a au­to­de­ter­mi­nação dos povos;

- pro­mover prá­ticas de eco­nomia po­pular, so­li­dária e sus­ten­tável;

- re­a­firmar a vo­cação po­lí­tica dos cris­tãos e cristãs;

- for­ta­lecer a cam­panha pela au­di­toria da dí­vida pú­blica, da re­forma po­lí­tica e do con­trole sobre o poder ju­di­ciário.

Nunca po­demos nos es­quecer de que as co­mu­ni­dades cristãs nas­ceram no meio dos po­bres como um grito de es­pe­rança e lugar de re­la­ções igua­li­tá­rias e in­clu­sivas” (Carta do 14º In­te­re­cle­sial das CEBs).

Atu­al­mente - apesar da falta de apoio, da in­di­fe­rença, do de­sin­te­resse, de muitas Igrejas, apesar de serem, às vezes, sim­ples­mente to­le­radas ou até des­car­tadas por essas mesmas Igrejas e obri­gadas a vi­verem nas ca­ta­cumbas - as CEBs são uma Igreja mais viva do que nunca. Como acon­tecia com as pri­meiras co­mu­ni­dades cristãs, quando per­se­guidas, elas tornam-se mais fortes.

Na di­ver­si­dade de mi­nis­té­rios (ser­viços) e de ca­rismas (dons), na va­ri­e­dade de suas ex­pres­sões (mas com ele­mentos ecle­si­o­ló­gicos ca­rac­te­rís­ticos co­muns), as CEBs são “Igreja que nasce do Povo pela força do Es­pí­rito Santo”, são “Igreja pobre, para os po­bres, dos po­bres e com os po­bres”, são “Igreja em per­ma­nente saída”.

Na or­ga­ni­zação da Igreja, as CEBs não são um grupo ou mo­vi­mento entre muitos ou­tros. Elas são “o pri­meiro e fun­da­mental nú­cleo ecle­sial” ou “a cé­lula ini­cial da es­tru­tura ecle­sial” (Me­dellín XV, 10), e a Pa­ró­quia - re­no­vada e li­ber­ta­dora - é “um con­junto pas­toral uni­fi­cador das Co­mu­ni­dades de Base” (ib. XV, 13). Lu­temos para que esse ideal seja vi­vido e se torne, cada vez mais, re­a­li­dade!

O En­contro foi uma ex­pe­ri­ência de in­te­re­cle­si­a­li­dade e de ir­man­dade ines­que­cível. Para me­lhorar ainda mais os pró­ximos In­te­re­cle­siais das CEBs, per­mito-me dar duas su­ges­tões. Pri­meira: que - na pro­gra­mação dos In­te­re­cle­siais - haja mais es­paço e mais tempo para a es­cuta do povo, apren­dendo com sua sa­be­doria de vida e com sua vi­vência da fé.

“Em todos os ba­ti­zados(as), desde o pri­meiro ao úl­timo, atua a força san­ti­fi­ca­dora do Es­pí­rito que im­pele a evan­ge­lizar. O povo de Deus é santo em vir­tude desta unção, que o torna in­fa­lível ao crer (‘in cre­dendo’), não pode en­ganar-se, ainda que não en­contre pa­la­vras para ex­plicar a sua fé. O Es­pí­rito o guia na ver­dade e o conduz à sal­vação. Como parte do seu mis­tério de amor pela hu­ma­ni­dade, Deus con­cede a todos os fiéis o ins­tinto da fé (o ‘sensus fidei’) que os ajuda a dis­cernir o que vem re­al­mente de Deus.

A pre­sença do Es­pí­rito con­fere aos cris­tãos(ãs) uma certa co­na­tu­ra­li­dade com as re­a­li­dades di­vinas e uma sa­be­doria que lhes per­mite captá-las in­tui­ti­va­mente, em­bora não pos­suam os meios ade­quados para ex­pressá-las com pre­cisão. Em vir­tude do Ba­tismo re­ce­bido, cada membro do Povo de Deus tornou-se dis­cí­pulo mis­si­o­nário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos ba­ti­zados, in­de­pen­den­te­mente da pró­pria função na Igreja e do grau de ins­trução da sua fé, é su­jeito ativo de evan­ge­li­zação” (Papa Fran­cisco. A Ale­gria do Evan­gelho - EG, 119-120).

Se­gunda su­gestão: que, à luz do que Fran­cisco nos en­sina, os as­ses­sores e as­ses­soras sejam sempre pes­soas que par­ti­cipam in­te­gral­mente do In­te­re­cle­sial, que par­ti­lham sua vida com o povo, que aprendem com ele e que - a partir dessa ex­pe­ri­ência vi­ven­cial - con­tri­buem com seus co­nhe­ci­mentos na busca co­mu­ni­tária de novos ca­mi­nhos.

Por fim, co­mu­ni­camos que a ci­dade de Ron­do­nó­polis, no es­tado de Mato Grosso (Re­gi­onal Oeste II da CNBB), as­sumiu o com­pro­misso de se­diar, em 2022, o 15º In­te­re­cle­sial das CEBs. “Vem pra cá, vem pra cá, 15º Mato Grosso aco­lherá”.

“Lá vem, lá vem o trem das CEBs. Fa­zendo nossa his­tória sempre a evan­ge­lizar. O trem traz nossas lutas, nosso canto e nossa força. E a pró­xima pa­rada desse trem é o Mato Grosso”.

Somos Igreja de Jesus de Na­zaré! Somos Povo de Deus! Somos CEBs!

(Leiam, em www.​ceb​sdob​rasi​l.​com.​br, a ín­tegra da “Men­sagem do Papa Fran­cisco ao 14º In­te­re­cle­sial das CEBs”, a “Carta dos bispos pre­sentes no 14º In­te­re­cle­sial das CEBs”, a “Carta do 14º In­te­re­cle­sial das CEBs” e ou­tros es­critos muito in­te­res­santes sobre as CEBs).

Marcos Sas­sa­telli é Frade do­mi­ni­cano, doutor em Fi­lo­sofia (USP) e em Te­o­logia Moral, e pro­fessor apo­sen­tado de Fi­lo­sofia da UFG.

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