Colômbia: não apenas um, mas muitos são os conflitos

MISNA

Na Colômbia não há apenas um conflito, mas vários. Dois estão na base de todos os outros: o étnico e cultural, que começou com a conquista e continuou com a colonização e as várias invasões gerando atrito entre os "brancos" vencedores que ocuparam o Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário), e "índios" e "negros", derrotados e marginalizados. Um conflito de sociedades, culturas, padrões de desenvolvimento, em condições de grandes desigualdades.

O segundo é o conflito social, consequência de um modelo de desenvolvimento neoliberal capitalista, que transformou a Colômbia em um dos países mais desiguais do mundo, com um abismo entre ricos e pobres.
Estes dois conflitos, sobretudo o de nível social, estão na base dos vários conflitos armados que marcam a história da Colômbia e muitos outros países da América Latina.

Padre Antonio Bonanomi, há muitos anos missionário da Consolata na Colômbia, particularmente na área da Nasa indígena, na conturbada região do Cauca, nos oferece uma visão abrangente do país, que recentemente voltou a sentar-se para elaborar o processo de paz histórico entre o governo de Juan Manuel Santos e as Farc, iniciado em Havana no dia 19 de novembro.

"Durante vários séculos - o missionário escreveu - a Colômbia foi uma economia quase exclusivamente agrícola, com base nas grandes propriedades que estão nas mãos dos conquistadores e seus descendentes e, a partir de 1930, foi adicionada à economia industrial, localizada quase exclusivamente na cidade (com o consequente processo de expansão urbana). Nos últimos 20 anos, a economia explodiu com a instalação de indústrias extrativistas (petróleo, ouro, esmeraldas, urânio...) e com a emigração do capital estrangeiro, mediado por empresas multinacionais. Isso tem agravado o conflito social, porque força milhões de pessoas (principalmente indígenas e negros ou camponeses mestiços) a abandonar suas terras tradicionais, terras ricas em minerais que se tornaram o objeto de apetite egoísta e predatório das corporações multinacionais".

Em 1964 nasceram dois movimentos armados: "As FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo), constituído inicialmente - explica padre Bonanomi - por 40 agricultores que exigiam a posse de suas terras e que mais tarde, inspirado pela teoria marxista-leninista e a revolução da URSS, se transformou no sonho de constituir um Estado comunista através da luta armada. E o ELN (Exército de Libertação Nacional), promovido por alguns professores e estudantes universitários (inclusive católicos), que, inspirados pela revolução de Fidel Castro em Cuba, em 1959, queriam uma mudança do modelo de Estado e desenvolvimento". Em torno destes dois movimentos nasceram muitos grupos armados revolucionários (EPL, M19, Prt, Quintin Lame...), a maioria dos quais chegaram a acordos de paz com o Estado no início dos anos 90.

"Em resposta a esses movimentos revolucionários armados, e em apoio ao modelo de desenvolvimento capitalista neoliberal, o Estado colombiano, com a ajuda decisiva dos Estados Unidos, tem vindo a reforçar progressivamente as suas forças armadas e a polícia, e criou ou apoiou a criação de grupos armados antirrevolucionários e de autodefesa (AUC, Autodefesas Unidas da Colômbia) ou paramilitares. O presidente anterior - Álvaro Uribe, no poder de 2002 a 2010 - tinha promovido a criação de grupos de AUC, mas foi finalmente convocado para o diálogo do qual resultou a desmilitarização de cerca de 30.000 combatentes".

No fundo, continua o missionário, "nos últimos 40 anos veio o fenômeno de explosão do tráfico de drogas que invadiu todas as estruturas, transformando o Estado numa cultura mafiosa que se espalhou, sob formas de apoio mútuo, nos diferentes movimentos armados revolucionários e contrarrevolucionários. Após a desmobilização das AUC, formaram-se novos grupos armados a serviço do tráfico de drogas ou de investimentos estrangeiros ligados a empresas multinacionais. É por isso que na Colômbia, há conflitos, muitos dos quais são apresentados como conflitos armados. As FARC-EP é um, mas não é o único".

Fonte: www.misna.org

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