Transporte público de má qualidade estimula uso de carro

Felipe Amaral

Hoje um dos males da civilização moderna, mais precisamente das regiões metropolitanas e grandes cidades, é o uso intensivo de automóveis. Seja pelos congestionamentos, que param as cidades trazendo transtornos para todos; seja pela saúde humana, visto que os contaminantes da queima de combustíveis afetam os pulmões, principalmente de crianças e idosos - sem mencionar o elevado número de mortes por acidentes - seja também pela alta contribuição ao aquecimento global. Mas as cidades são dos automóveis. Grandes metrópoles, como São Paulo, estão à beira de um colapso rodoviário; basta um veículo quebrado, que a cidade pára. Hoje São Paulo coloca 800 carros na frota por dia, isto significa que a cada dia saem das concessionárias e vão para as ruas, 800 veículos.

Mas qual a alternativa ao transporte individual “automorizado”? Somente algum desavisado poderia imaginar que o transporte coletivo rodoviário seria a solução. Somente quem não depende de ônibus propõe como solução para a população o uso de ônibus. Basta subir em qualquer ônibus, e me desculpem, pois vou dar o exemplo da Porto Alegre, onde moro. Basta subir em qualquer ônibus para se ter uma idéia do que seria uma viagem ao inferno.

Um caminhão boiadeiro seria mais confortável e agradável. Na boléia, cheia de trabalhadores, se espremem mulheres, crianças e idosos, numa viagem que dura no mínimo o dobro de tempo. De tão apertado, nestes dias de calor é muito comum pessoas desmaiarem, passando mal, além de constante troca de fluidos corporais. Sim, durante a viajem a pressão é tanta que as pessoas ficam se esfregando umas nas outras, uma interação de por inveja a o Deus Baco, aquele do vinho e das orgias, um interação digna daquelas casas de encontros íntimos. Brincadeiras a parte, isto é uma vergonha e uma situação constrangedora e desumana.

Quem controla estas empresas de ônibus? Aqui em Porto Alegre o cartel instituído no transporte público tem a passagem no valor de dois reais e trinta centavos; isto significa que o trabalhador desembolsa mensalmente, para ir e vir do trabalho, cerca de cento e dez reais mensais, isto se somente com uma viagem chegar ao destino final. Também não podemos deixar de falar dos horários e itinerários, que são estipulados ao bel prazer das empresas.

O ônibus depois que deixa a garagem adquire vida própria, conduzido por um motorista, mal pago, na maior a das vezes, mal humorado e mal educado, e um cobrador, também mal pago e mal informado, que não consegue passar uma informação precisa para qualquer turista ou passageiro, e que vive na pressão porque está prestes a perder seu emprego, substituído por uma catraca eletrônica.

Recentemente a prefeitura de Porto Alegre assinou um convênio de cooperação técnica com a Corporação Andina de Fomento (CAF), que destinará US$ 1 milhão para qualificação do projeto Portais da Cidade. O custo total da implantação do projeto está estimado em US$ 210 milhões. Pelo projeto, os ônibus procedentes dos bairros e Região Metropolitana chegarão aos portais e os passageiros farão conexões a 18 terminais na região Central, por meio de uma linha especial que circulará por corredores exclusivos. Segundo o prefeito José Fogaça a obra é uma das ações estratégicas que atendem às exigências da Fifa para a realização da Copa do Mundo de 2014 na Capital.

Mas antes de qualquer investimento milionário, penso que algumas melhorias “mais modestas” poderiam ser implementadas para atender a população, como mais linhas, mais horários disponíveis, treinamento e capacitação para os profissionais, bem como melhoria salarial - além de estipular e cumprir um limite para passageiros em pé. Hoje cada vez que pego um ônibus, e uso freqüentemente por não ter automóvel, penso no perigo iminente de um acidente; penso naquelas pessoas humilhadas e ultrajadas voltando para casa; penso nos empresários donos das empresas, gastando seus lucros do serviço pobre que prestam à sociedade. Mas penso muito como deve ser a vida de boi apertado na boléia do caminhão a caminho do matador e penso novamente naquelas pessoas junto comigo.

Felipe Amaral
é ecólogo e integrante do Instituto Biofilia (http#//www.institutobiofilia.org)

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