Pilatos, Bolsonaro e Lula

Equivocaram-se os cristãos que contestaram a validade da eleição de Lula, sem apresentar nenhuma prova de fraude eleitoral.

Por Edson Luiz Sampel

Conhecidíssimo o breve diálogo que Jesus entabulara com Pôncio Pilatos, articulado em latim, segundo insinua a maravilhosa película de Mel Gibson. Em dado momento, o governador romano, caudilho que César impôs aos judeus, pergunta a Cristo: “Não sabes que eu tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?” (Jo 19, 10). E ouve a seguinte resposta: “Não terias poder algum sobre mim, se não te houvesse sido dado do Alto” (...) (Jo 19, 11).

lulabolsonaroA doutrina cristã de que o poder civil advém de Deus não fere o ideário democrático, porquanto as principais autoridades governativas são eleitas pelo povo. Deus costuma se utilizar das mediações humanas. A propósito, explica São Paulo: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13, 1-2).

Posto isto, o governo exercido por Bolsonaro e o governo que Lula começa a exercer são dignos da benevolência religiosa! Ora, se a governança de Pilatos, a cargo do lugar-tenente de um déspota (o imperador), opressora do povo hebreu, mutiladora de todos os direitos, goza do reconhecimento de Cristo, até mesmo certas ditaduras hodiernas, malgrado seus inúmeros erros, podem, ainda, contar com a legitimidade divina, uma vez que “Deus não permitiria o mal, se não pudesse tirar desse mal um bem infinitamente maior” (Santo Agostinho).

Assim, equivocaram-se os cristãos que contestaram a validade da eleição de Lula, sem apresentar nenhuma prova de fraude eleitoral. Agiram de encontro ao desiderato de Deus, que outorga tal poder ao supremo mandatário, conforme o ensinamento do divino mestre visto acima. Quem não quer se submeter às autoridades constituídas pode estar pecando, de acordo com a explicação de São Paulo, também vista acima.

Bem, ano-novo! Gostaria de chamar a atenção de todos os cristãos para que religiosamente, isto é, por amor a Deus, confiem na administração federal ora incoada, concedendo-lhe um voto de credibilidade. Mais! Vamos esquecer as mágoas, os rancores e ódios, cambiando tais sentimentos por júbilos e amores cívicos. Cristãos, envidemos esforços em prol da construção de um Brasil fraterno e justo, sem famintos, onde haja vida abundante para todos (Jo 10, 10)!

Edson Luiz Sampel é Presidente da Comissão Especial de Direito Canônico da 116ª Subseção da OAB-SP
Professor do Instituto Superior de Direito Canônico de Londrina

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