Leonardo Boff analisa eleição de Lula

Para o teólogo, a mensagem das urnas revela que não se pode construir uma sociedade de mentiras, que quebra o contrato social e há um desejo de construção de um Brasil mais fraterno.

Por João Vitor Santos e Wagner Fernandes de Azevedo

"Como todo ultraconservador e de viés fascista, Bolsonaro colocou sempre os valores tradicionais no centro, como a família tradicional, a propriedade privada, a pátria e a religião”, aponta Leonardo Boff. Mesmo tendo um país dividido, as urnas emitem uma clara e objetiva mensagem: “Não se pode construir uma sociedade sobre mentiras, fake news, calúnias e desobediência ao contrato social expresso pela Constituição e pelas leis”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Boff reflete mais sobre o conservadorismo e as resistências a modos de vistas mais justos, igualitários e fraternos. Também pontua a evolução do pensamento de Lula, que conseguiu apreender esse desejo social e capitaneou uma ampla aliança em prol das transformações emergentes. É o caso do pensamento ambiental e da clareza da crise climática, áreas em que a compreensão do petista está muito mais madura do que foi nos seus governos anteriores. “Lula cresceu muito nesta consciência pelos estudos que fez enquanto estava preso e pelo diálogo com especialistas sobre o estado da Terra”, enfatiza.

leonardoboff1A prisão de Lula, segundo Boff, serviu para um amadurecimento em diversos sentidos, inclusive sobre a crise brasileira. Tal amadurecimento resulta no chamado governo do cuidado, dito pelo presidente eleito tantas vezes em campanha e com ênfase nas comemorações da vitória, na noite de 31 de outubro, em São Paulo. “Lula sempre evitou a expressão ‘governar um povo’. Prefere, na esteira de Gandhi, o termo ‘cuidar’, que é um gesto generoso para com o povo e os bens comuns. Como sabemos, o cuidado é da essência de todos os seres vivos, especialmente dos humanos. Se não forem cuidados, as relações se enrijecem, tornam-se burocráticas e as pessoas viram meros números”, avalia o teólogo.

Leonardo Boff é doutor em Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os franciscanos em Petrópolis e professor de ética, filosofia da religião e ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Entre seus livros publicados, destacamos Ecologia: grito da Terra, grito do pobre (Vozes, 1995), Evangelho do Cristo cósmico (Record, 2008) e Saber cuidar (Petrópolis: Vozes, 2014), além de Reflexões de um velho teólogo e pensador (Vozes, 2018). Mais recentemente, sobre a temática ambiental, publicou O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social (Vozes, 2021).

Confira a entrevista.
IHU – Que mensagem o resultado das urnas na eleição de 31 de outubro deu ao Brasil?

Leonardo Boff – A mensagem é: não se pode construir uma sociedade sobre mentiras, fake news, calúnias e desobediência ao contrato social expresso pela Constituição e pelas leis. Os cidadãos entenderam isso e derrotaram o ultradireitista Jair Bolsonaro.

IHU – Que Lula é esse que chega, pela terceira vez, à presidência da República?

Leonardo Boff – Os 580 dias de prisão injusta lhe criaram as condições de pensar e repensar seu passado, os acertos e erros e estudar a fundo os vários ângulos da realidade brasileira. Saiu mais sábio e, também, mais humano e espiritual.

IHU – Essas eleições se pautaram muito no discurso da igualdade, pela esquerda, e da liberdade, pela direita. Qual igualdade e qual liberdade estão em jogo no Brasil?

Leonardo Boff – Ambos os valores pertencem à democracia. A igualdade para os grupos progressistas significa respeitar todas as diferenças e reconhecer-lhes o direito de existir. A liberdade para os grupos mais conservadores é poder expressar tudo o que lhes passa pela cabeça, como ofender pessoas e utilizar fake news.

IHU – O Papa Francisco insiste na necessidade de recuperar o outro valor dos pilares da modernidade: a fraternidade. Discursiva e programaticamente, seria a fraternidade o principal pilar a ser (re)construído pelo governo Lula?

Leonardo Boff – A fraternidade é o grande sonho do Papa Francisco proposto na Fratelli tutti: fraternidade com todos os seres da criação por virem todos do mesmo barro, do mesmo ato amoroso de Deus e por, cientificamente, todos possuírem o mesmo código genético de base. Ela nos coloca, todos juntos, no mesmo chão e com relações ternas e respeitosas.

IHU – Qual o papel das religiões, instituições, na (re)construção da fraternidade? E como devem se portar com o poder institucional do Estado?

Leonardo Boff – Todas as religiões professam a mesma dignidade da pessoa humana, como foi visto nos vários encontros internacionais entre as várias religiões. Isso significa que somos todos irmãos e irmãs. Ao Estado, cabe criar as condições sociais, políticas, culturais e espirituais para que a fraternidade seja vivida e não se transforme em mera retórica.

IHU – Como o senhor responde àquelas pessoas que se dizem enlutadas pelo resultado da eleição? O que parecem não compreender e como podemos estabelecer diálogos com elas?

Leonardo Boff – Dentro de um regime democrático, deve ser respeitado o resultado do voto, expressão da vontade do povo. Há quem ganhou o favor da maioria dos votos e se alegra com isso. Quem não teve essa chance deve saber que isso pertence ao jogo político. Só se sentem enlutadas as pessoas que esperavam uma vitória certa e não se conformam com o fato de não terem tido a vitória eleitoral. Colocam-se à margem de um Estado democrático de direito.

IHU – No discurso da vitória, Lula declarou que criará um ministério indígena e que revogará todas as ações de ataques ao meio ambiente. Mas o que deve animar essa política ambiental do novo governo? Como evitar que se incorra em outros erros de governos petistas passados?

Leonardo Boff – Entre nós e no mundo, cresceram a consciência ecológica e as ameaças que pesam sobre a vida, inclusive sua extinção, seja porque a Terra, planeta limitado que não suporta um projeto de crescimento ilimitado e pode colapsar, ou seja pelo novo regime climático que, se não diminuirmos os gases do efeito estufa, tornará nossa vida insuportável sobre a Terra. Lula cresceu muito nesta consciência pelos estudos que fez enquanto estava preso e pelo diálogo com especialistas sobre o estado da Terra.

Os povos originários estão ameaçados de extinção pelo avanço de um tipo de desenvolvimento depredador que não respeita suas terras e culturas. Um ministério reconhecerá a legitimidade de sua existência como os primeiros a ocupar estas terras que devem ser delimitadas e protegidas. Eles são nossos mestres na relação harmoniosa com a natureza.

IHU – Lula também falou em governar com prioridade aos pobres, que devem ser cuidados para além das políticas de proteção assistencial. Nesse sentido, os princípios da Economia de Francisco e Clara de Assis podem ter interlocução no governo?

Leonardo Boff – Lula é um sobrevivente da fome. Por isso tomou, em seus dois mandatos, o compromisso de dar centralidade aos pobres com políticas sociais que cobrissem suas necessidades não apenas de sobrevivência, mas também de cidadania, inclusão e participação de todos os bens culturais, como o acesso ao nível superior. Esta é a principal missão de um Estado, a de garantir a vida de seus cidadãos e cidadãs. Ele renovou esse propósito que está na tradição dos profetas e da prática do Jesus histórico.

IHU – Como podemos compreender o conservadorismo dentro da Igreja Católica, em grande parte agora aderido ao bolsonarismo?

Leonardo Boff – Em geral, a sociedade brasileira é conservadora. O conservadorismo é consequência do regime colonial e, especialmente, do escravagismo que obrigava todos a se submeterem forçosamente ao senhor da Casa Grande e a seus valores e costumes que visavam manter seu poder e hegemonia. Esse conservadorismo entranhado na cultura ganhou corpo na pessoa de Jair Bolsonaro. Como todo ultraconservador e de viés fascista, Bolsonaro colocou sempre os valores tradicionais no centro como a família tradicional, a propriedade privada, a pátria e a religião. Entende estes valores como engessados e fora da evolução da sociedade.

Há grupos católicos que são conservadores na doutrina, na liturgia, no pensamento e nestes valores, pensando o cristianismo não como uma fonte de água viva, mas como uma cisterna de águas mortas. Tendem a apoiar governos que defendem esse tipo conservador na interpretação da sociedade. Isso se encontra nas várias igrejas cristãs, católicas ou não católicas.

IHU – Na noite do dia 31 e em toda a campanha, Lula falou que as pessoas precisam ser cuidadas e podemos relacionar isso ao desespero de muitos, problemas de saúde mental em pessoas de todas as idades e uma onda de desesperança. Diante disso, não seria esse o momento de se reeditar um trabalho de base?

Leonardo Boff – Lula sempre evitou a expressão “governar um povo”. Prefere, na esteira de Gandhi, o termo ‘cuidar’, que é um gesto generoso para com o povo e os bens comuns. Como sabemos, o cuidado é da essência de todos os seres vivos, especialmente dos humanos. Se não forem cuidados, as relações se enrijecem, tornam-se burocráticas e as pessoas viram meros números. As igrejas devem seguir o exemplo de Jesus, que sempre cultivou o cuidado para com os pobres, os famintos, os doentes e todos os que se sentiam marginalizados. É sua contribuição civilizatória à humanização das relações entre as pessoas e as instituições.

IHU – Nessa semana, também fazemos memória àqueles que já se foram. A partir do que temos vivido, que mensagem o senhor pode nos deixar acerca da vida e da morte?

Leonardo Boff – A primeira coisa que a sociedade e o Estado deveriam fazer seria uma grande celebração em memória das mais de 600 mil vítimas da covid-19. Isso é um dever para com aquelas que, devido à omissão dos governantes, não foram atendidos a tempo com as vacinas ou foram tratados com medicamentos sem efeito medicinal. Será, também, um ato de consolo e de afeto às famílias e grupos que perderam entes queridos, quando poderiam ter sido salvos. A nação dos vivos deve se reconciliar com a nação dos mortos.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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