Um Brasil de Bolsonaro será quebrado economicamente, isolado no mundo, exaurido e ensanguentado,

O que está por trás dessa enorme tru­cu­lência es­pe­lhada no atual Con­gresso e na cam­panha Bol­so­naro é o pâ­nico di­ante do cres­ci­mento de uma enorme po­pu­lação de tra­ba­lha­dores to­tal­mente des­pro­vidos de di­reitos.

Por Gabriel Brito

Por fora de qual­quer prog­nós­tico, o can­di­dato ne­o­fas­cista Jair Bol­so­naro quase levou a eleição no pri­meiro turno. En­quanto todos aqueles que têm oje­riza a suas ideias e prin­cí­pios, e as agres­sões de seus apoi­a­dores se mul­ti­plicam pelo país, se or­ga­nizam para der­rotá-lo no se­gundo turno, notam-se ten­sões entre se­tores da elite econô­mica bra­si­leira, his­to­ri­ca­mente le­ni­entes com a vi­o­lência de es­tado. Para ana­lisar o dra­má­tico mo­mento, o Cor­reio da Ci­da­dania pu­blica longa en­tre­vista com a his­to­ri­a­dora Vir­gínia Fontes.

bolsonarohadddadO re­sumo é que o go­verno Haddad não per­mite ilu­sões, mas ao menos lutar contra as de­cep­ções. "Apren­demos desde 2013 que nin­guém lu­tará em nosso lugar. Somos nós, co­le­ti­va­mente, que te­remos de en­frentar os mons­tros que saíram do abismo. Vo­ta­remos no nú­mero 13 contra o terror. Mas a con­vo­cação é, so­bre­tudo, para a re­to­mada das or­ga­ni­za­ções das classes tra­ba­lha­doras e dos mo­vi­mentos po­pu­lares. Elei­ções são um mo­mento. Há ur­gência aqui e agora. As mi­lí­cias nas ruas con­tro­lando nossos passos e pen­sa­mentos são a an­tes­sala de um horror ainda mais dra­má­tico”, re­sumiu

Há anos dis­tan­ciada das fi­leiras de um par­tido que ficou to­tal­mente atre­lado à fi­gura de uma li­de­rança hoje fora do jogo, Vir­gínia, au­tora de Brasil e ca­pital-im­pe­ri­a­lismo: te­oria e his­tória é en­fá­tica em dizer que a der­rota da chapa-mi­litar é con­dição ine­go­ciável a todos que querem con­ti­nuar a ter di­reito à ci­da­dania. E sobre a cam­panha de Bol­so­naro, afirma que há inú­meras mãos in­vi­sí­veis a in­vestir num pre­si­dente que ga­ran­tiria o ter­ro­rismo de Es­tado e a li­qui­dação de todos os di­reitos so­ciais e uni­ver­sais.

So­lu­ções to­ta­li­tá­rias com ame­aças de ex­ter­mínio da es­querda não re­sultam da efi­ci­ência ou ine­fi­ci­ência do PT. O que está por trás dessa enorme tru­cu­lência es­pe­lhada no atual Con­gresso e na cam­panha Bol­so­naro é o pâ­nico di­ante do cres­ci­mento de uma enorme po­pu­lação de tra­ba­lha­dores to­tal­mente des­pro­vidos de di­reitos. São ter­cei­ri­zados, fle­xi­bi­li­zados, nano-‘em­pre­en­de­dores’ em­pur­rados para as pe­ri­fe­rias, onde já vivem sob a vi­o­lência. Essa gente, em breve, exi­girá seus di­reitos. Por isso, pre­cisam de um Con­gresso capaz de tornar letra-morta as leis exis­tentes, como Temer fez e Bol­so­naro pro­mete pi­orar; por isso pre­cisam de um Ju­di­ciário cujos in­te­grantes ga­nhem como se fossem em­pre­sá­rios, para pensar como eles”, ana­lisou.

No en­tanto, não há es­paço para ilu­sões num go­verno Haddad em tempos de crise es­tru­tural de um ca­pi­ta­lismo que não con­segue re­novar seus ci­clos sem abusar dos tra­ba­lha­dores(as) e dos re­cursos na­tu­rais. O que as elei­ções podem co­locar em jogo é o sim­ples di­reito de dis­cutir e agir em prol de um pro­jeto que não seja o to­ta­li­ta­rismo hí­brido de Es­tado e mer­cado.

“A ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade bur­guesa, sob o ca­pi­ta­lismo, é cada dia mais an­ti­de­mo­crá­tica, man­tendo en­tre­tanto um viés legal. Os in­te­resses da grande pro­pri­e­dade ca­pi­ta­lista estão sendo cons­ti­tu­ci­o­na­li­zados, em de­tri­mento dos in­te­resses das po­pu­la­ções tra­ba­lha­doras. As lutas das massas tra­ba­lha­doras pre­cisam re­sultar em con­quistas ins­ti­tu­ci­o­nais, uma vez que delas de­pende a pró­pria sub­sis­tência de mi­lhões de pes­soas. Mas pre­cisam saber que ao se man­terem uni­ca­mente nesse viés, perdem ca­pa­ci­dade de or­ga­ni­zação e for­mu­lação e re­duzem sua pró­pria ca­pa­ci­dade de luta. Au­to­nomia de classe e au­tos­sus­ten­tação são con­di­ções fun­da­men­tais para as lutas dos tra­ba­lha­dores. Aliás, é assim que agem as classes do­mi­nantes”, ex­plicou.

A en­tre­vista com­pleta com Vir­gínia Fontes pode ser lida a se­guir.

Aula-Inaugural-da-APG-Foto-Henrique-Almeida-12Cor­reio da Ci­da­dania: Como você re­cebeu o re­sul­tado geral das elei­ções deste do­mingo? Como ex­plicar a as­censão de Jair Bol­so­naro, que subiu mais de 20 pontos per­cen­tuais na úl­tima se­mana?

Vir­gínia Fontes: Re­cebi o re­sul­tado com enorme tris­teza. E, como muitos ou­tros e prin­ci­pal­mente ou­tras, fi­quei com muito medo. Medo de bandos que andam pelas ruas agre­dindo de quem dis­cordam. Medo de novas mi­lí­cias, que já des­gra­çavam a vida em nossas ca­pi­tais, mas que agora se es­pa­lham por ou­tros bairros das ci­dades, ame­a­çando bater e matar os que dis­cordam deles. Quem são essas pes­soas? O que farão se seu ‘chefe’ chegar ao go­verno? Vi­o­len­tarão mu­lheres, agre­dirão cri­anças, apenas por que elas de­fendem a jus­tiça? Ata­carão nossos jo­vens, apenas por pro­nun­ci­arem al­guma pa­lavra que não gostem? Proi­birão mães de ama­mentar seus fi­lhos, como fi­zeram no Rio de Ja­neiro, di­zendo que isso é uma ‘pu­taria’? Con­tro­larão nossas vidas, pois seus chefes com­pram mi­li­o­ná­rios sis­temas ele­trô­nicos que in­vadem nossos te­le­fones e nossos e-mails, es­pa­lhando ame­aças de todos os tipos, in­clu­sive de mortes? O que isso sig­ni­fica?

Não é essa a vida que que­remos.

O medo é o sen­ti­mento mais an­gus­ti­ante para o ser hu­mano, mas é também um im­por­tan­tís­simo sinal de alerta. É pre­ciso agir, é pre­ciso en­frentar essas ame­aças. Elas são um sinal grave de des­com­pro­misso com a pró­pria hu­ma­ni­dade.

Como ex­plicar essa as­censão? As pes­quisas de opi­nião as­si­na­lavam que Bol­so­naro tinha a di­an­teira no pri­meiro turno. Mas não ima­ginei que ocor­reria uma su­bida de tais pro­por­ções. A meu juízo, a pri­meiro razão é que Bol­so­naro se apre­senta fal­sa­mente como se fosse uma rup­tura com “tudo o que está aí”, quando na ver­dade é a con­ti­nui­dade ter­ri­vel­mente pi­o­rada do des­go­verno Temer. Isso pre­cisa ser dito e de­mons­trado todo o tempo, pois os elei­tores querem mu­dança. E têm razão de querer mu­dança. Mas pre­cisam saber que a cam­panha Bol­so­naro é um prato re­quen­tado e meio azedo, tem­pe­rado com agro­tó­xicos, fer­men­tado sob o des­go­verno Temer.

Uma se­gunda razão é que al­guns acre­ditam que, afinal, ‘não faz di­fe­rença’. Faz sim! Há uma téc­nica ex­plí­cita de ame­dron­ta­mento em curso. Para além da per­se­guição no what­sapp e no fa­ce­book, al­gumas en­ti­dades em­pre­sa­riais, es­pe­ci­al­mente aquelas li­gadas ao agro­ne­gócio e ao co­mércio, fazem chan­tagem com seus em­pre­gados, ame­a­çando de­miti-los e ou­tras coisas do mesmo es­tilo, caso não votem em Bol­so­naro. Fazem reu­niões, im­põem roupas es­pe­ciais de cam­panha, in­vadem caixas pos­tais etc.

A Jus­tiça e a grande mídia evitam en­xergar o que a grande im­prensa in­ter­na­ci­onal já grita, apa­vo­rada com o que estão vendo aqui: uma can­di­da­tura cer­cada de bandos ar­mados, que apregoa a vi­o­lência, é um risco para toda a hu­ma­ni­dade. Não pode ser tra­tada como uma ‘can­di­da­tura’ normal.

Cor­reio da Ci­da­dania: Po­demos con­si­derar nor­mais os ele­mentos que cons­ti­tuem e fi­nan­ciam a cam­panha da chapa mi­litar Bol­so­naro-Mourão?

Vir­gínia Fontes: Tudo é es­tar­re­cedor nessa cam­panha. Ainda não temos os dados pre­cisos dos fi­nan­ci­a­mentos ofi­ciais da cam­panha, mas já é evi­dente que muita coisa está sendo oculta, a co­meçar pelo custo da mídia e das redes so­ciais. Trata-se de pro­gramas de com­pu­tação para serem re­pli­cados em redes so­ciais. Estes pro­gramas in­ves­tigam a vida das pes­soas através de suas com­pras em cartão, dos dados de lo­jistas, dos termos usados nos e-mails e das con­sultas na in­ternet.

Ana­lisam os dados e mandam men­sa­gens in­di­vi­du­a­li­zadas de di­fe­rentes tipos: para as que têm medo, pro­metem pro­teção; para as que são ‘des­co­ladas’ mandam men­sa­gens ‘en­gra­çadas’; para os que têm opi­niões di­fe­rentes, mandam men­sa­gens ame­a­ça­doras ou por­no­grá­ficas. Também podem usar ‘en­de­reços de in­ternet’ falsos, e dis­parar en­xur­radas de men­sa­gens. Esse tipo de cam­panha custa ca­rís­simo, pois a mi­ne­ração dos dados é cus­tosa e a pro­gra­mação de má­quinas de res­posta que usam e-mails e fotos apa­ren­te­mente ver­da­deiros também é cara.

Há muitas má­quinas agindo a partir cen­trais im­plan­tadas fora do Brasil. Isso ocorreu no caso Trump e na In­gla­terra, e gerou pro­cessos im­por­tantes contra a Analy­tica, em­presa que dis­po­ni­bi­lizou tal ‘guerra de redes’, assim como contra o Fa­ce­book, que for­neceu dados in­di­vi­duais. Essa em­presa está im­plan­tada também no Brasil. Edu­ardo Bol­so­naro se en­con­trou com Steve Bannon, mul­ti­mi­li­o­nário es­ta­du­ni­dense, que foi chefe da cam­panha de Trump nos EUA, e disse: “Bannon se co­locou à dis­po­sição para ajudar”, disse Edu­ardo Bol­so­naro, em agosto (de 2018). “Isso, ob­vi­a­mente, não in­clui nada de fi­nan­ceiro. A gente deixou isso bem claro, tanto eu quanto ele. O su­porte é dica de in­ternet, de re­pente uma aná­lise, in­ter­pretar dados, essas coisas” https://​www.​nex​ojor​nal.​com.​br/​exp​ress​o/​2018/​10/​03/​A-​relação-de-Bol­so­naro-com-a-ex­trema-di­reita-in­ter­na­ci­onal, acesso 09/10/2018)

Como se vê, re­cebem ‘su­porte’ in­for­má­tico. Bol­so­naro mantém ainda es­treitas ali­anças com grupos aber­ta­mente apoi­ados por em­pre­sá­rios dos EUA, como o MBL, que não tem pejo de en­ver­go­nhar a ban­deira bra­si­leira com pro­pa­ganda em in­glês e com di­nheiro do es­tran­geiro, di­vul­gando ví­deos de ex­tre­mada vi­o­lência. Sem falar de jogo em vídeo apa­vo­rante, de­nun­ciado in­clu­sive em ma­téria d’O Es­tado de São Paulo.

O mais im­pres­si­o­nante é a fal­si­fi­cação in­sis­tente da ver­dade. Bol­so­naro é can­di­dato da con­ti­nui­dade da tra­gédia econô­mica apro­fun­dada por Mi­chel Temer. Bol­so­naro pro­meteu que “nada do que foi apro­vado pelo go­verno Temer será des­feito”, em reu­niões com em­pre­sá­rios.

O Major Olímpio, que levou mi­lhões de votos em São Paulo, foi ma­téria na re­vista Piauí por ter em­presas de se­gu­rança, dis­far­çadas em nome de fa­mi­li­ares, pois a lei im­pedia que fosse o pro­pri­e­tário. Também men­ciona que não pagou os im­postos dessas em­presas. A questão da cor­rupção é grave no país. E o grupo de Bol­so­naro reúne os ele­mentos para per­mitir que ela fique onde sempre ficou. Com os de cima de­so­be­de­cendo as leis quando lhes in­te­ressa. Com os de baixo sem di­reitos.

Com cer­teza, há mi­li­tares e em­pre­sá­rios cor­retos. Al­guns vêm se pro­nun­ci­ando pu­bli­ca­mente. Muito poucos, en­tre­tanto. Todos es­tamos vi­vendo as con­sequên­cias do des­go­verno Temer e pre­ci­samos en­frentar de ca­beça er­guida as di­fi­cul­dades do mo­mento, que são gra­vís­simas. A vida po­lí­tica em de­mo­cra­cias, mesmo se blin­dadas, é uma cons­trução per­ma­nente. Bol­so­naro não me­lho­rará a vida da nação, como não o fez Temer. Ao con­trário, a dei­xará que­brada eco­no­mi­ca­mente, iso­lada no mundo, exau­rida e en­san­guen­tada.

Cor­reio da Ci­da­dania: Acre­dita na re­versão de sua van­tagem no se­gundo turno?

Vir­gínia Fontes: Tenho cer­teza de que a mai­oria da po­pu­lação en­fren­tará o medo e virá para as urnas der­rotar o risco que Bol­so­naro e seus se­gui­dores re­pre­sentam. O que vemos agora, nessas elei­ções, é bem mais grave e dra­má­tico do que mera po­la­ri­zação. É a de­fesa do ex­ter­mínio e da li­qui­dação de opo­nentes, fí­sica e in­te­lec­tu­al­mente. Os ví­deos e as cam­pa­nhas de Bol­so­naro vei­cu­ladas pelas redes so­ciais pregam es­pan­ca­mentos, as­sas­si­natos e hu­mi­lhação de todos aqueles que eles dis­cordam e que de­finem como ini­migos. Apenas por dis­cordar. Não há nem mesmo ra­zões ou ar­gu­mentos, e apenas votar em outro can­di­dato pode ser mo­tivo de agressão. Essa vi­o­lência já está nas ruas. Bol­so­naro so­freu um ataque ho­mi­cida. O agressor está preso. Os apoi­a­dores de Bol­so­naro rondam as ruas, muitos deles ar­mados, ar­vo­rando-se em mi­lí­cias do pen­sa­mento. Soltos e cir­cu­lando.

Quando a ex­pressão do pen­sa­mento é in­ter­di­tada, quando pensar di­fe­rente pode ser razão de as­sas­si­nato, es­tamos di­ante de crimes contra a hu­ma­ni­dade. O des­go­verno Temer já mos­trou o que isso sig­ni­fica, com o si­lêncio sobre a exe­cução de Ma­ri­elle Franco e de An­derson Gomes e com a des­me­dida ocu­pação mi­litar no Rio de Ja­neiro.

Muita gente votou em Bol­so­naro por estar de ‘saco cheio’ de” tudo isso que está aí”. Pela mesma razão, muitos nem foram votar. Também estou de saco de cheio de tudo isso que está aí, e quero mu­danças ur­gentes. Des­gra­ça­da­mente, Bol­so­naro é a con­ti­nu­ação pi­o­rada de tudo isso que está aí. Com mais vi­o­lência e bru­ta­li­dade contra os de baixo e com mais sub­ser­vi­ência com os de cima.

Aqueles que hoje apoiam Bol­so­naro podem tornar-se amanhã seus alvos de ataque. Nin­guém está a salvo. Não é uma razão pe­quena. Pre­ci­samos virar esse jogo brutal, antes que atinja a todos e, prin­ci­pal­mente, a todas.

Cor­reio da Ci­da­dania: Haddad é o me­lhor opo­nente ao de­pu­tado de obs­cura car­reira par­la­mentar neste se­gundo turno? O que dizer da in­fluência de Lula nessas elei­ções e no ce­nário po­lí­tico na­ci­onal?

Vir­gínia Fontes: Sou so­ci­a­lista com muito or­gulho, e o PT não cor­res­pondeu às mi­nhas ex­pec­ta­tivas, por di­versas ra­zões. Fui e sou aci­da­mente crí­tica de seus go­vernos desde a pri­meira hora. Há muita di­fe­rença entre iden­ti­ficar cor­rupção em quase todas as re­la­ções entre grandes em­pre­sá­rios e os par­tidos e entre atri­buir toda a res­pon­sa­bi­li­dade a apenas al­gumas pes­soas. O pro­cesso contra Lula está sendo con­tes­tado por inú­meros juízes de pri­meira linha mundo afora, que re­a­firmam seu ca­ráter po­lí­tico. Vale ler o pro­cesso, pois a si­tu­ação é kaf­kiana. Lula re­a­lizou dois go­vernos de mãos dadas com as bur­gue­sias bra­si­leiras. De­certo, con­tri­buiu para im­plantar po­lí­ticas de me­lho­rias, como a do sa­lário mí­nimo, da am­pli­ação da bolsa-fa­mília etc. Dilma pros­se­guiu de mãos dados com o em­pre­sa­riado, mas de­sa­gradou a al­guns deles.

O can­di­dato, porém, não é Lula, e sim Fer­nando Haddad. Ele tem o apoio de Lula, mas Fer­nando Haddad é outro can­di­dato, outro per­curso, outra tra­je­tória po­lí­tica. Vo­tarei com con­vicção em Fer­nando Haddad e já estou em plena cam­panha.

Nós, porém, apren­demos desde 2013 que nin­guém lu­tará em nosso lugar. Somos nós, co­le­ti­va­mente, que te­remos de en­frentar os mons­tros que saíram do abismo. Vo­ta­remos no nú­mero 13 contra o terror.

Mas a con­vo­cação é, so­bre­tudo, para a re­to­mada das or­ga­ni­za­ções das classes tra­ba­lha­doras e dos mo­vi­mentos po­pu­lares, pois so­mente sua au­to­nomia per­mi­tirá sus­tentar as lutas que se avi­zi­nham.

Elei­ções são um mo­mento. Há ur­gência aqui e agora. As mi­lí­cias nas ruas con­tro­lando nossos passos e pen­sa­mentos são a an­tes­sala de um horror ainda mais dra­má­tico. Eleger Fer­nando Haddad é dar o pri­meiro passo para um longo en­fren­ta­mento.

Cor­reio da Ci­da­dania: Com a con­fi­gu­ração do Con­gresso, não es­tamos di­ante de um go­verno pra­ti­ca­mente se­lado em seus rumos?

Vir­gínia Fontes: A con­fi­gu­ração do Con­gresso só pi­orou desde a Cons­ti­tuição de 1988, en­quanto o ati­vismo das di­versas bur­gue­sias bra­si­leiras e es­tran­geiras cresceu. Há inú­meros fa­tores que me­recem ser men­ci­o­nados, a co­meçar pelos fi­nan­ci­a­mentos de cam­panha far­ta­mente ir­ri­gados por em­pre­sá­rios, que com­praram par­tidos in­teiros, que ele­geram seus amigos, à custa de cam­pa­nhas mi­li­o­ná­rias e, agora com o con­trole das verbas pú­blicas, se au­to­fi­nan­ciam ou pagam pelas cam­pa­nhas dos muito ricos. O pró­prio PT deixou de lado sua mi­li­tância his­tó­rica e aderiu a mar­que­teiros e às prá­ticas usuais dos do­mi­nantes. No atual Con­gresso de 2018, 48,85% dos eleitos são mi­li­o­ná­rios, como pa­trimônio su­pe­rior a R$1 mi­lhão. No Se­nado, os mi­li­o­ná­rios são 66%.

O em­pre­sa­riado bra­si­leiro vem atu­ando de di­versas ma­neiras, e não apenas pela vi­o­lência à qual muitos pa­recem aderir. Im­plan­taram uma ex­tensa rede de en­ti­dades sem fins lu­cra­tivos, que pe­ne­tram na edu­cação e na saúde pú­blica, e a partir dessas en­ti­dades en­tendem subs­ti­tuir a gestão pú­blica pela pri­vada. Isso vem sig­ni­fi­cando pro­fundo golpe nas prá­ticas de­mo­crá­ticas, e na des­ti­nação dos fundos pú­blicos. Isso con­tri­buiu para en­fra­quecer todos os par­tidos po­lí­ticos, in­clu­sive os seus.

Ne­nhum des­tino está se­lado para sempre, en­tre­tanto. Sou his­to­ri­a­dora e sei que o fu­turo não está tra­çado, e re­sulta das con­tra­di­ções que emergem nas so­ci­e­dades. E a so­ci­e­dade ca­pi­ta­lista é a maior pro­du­tora de ten­sões, ca­tás­trofes, crises e con­tra­di­ções. Nin­guém pode con­trolar essas con­tra­di­ções, nem mesmo o mais po­de­roso dos pre­si­dentes, ou o mais rico dos em­pre­sá­rios in­ter­na­ci­o­nais, ou o mais ter­rível dos ma­ta­dores. Eles podem lançar suas po­pu­la­ções em guerras ter­rí­veis – e já o fi­zeram di­versas vezes. Podem matar mi­lhares ou mi­lhões. Mas não con­trolam o curso da His­tória. A his­tória é o re­sul­tado si­len­cioso das as­pi­ra­ções das grandes mai­o­rias.

Qual­quer que seja o pró­ximo go­verno, te­remos lutas du­rís­simas pela frente. Se­gu­ra­mente ha­verá lutas in­tes­tinas entre os em­pre­sá­rios que pa­recem agora estar quase todos com Temer e seu con­ti­nu­ador, Bol­so­naro. As dis­putas entre eles já estão ocor­rendo, mas são cui­da­do­sa­mente es­con­didas. Sua gra­vi­dade vem sendo adiada pelos as­saltos diá­rios aos di­reitos dos tra­ba­lha­dores.

So­lu­ções to­ta­li­tá­rias com ame­aças de ex­ter­mínio da es­querda não re­sultam da efi­ci­ência ou ine­fi­ci­ência do PT. O que está por trás dessa enorme tru­cu­lência es­pe­lhada no atual Con­gresso e na cam­panha Bol­so­naro é o pâ­nico di­ante do cres­ci­mento de uma enorme po­pu­lação de tra­ba­lha­dores to­tal­mente des­pro­vidos de di­reitos. São ter­cei­ri­zados, fle­xi­bi­li­zados, nano-‘em­pre­en­de­dores’ em­pur­rados para as pe­ri­fe­rias, onde já vivem sob a vi­o­lência. Essa gente, em breve, exi­girá seus di­reitos.

Afinal de contas, são gente! É por isso que tropas ‘bol­so­naro’ já co­meçam a er­guer muros por dentro do país, muros com bar­reiras feitas por alo­prados com armas, dis­postos a atirar sem di­reção. Por isso, pre­cisam de um Con­gresso capaz de tornar letra-morta as leis exis­tentes, como Temer fez e Bol­so­naro pro­mete pi­orar; por isso pre­cisam de um Ju­di­ciário cujos in­te­grantes ga­nhem como se fossem em­pre­sá­rios, para pensar como eles.

As con­tra­di­ções, en­tre­tanto, per­sistem. Há muitos juízes limpos, há par­la­men­tares que ou­sarão lutar. A po­pu­lação está di­vi­dida e mesmo aquela que votou em Bol­so­naro não se dei­xará en­ganar por muito tempo.

A re­pressão or­ga­ni­zada contra a es­querda, contra ne­gros, mu­lheres e ho­mos­se­xuais não tem fu­turo. O as­sas­si­nato de jo­vens da pe­ri­feria tam­pouco sus­tenta go­vernos. Tudo isso pode ser san­grento e ter­rível, mas será der­ro­tado. A grande mai­oria dos tra­ba­lha­dores são as mu­lheres. A de­si­gual­dade bra­si­leira é um es­topim per­ma­nente e só en­fren­tando suas causas é pos­sível mo­di­ficar o pro­cesso per­verso no qual es­tamos mer­gu­lhados.

Cor­reio da Ci­da­dania: Exis­tiria uma es­pécie de “se­gunda linha” das bur­gue­sias na­ci­onal e in­ter­na­ci­onal in­te­res­sada na vi­tória de seu out­sider de ex­trema di­reita, no sen­tido de en­con­trarem es­paço para ne­gó­cios li­qui­da­ci­o­nistas do Es­tado bra­si­leiro em bases ju­rí­dicas mais fle­xí­veis?

Vir­gínia Fontes: Essa é uma per­gunta muito di­fícil de res­ponder. As bur­gue­sias bra­si­leiras ja­mais de­mons­traram ter um pro­jeto de país ou de nação, mas a si­tu­ação tornou-se grave nos úl­timos cinco anos. Apesar de nas­cidas no Brasil, em­pre­sá­rios e em­presas estão há vá­rias dé­cadas per­me­ados por ca­pi­tais es­tran­geiros. A con­dução po­lí­tica é feita por bra­si­leiros, mas ela pre­cisa con­tem­plar seus as­so­ci­ados, muitas vezes ma­jo­ri­tá­rios. Como alertou Flo­restan Fer­nandes, são cons­ti­tuídas com e pelo im­pe­ri­a­lismo, mas são en­tre­tanto bur­gue­sias, e não são fracas ou dé­beis, e sim tru­cu­lentas.

Essas bur­gue­sias bra­si­leiras se en­re­daram de ma­neira im­pres­si­o­nante em des­man­telar um par­tido como o PT, que lhes foi fiel. Elas atuam de ma­neira di­reta e in­di­reta no in­te­rior do Es­tado bra­si­leiro há muitas dé­cadas, in­de­pen­den­te­mente de voto ou de par­tido. O golpe de 2016 fa­vo­receu um as­salto bur­guês con­junto aos fundos pú­blicos, des­ven­ci­lhando-se dos in­te­grantes do PT que também par­ti­ci­pavam da trans­for­mação de re­cursos pú­blicos em ‘in­ves­ti­mento’ pri­vado.

Não é o Es­tado que acaba, mas as con­quistas de po­lí­ticas uni­ver­sais, com teor po­pular e so­cial, que estão na mira. Os pro­cessos de pri­va­ti­zação de em­presas pú­blicas – fre­ados pelos go­vernos PT, in­clu­sive com apoio dos mi­li­tares – devem se in­ten­si­ficar. Nesse sen­tido, até aqui há ten­sões, mas não há uma ‘se­gunda’ linha, e sim uma única, vol­tada para tentar con­tem­plar as con­tra­di­tó­rias exi­gên­cias dos grupos dís­pares em­pre­sa­riais, às custas das massas tra­ba­lha­doras. A vi­o­lência de Es­tado au­menta na mesma pro­porção do es­bulho.

Tudo leva a crer que os go­vernos do PSDB e do PT re­sul­taram em pro­fundas mo­di­fi­ca­ções in­tra­bur­guesas. Nos go­vernos de FHC, as pri­va­ti­za­ções es­can­ca­raram as portas aos ca­pi­tais es­tran­geiros, como já ha­viam feito os mi­li­tares após o golpe de 1964. Essas pri­va­ti­za­ções, porém, não se li­mi­taram aos es­tran­geiros, e re­for­çaram al­guns se­tores das bur­gue­sias bra­si­leiras que, com au­xílio dos co­fres pú­blicos e das ‘mo­edas po­dres’, al­çaram-se à con­dição de em­presas mul­ti­na­ci­o­nais.

As pri­va­ti­za­ções também re­de­se­nharam o mapa da im­plan­tação bur­guesa no país, com o cres­ci­mento de par­cela bur­guesa fora do eixo cen­tral pau­lista. Nos go­vernos do PT o mo­vi­mento de cen­tra­li­zação e con­cen­tração da pro­pri­e­dade bur­guesa no Brasil se am­pliou ex­po­nen­ci­al­mente, com um pe­queno grupo de me­ga­em­pre­sá­rios con­tro­lando enormes massas de ca­pi­tais, que iam desde bancos a em­prei­teiras, de mi­ne­ra­doras a si­de­rúr­gicas, che­gando ao agro­ne­gócio e aos fundos de pen­sões. Sempre man­tendo es­can­ca­radas as portas para os ca­pi­tais es­tran­geiros.

Este grupo se in­ter­na­ci­o­na­lizou ainda mais e es­treitou laços com bolsas de va­lores es­tran­geiros, com fundos de pensão bra­si­leiros e es­tran­geiros, com fundos de in­ves­ti­mentos e grandes bancos bra­si­leiros e es­tran­geiros. A mai­oria é es­ta­du­ni­dense, mas há também pre­sença de ca­pi­tais de di­versos países, como os suíços, es­pa­nhóis, in­gleses, fran­ceses ou chi­neses. Este não é um perfil apenas ur­bano ou rural, pois atra­vessa ambos os ter­ri­tó­rios. O agro­ne­gócio é uma reu­nião de pro­pri­e­tá­rios de terras, de bancos, de fundos de in­ves­ti­mento, de in­dús­trias, de mídia e de me­ga­cor­po­ra­ções es­tran­geiras.

A grande mai­oria das bur­gue­sias mé­dias e até mesmo par­cela ex­pres­siva da grande bur­guesia bra­si­leira ficou fora desse pro­cesso e es­premeu-se entre as con­quistas de di­reitos de tra­ba­lha­dores e a pressão das me­ga­bur­gue­sias, bra­si­leiras ou es­tran­geiras. Estas ti­nham fa­ci­li­dade de cap­tação de re­cursos pú­blicos di­retos, via BNDES e fundos de pen­sões, de cap­ta­ções no mer­cado de ca­pi­tais bra­si­leiros e es­tran­geiros e aos pa­raísos fis­cais, além de atu­arem econô­mica e po­li­ti­ca­mente através de ma­lhas de en­ti­dades sem fins lu­cra­tivos.

As jor­nadas de junho de 2013 foram o mo­mento em que as ten­sões so­ciais tor­navam-se ex­plí­citas. Do lado po­pular, 2013 mos­trava a rei­vin­di­cação de mais di­reitos e a des­crença no PT para as­se­gurá-los. Do lado das di­reitas, emer­giram grupos pro­to­fas­cistas, com apoio em­pre­sa­rial (bra­si­leiro e es­tran­geiro, como o Atlas Network) e de seus po­lí­ticos, que entre tru­cu­lência, re­cursos in­for­má­ticos e forte apoio mi­diá­tico, bus­caram cons­truir um ini­migo pú­blico (a feição é ti­pi­ca­mente fas­cista), as ‘es­querdas’, ini­ci­al­mente iden­ti­fi­cadas pelo pe­tismo.

E isso apesar da atu­ação do PT estar dis­tante de qual­quer co­mu­nismo ou so­ci­a­lismo e atre­lada ao com­pro­misso com se­tores bur­gueses no ne­o­de­sen­vol­vi­men­tismo. A atu­ação da Lava Jato foi fun­da­mental para os grupos fas­cistas, ao atuar de ma­neira se­le­tiva sobre a cor­rupção, dei­xando in­to­cadas suas pro­fundas raízes his­tó­ricas, e po­dando so­bre­tudo o PT, o ‘par­venu’. Em­bora tenha atin­gido ou­tros par­tidos, a Lava Jato man­teve du­rante quase todo o tempo o foco, de­si­gual­mente, no PT. Co­lu­nista do jornal Valor chegou a dizer que Moro en­trou na de­fesa de Bol­so­naro de ma­neira quase di­reta.

Cor­reio da Ci­da­dania: Ou seja, as dis­putas in­ternas da bur­guesia não são li­ne­ares como pa­recem ao pú­blico.

Vir­gínia Fontes: No início da crise econô­mica, o golpe de 2016 foi a evi­dência da in­ca­pa­ci­dade bur­guesa de di­re­ci­onar tais ten­sões através da ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade. As bur­gue­sias pe­quenas, mé­dias e grandes ini­ci­aram o golpe, as­so­ci­ando-se aos grupos fas­cistas e dando-lhes enorme vi­si­bi­li­dade, com o pato da Fiesp. Aci­o­naram toda a ca­pi­la­ri­dade em­pre­sa­rial através do ame­dron­ta­mento, nos campos e nas ci­dades, mo­bi­li­zando os pe­quenos ges­tores, co­mer­ci­antes, pe­quenos pro­pri­e­tá­rios de terra, pro­fis­si­o­nais li­be­rais ainda so­bre­vi­ventes.

A me­ga­bur­guesia, em parte sob ataque da Lava Jato, em parte pró­xima da ex­trema-di­reita, aliou-se à aven­tura do im­pe­a­ch­ment. O ponto de união entre todas elas foi re­baixar dras­ti­ca­mente as con­di­ções de vida dos tra­ba­lha­dores no Brasil e ex­tor­quir re­cursos pú­blicos. As prin­ci­pais joias da Coroa res­tantes são a pre­vi­dência pú­blica e a Pe­tro­brás, e estão no alvo co­ti­di­a­na­mente.

Após o golpe de 2016, o go­verno Temer exibiu todas as fis­suras e con­tra­di­ções desses grupos, com muitas malas e al­gumas mo­chilas de di­nheiro, com con­versas no­turnas com me­ga­em­pre­sá­rios etc. Sua sus­ten­tação de­pendeu de au­mentar a vi­o­lência contra os se­tores po­pu­lares, para ga­rantir a pauta ex­tor­siva dos re­cursos pú­blicos, en­quanto as­se­gurou fa­ci­li­dades para pra­ti­ca­mente todo o em­pre­sa­riado (PEC do Teto de Gastos para o setor fi­nan­ceiro, Refis e re­pa­tri­a­mento de ca­pi­tais etc.).

Não era uma di­reção po­lí­tica, mas o re­mendo dis­po­nível. Cum­priu todas as pautas im­postas, apro­fun­dando ainda mais a crise econô­mica, so­cial e po­lí­tica. Com isso, exa­cerbou a in­se­gu­rança pú­blica, e ela foi ele­vada à questão cen­tral nas atuais elei­ções. Um ini­migo, as es­querdas (agora já ge­né­ricas) e uma pauta quase única, a in­se­gu­rança (também ge­né­rica). Ambas a serem ata­cadas pela tru­cu­lência. A com­po­sição bol­so­na­rista se con­so­li­dava, agora as­sen­tada no senso comum da vi­o­lência ge­né­rica, a ser ata­cada com maior vi­o­lência.

Vale res­saltar dois mo­vi­mentos nesse pro­cesso: em plena crise econô­mica acir­rada pelas ten­sões par­ti­dá­rias e pela Lava Jato, am­pliou-se o ataque frontal da grande pro­pri­e­dade ca­pi­ta­lista, hoje ex­pressa em grandes hol­dings. Quer te­nham origem em em­presas bra­si­leiras, es­tran­geiras ou as­so­ci­adas, avançam sobre todos os ativos que podem se tornar fonte de lucro, es­pe­ci­al­mente águas, saúde, edu­cação, mi­ne­ração e as terras agri­cul­tá­veis. É a es­ca­lada da de­vas­tação da na­tu­reza e dos di­reitos. A crise bra­si­leira fa­vo­receu a compra de em­presas pelos grandes fundos in­ter­na­ci­o­nais, e al­gumas das me­ga­bur­gue­sias per­deram es­paço. Até agora ne­nhuma de­sa­pa­receu, em­bora te­nham es­trei­tado ainda mais suas ali­anças com ca­pi­tais es­tran­geiros, in­clu­sive chi­neses.

A re­dução de seu papel, en­tre­tanto, não sal­vará as pe­quenas e mé­dias, que con­ti­nuam a ser de­vo­radas, agora por star­tups das grandes hol­dings e de fundos que pro­metem ‘ala­vancá-las’. A perda do con­trole das em­presas por essas bur­gue­sias que acei­taram li­que­fazer as ins­ti­tui­ções de­mo­crá­ticas é in­tensa. Estão sendo re­du­zidas seja a ca­pa­tazes das em­presas que lhes per­ten­ceram ou­trora, seja a pro­pri­e­tá­rios de mí­nimas pro­por­ções de par­ti­ci­pação em al­gumas hol­dings. O se­gundo mo­vi­mento é ainda mais des­tru­tivo, e re­sulta da su­po­sição de que cap­tando re­cursos ex­ternos po­derão en­frentar a crise fiscal que o pri­meiro mo­vi­mento in­ten­si­fica. Apro­fundam a crise e blo­queiam pers­pec­tivas de saída. In­clu­sive econô­micas.

A ali­ança entre o PT e boa parte dessa me­ga­bur­guesia fa­vo­recia al­guns passos pe­cu­li­ares, como a pe­ne­tração de ca­pi­tais bra­si­leiros, muitas vezes as­so­ci­ados a ca­pi­tais es­tran­geiros, em países com go­vernos pro­gres­sistas ou mesmo so­ci­a­listas, assim como a in­cor­po­ração ao grupo dos BRICS. Isso en­volvia manter aberta a cir­cu­lação de ca­pi­tais e com­por­ta­mentos for­mal­mente de­mo­crá­ticos. Mas en­volvia também pre­sença po­lí­tica no ce­nário in­ter­na­ci­onal.

A ali­ança – pre­cária e sem saídas ins­ti­tu­ci­o­nais – entre in­te­resses e com­por­ta­mentos em­pre­sa­riais dís­pares no pós-pe­tismo apoiou-se na ex­trema-di­reita es­ta­du­ni­dense, através de Ins­ti­tutos como o Von Mises e ati­vistas de ex­trema di­reta, como o MBL. De­fi­nido qual seria o ini­migo comum, par­tidos bur­gueses como o PSDB, o DEM e o MDB acre­di­taram que po­de­riam di­re­ci­onar tal ex­trema-di­reita através de suas or­ga­ni­za­ções clás­sicas e, so­bre­tudo, por seu con­trole da mídia. Bol­so­naro e os grupos pró-fas­cistas de­ve­riam per­ma­necer como chan­tagem per­ma­nente, como re­ta­guarda. Não foi o que ocorreu.

Não à toa a im­prensa bur­guesa in­ter­na­ci­onal se pre­o­cupa com essa rá­pida es­ca­lada da ex­trema-di­reita fas­cista no Brasil. Ela vem ob­ser­vando a atu­ação de seus pares jor­na­listas e das bur­gue­sias bra­si­leiras e sabem – por ex­pe­ri­ência – que prá­ticas to­ta­li­tá­rias não são con­tro­lá­veis. Essa é aliás uma di­fe­rença entre a im­prensa bra­si­leira, que pro­cura ocultar os traços gri­tan­te­mente to­ta­li­tá­rios de Bol­so­naro, e a es­ta­du­ni­dense, que ex­pressa as di­vi­sões in­ternas das classes do­mi­nantes e alerta para o risco de fas­cismo.

Há ainda ou­tras mo­da­li­dades de atu­ação em­pre­sa­rial, e eu e vá­rios pes­qui­sa­dores acom­pa­nhamos as par­ti­ci­pa­ções no Es­tado de en­ti­dades sem fins lu­cra­tivos, mas que apre­sentam fortes si­nais ‘en­gor­da­tivos’. Pela úl­tima pes­quisa do IPEA, contam-se atu­al­mente 820 mil Or­ga­ni­za­ções da So­ci­e­dade Civil, com uma folha de pa­ga­mentos de 3 mi­lhões de tra­ba­lha­dores. O IPEA não tem como ava­liar os tra­ba­lha­dores pre­cá­rios que or­bitam nessas en­ti­dades, pu­di­ca­mente cha­mados de ‘vo­lun­tá­rios’.

Há enorme va­ri­e­dade entre essas en­ti­dades, desde as­so­ci­a­ções efe­ti­va­mente po­pu­lares até grandes uni­ver­si­dades e hos­pi­tais que não pagam im­postos (‘be­ne­fi­centes’, mas ca­rís­simos), ou se­mi­em­presas res­pon­sá­veis pela ter­cei­ri­zação no setor pú­blico, como as OS da saúde. In­cluem en­ti­dades vol­tadas para a pró­pria or­ga­ni­zação das bur­gue­sias, assim como ou­tras agem para trans­formar a gestão pú­blica em pri­vada. Tra­duzem o ‘ati­vismo’ em­pre­sa­rial para do­mes­ticar po­pu­la­ções em pe­ríodos for­mal­mente de­mo­crá­ticos. Em muitas delas, mes­clam-se em­pre­sá­rios bra­si­leiros e es­tran­geiros. O prin­cipal mo­delo é ti­pi­ca­mente es­ta­du­ni­dense, vi­sível na ati­vi­dade das Fun­da­ções Ford e Roc­ke­feller, por exemplo.

En­volve também grandes nú­meros de en­ti­dades bra­si­leiras, pois o mo­delo está dis­se­mi­nado e ocupa ni­chos es­ta­tais, de for­mu­lação po­lí­tica e de mer­cado. A atu­ação de tais en­ti­dades em­pre­sa­riais (‘apa­re­lhos pri­vados de he­ge­monia’) con­tri­buiu, nos úl­timos anos, para des­le­gi­timar as op­ções elei­to­rais po­pu­lares, ao en­ca­mi­nhar so­lu­ções em­pre­sa­riais pré-pre­pa­radas para a atu­ação po­lí­tica dos ges­tores em mu­ni­cí­pios, es­tados e no pró­prio go­verno fe­deral. Dadas as suas di­men­sões, é pos­sível ima­ginar que ten­sões apa­reçam também nesse ter­reno ‘as­so­ci­a­tivo’, es­pe­ci­al­mente na questão am­bi­ental. Mas não há ainda si­nais claros.

Ne­nhum desses pro­cessos aponta para o fim do Es­tado bra­si­leiro nem para sua atu­ação menos di­ta­to­rial ou vi­o­lenta. Ao con­trário, as­si­nalam que a ex­pansão das re­la­ções so­ciais ca­pi­ta­listas con­tem­po­râ­neas se faz sob o signo do cres­ci­mento da vi­o­lência di­reta sobre as grandes massas da po­pu­lação, tra­ba­lha­dores a cada dia com menos di­reitos.

Temer foi o re­mendo dis­po­nível. Bol­so­naro segue com­pro­me­tido com as pautas de Temer, mas agora a si­tu­ação é outra. Bol­so­naro vem da di­ta­dura, se apoia em mi­li­tares dela sau­dosos e es­ti­mula os se­tores fas­cistas até então rui­dosos, mas sem acesso di­reto à ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade, pela qual aliás não ma­ni­festam apreço. As ten­sões in­tra­bur­guesas talvez se aco­modem com Bol­so­naro. Mas não as que fer­mentam na vida das classes tra­ba­lha­doras.

A de­fesa do voto em Fer­nando Haddad não tem a ilusão de in­ter­romper a es­ca­lada da grande pro­pri­e­dade no Brasil, mas de in­ter­romper uma di­nâ­mica que pode se tornar in­con­tro­lável. É pre­ciso que os tra­ba­lha­dores te­nham a pos­si­bi­li­dade de or­ga­nizar-se para en­frentar o atual ce­nário.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que con­si­dera da in­fluência evan­gé­lica no pleito?

Vir­gínia Fontes: As Igrejas têm um his­tó­rico an­tigo de in­ter­fe­rência po­lí­tica con­ser­va­dora no Brasil. A con­cor­rência entre as grandes de­no­mi­na­ções re­li­gi­osas, es­pe­ci­al­mente Ca­tó­lica e Ne­o­pen­te­costal se acirra, mas isso não tem se tra­du­zido em di­fe­ren­ci­ação po­lí­tica forte. Há mesmo uma certa apro­xi­mação em po­si­ções muito con­ser­va­doras. O pa­pado apa­ren­te­mente se apro­xima de po­si­ções mais po­pu­lares, cri­ti­cando as formas de vi­o­lência pú­blica e pri­vada, mas pelo visto sofre boi­cote entre suas pró­prias fi­leiras. O caso da atu­ação da Ar­qui­di­o­cese de São Paulo em seu es­tran­gu­la­mento po­lí­tico na PUC é in­qui­e­tante. A CNBB deu uma de­cla­ração vaga, sem se pro­nun­ciar por um ou outro can­di­dato, apenas su­ge­rindo ‘can­di­datos fa­vo­rá­veis à de­mo­cracia’. Al­guns de seus in­te­grantes, en­tre­tanto, ini­ci­aram uma cam­panha contra o fas­cismo, mas não pa­recem ter a or­ga­ni­ci­dade de uma ini­ci­a­tiva ins­ti­tu­ci­onal.

As Igrejas pro­tes­tantes são muito va­ri­adas e, na di­re­triz mais in­flu­ente, como a Uni­versal, sua prin­cipal li­de­rança, Edir Ma­cedo, apoiou aber­ta­mente Bol­so­naro, o qual contou com in­tensa cam­panha de Mar­celo Cri­vella no Rio de Ja­neiro. Após reu­nião, 5 mil lí­deres da As­sem­bleia de Deus de­cla­raram pu­bli­ca­mente apoio a Bol­so­naro. Ambas estão as­sen­tadas na te­o­logia da pros­pe­ri­dade, até aqui ba­seada em fer­vo­rosa obe­di­ência e em com­por­ta­mentos so­ciais de­fi­nidos de ma­neira bas­tante rí­gida, es­pe­ci­al­mente contra a ho­mos­se­xu­a­li­dade e o fe­mi­nismo.

Tais igrejas têm as­su­mido um com­por­ta­mento po­lí­tico de apoio às me­didas an­ti­po­pu­lares e de viés mo­ra­li­zante, tanto nas pre­ga­ções quanto na po­lí­tica (a ban­cada da Bí­blia, e sua pro­xi­mi­dade com as ban­cadas da bala e do boi). Ao mesmo tempo re­a­lizam uma aco­lhida es­pa­lha­fa­tosa e pro­metem mi­la­gres para mi­norar os cres­centes pro­blemas econô­micos e so­ciais de seu largo pú­blico. Al­gumas delas já vi­nham or­ga­ni­zando mi­lí­cias pró­prias.

Com Bol­so­naro, que tra­fegou do ca­to­li­cismo para a As­sem­bleia de Deus, au­menta o risco gra­vís­simo de im­po­sição vi­o­lenta de prin­cí­pios re­li­gi­osos aos que não com­par­ti­lham da mesma crença e é de se es­perar um au­mento de ten­sões entre re­li­giões.

Essas ten­sões estão sendo trans­fe­ridas – em­pur­radas para a frente – através do acesso aos fundos pú­blicos, pela via de isen­ções fis­cais mi­li­o­ná­rias para en­ti­dades re­li­gi­osas, ‘sem fins lu­cra­tivos’. Nesse âm­bito, até aqui – ao que eu co­nheça – todas as grandes de­no­mi­na­ções re­li­gi­osas se uni­ficam e deixam em se­gundo plano os va­lores re­li­gi­osos es­pe­cí­ficos, em troca dos fundos pú­blicos.

Não obs­tante, as con­tra­di­ções da vida so­cial con­creta se ex­pandem, há enorme ju­ven­tude par­ti­ci­pando de cultos e missas, com com­por­ta­mentos que não se co­a­dunam com im­po­si­ções mi­li­ci­anas. A enorme frequência de mu­lheres e de ne­gras e ne­gros em todos os es­paços (pro­fis­sões, re­li­giões, uni­ver­si­dades) ex­prime mu­danças na com­po­sição da base so­cial, onde grande parte das fa­mí­lias é di­ri­gida por mu­lheres. Essa base so­cial rei­vin­dica po­lí­ticas so­ciais pú­blicas.

A es­tra­tégia em­pre­sa­rial tem sido a de propor um for­mato pri­va­ti­zado para as po­lí­ticas so­ciais, através de ‘en­ti­dades sem fins lu­cra­tivos’. A longa du­ração e o apro­fun­da­mento da atual crise econô­mica, com a re­ti­rada de di­reitos e as dis­putas entre grandes em­pre­sá­rios pelo fundo pú­blico – in­clu­sive re­li­gi­osos que são grandes em­pre­sá­rios – tende a levar a dis­putas se­veras, trans­fe­ridas para o pró­prio in­te­rior das re­li­giões.

Cor­reio da Ci­da­dania: Qual­quer seja o ven­cedor, o que fi­cará para o país, em es­pe­cial por fora da ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade, nos pró­ximos tempos?

Vir­gínia Fontes: A ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade bur­guesa, sob o ca­pi­ta­lismo, é cada dia mais an­ti­de­mo­crá­tica, man­tendo en­tre­tanto um viés legal. Os in­te­resses da grande pro­pri­e­dade ca­pi­ta­lista estão sendo cons­ti­tu­ci­o­na­li­zados, em de­tri­mento dos in­te­resses das po­pu­la­ções tra­ba­lha­doras. Chan­ta­gens sobre grandes massas po­pu­lares e ex­pro­pri­a­ções de di­reitos du­ra­mente con­quis­tados têm sido um triste es­pe­tá­culo. E isso não apenas no Brasil. As classes do­mi­nantes, aqui e afora, apro­fun­daram sua atu­ação por dentro e por fora dos Es­tados, além de agirem dentro e fora das na­ções. Sob a ba­tuta da grande pro­pri­e­dade do ca­pital em es­cala in­ter­na­ci­onal.

As lutas das massas tra­ba­lha­doras pre­cisam re­sultar em con­quistas ins­ti­tu­ci­o­nais, uma vez que delas de­pende a pró­pria sub­sis­tência de mi­lhões de pes­soas. Mas pre­cisam saber que ao se man­terem uni­ca­mente nesse viés, perdem ca­pa­ci­dade de or­ga­ni­zação e for­mu­lação e re­duzem sua pró­pria ca­pa­ci­dade de luta. Au­to­nomia de classe e au­tos­sus­ten­tação são con­di­ções fun­da­men­tais para as lutas dos tra­ba­lha­dores. Aliás, é assim que agem as classes do­mi­nantes.

Qual­quer que seja o ven­cedor das pró­ximas elei­ções, o que se abre é um enorme pe­ríodo de lutas e de ten­sões so­ciais.

Bol­so­naro é a ameaça do ex­ter­mínio aberto de opo­nentes, num pri­meiro mo­mento, o que já vem ocor­rendo (não es­quecer de Ma­ri­elle Franco e An­derson Gomes, ainda sob Temer). Tudo in­dica uma ge­ne­ra­li­zação de si­tu­ação si­milar à me­xi­cana, onde se mes­claram tra­fi­cantes, mi­lí­cias, po­li­ciais e forças ar­madas em mas­sa­cres quase co­ti­di­anos, de­vas­tando os se­tores po­pu­lares e a opo­sição po­lí­tica. O país se des­fazia, mas o sé­timo maior bi­li­o­nário do pla­neta, em 2018, é o me­xi­cano Carlos Slim Helu.

Bol­so­naro se apre­senta como a de­fesa do em­pre­sa­riado para além de todas as ins­ti­tui­ções e à custa de todo e qual­quer di­reito po­pular. Nin­guém, nem o pró­prio em­pre­sa­riado (in­clu­sive a mídia) a quem ele pre­tende servir, tem ideia do que isso sig­ni­fi­cará caso ele seja eleito. O as­salto ao fundo pú­blico tem um li­mite – o pró­prio fundo pú­blico, mesmo se con­ver­tido em dí­vida pú­blica, como vem ocor­rendo. A ge­ne­ra­li­zação de vi­o­lência di­reta e mi­li­ciana se aba­terá em cheio sobre os opo­si­tores, mas em se­guida po­derá se trans­ferir também para as lutas in­tes­tinas entre grupos es­pe­cí­ficos ou entre se­tores das pró­prias classes do­mi­nantes.

A eleição de Fer­nando Haddad é fun­da­mental para blo­quear esse ce­nário dan­tesco. No en­tanto, a eleição de Haddad não deve sus­citar ilu­sões. As lutas das classes tra­ba­lha­doras serão mais duras nos pró­ximos tempos.

O en­fren­ta­mento ao ca­pital, no for­mato dra­má­tico que vem im­pondo, é a cada dia mais fun­da­mental.

Fonte: Correio da Cidadania

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