Mais proteção, menos produção

Dada às conhecidas limitações naturais e físicas do planeta, não é aceitável fazer a economia mundial crescer à custa da acintosa pilhagem da natureza (recursos e energias).

Por Marcus Eduardo de Oliveira*

Poluição do ar e dos oceanos, extinção de várias espécies da fauna e da flora, cardumes ameaçados, buraco na camada de ozônio, esgotamento dos solos, aquecimento global e a constante mudança climática. Esses são alguns dos fatores de desequilíbrio ambiental desencadeados pela expansão econômico-produtiva, mostrando assim que os limites ecológicos não suportam exageradas taxas de crescimento econômico.

ecologia-e-desenvolvimento-sustentavel-7Tal situação é, na verdade, uma condição antieconômica, uma vez que evidencia que as perdas de capital natural superam os ganhos econômicos. Nesse caso, a economia age no sentido de impactar o equilíbrio ecológico. Em outras palavras, é a constatação da pressão exercida pela humanidade, viciada no consumismo, agindo sobre os recursos finitos da natureza.

O crescimento da atividade econômica global, por essa perspectiva, é simplesmente incompatível com uma biosfera finita; razão pela qual a insistência num modelo que prioriza o crescimento físico da economia além dos limites, leva à incidência de mais custos ambientais do que propriamente de benefícios econômicos, conforme aludimos.

Por isso, primeiramente, torna-se necessário a imediata ruptura com a ideia recorrente de que o crescimento econômico melhora o padrão de vida das pessoas.

Ora, sem considerar a elevada concentração de renda e riqueza existente na economia global, é no mínimo simplista supor que o crescimento econômico, pela possibilidade de obter mais bens, melhora o modo de vida das pessoas.

Aqueles que entendem que o crescimento econômico gera benefícios que melhoram a vida, são os mesmos que - pelo consumismo e por serem os “concentradores de renda e riqueza” -, fazem da conquista material e do acúmulo de mercadorias escada de ascensão pessoal.

No entanto, se isso pode ser chamado de “crescimento”, tal situação fica cada vez mais longe daquilo que se convenciona chamar “desenvolvimento”, ou seja, das condições que realmente melhoram a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas.

Objetivamente, alcança-se desenvolvimento quando são atingidos, em concomitância à melhoria do padrão médio das condições de vida, níveis elevados de padrões ecologicamente sustentáveis, além da fundamental conquista das “liberdades”, meta-síntese do desenvolvimento, como aponta com muita propriedade o ganhador do Prêmio Nobel de Economia (1998), Amartya Sen.

Não é o crescimento da economia, desse modo, que faz então progredir qualitativamente à vida das pessoas, até mesmo porque para atingir crescimento passa-se, antes, pela imposição dos limites da natureza.

É justamente aí que reside um conflito que coloca em lados opostos os sistemas ecológico (objetivando proteção ambiental) do econômico (objetivando produção industrial).

Herman Daly, elevada voz da economia ecológica contemporânea, pondera que “se os recursos pudessem ser criados a partir do nada e os resíduos pudessem ser aniquilados no nada, então poderíamos ter uma produção de recursos sempre em crescimento através da qual alimentaríamos o crescimento contínuo da economia. Mas a primeira lei da termodinâmica diz NÃO. Ou se pudéssemos apenas reciclar a mesma matéria e energia através da economia de forma mais rápida, poderíamos manter o crescimento em andamento. O diagrama de fluxo circular de todos os textos de iniciação à teoria econômica infelizmente aproxima-se muito desta afirmação. Mas a segunda lei da termodinâmica diz NÃO”.

Da incompatibilidade existente entre a “necessidade” do crescimento da economia versus a “necessária” proteção do meio ambiente, nasce a imprescindível tarefa de fazer com que o sistema econômico passe a “conversar” com mais frequência com o sistema ecológico, uma vez que a economia depende (afinal, trata-se de um subsistema) do meio ambiente.

Por oportuno, Fritjof Capra – outra elevada voz da educação ecológica - lembra que enquanto “a economia enfatiza a competição, a expansão e a dominação; a ecologia enfatiza a cooperação, a conservação e a parceria.”.

Não há como negar que, quanto mais as economias modernas crescem, mais se dilapidam os principais serviços ecossistêmicos, mais se desequilibra a condição climática, acentuando a depleção das reservas naturais; acentuando-se, de modo análogo, o conflito economia x ecologia que mencionamos.

Isso tudo afeta sobremaneira a qualidade de vida das pessoas, - especialmente daquelas que estão fora do conjunto dos concentradores de renda e riqueza - distanciando-as cada vez mais do alcance de bem-estar.

O que realmente importa em termos de bem-estar, e isso parece ser consenso, não é atingir mais crescimento (quantidade de bens e serviços), mas sim obter mais desenvolvimento (qualidade).

Por isso, limitar o crescimento da economia global, no curto prazo, é tido como caminho certo para trilhar as rotas que levam ao desenvolvimento, no longo prazo. Dada às conhecidas limitações naturais e físicas do planeta, não é aceitável fazer a economia mundial crescer à custa da acintosa pilhagem da natureza (recursos e energias).

Diante disso, parece ser de comum acordo afirmar que, no momento, o que o mundo precisa e deseja é de “mais proteção” (ambiental), e de “menos produção” (industrial).

*Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental prof.marcuseduardo@bol.com.br

Deixe uma resposta

sete + 13 =