Comunidade negra por novos tempos de igualdade

Jurandyr Azevedo Araújo *

O jubileu do ano 2000 e os 500 anos de evangelização do Brasil foram ocasiões propícias, não só para a Igreja, mas para toda a sociedade brasileira rever sua história e tomar novas posições face ao presente e o futuro. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em documento alusivo aos 500 anos de evangelização, diz que "a sociedade brasileira dispõe de recursos, conhecimentos e pessoas" capazes de promover "a construção de um futuro de dignidade e esperança". Entretanto, enfatiza que "essa construção é de responsabilidade de todos os brasileiros (...). Todos devemos ser parceiros na busca do bem comum e do desenvolvimento do país"[1].

Em resposta a esse apelo e consciente da difícil situação em que vive a Comunidade Negra em sua grande maioria, a Pastoral Afro-Brasileira, presta a sua contribuição, levando ao conhecimento da sociedade e apresentando às autoridades do nosso país, exigências que se fazem necessárias para reparar distorções do passado e criar condições para um futuro de oportunidades iguais. As reflexões promovidas pela comunidade negra brasileira ao longo de sua história de sofrimentos e marginalizações têm sido suficientes para que o país como um todo esteja convencido das suas dívidas reais em relação à Comunidade Negra e a necessidade de repará-las[2].

Abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e outros, já denunciam, a seu tempo, a necessidade de se reparar a escravidão com políticas e ações concretas que disponibilizassem aos negros terras para plantar, empregos e moradia. Analisando a realidade nacional após a promulgação da Lei Áurea em 1888, Joaquim Nabuco observava que a abolição sem acesso a terra, era na verdade para o negro, experimentar uma nova escravidão[3]. Apesar dos insistentes apelos dos movimentos negros, infelizmente não existe, todavia, uma eficaz política de reparação dos enormes danos causados à população negra.

A Pastoral Afro-Brasileira, em sintonia com os seguimentos representativos da Comunidade Negra e com todas as pessoas que lhe são solidárias, entende que é hora de passar das análises e dos discursos, para ações afirmativas concretas que deem resultados positivos e que possam por um fim ao maior escândalo da sociedade brasileira que é a desigualdade. Para tanto, é preciso sensibilidade por parte dos poderes públicos, dos homens e mulheres do Evangelho, e da conversão de toda a sociedade em torno de atos de reparação.

Reparação, não significa propriamente saldar a dívida dos séculos de escravidão. A dignidade não tem preço. Portanto, a escravidão negra, assim como fora a do povo de Israel no Egito ou na Babilônia, permanecerá impagável. Ao falar em reparação está se referindo a propostas concretas que além de expressarem uma atitude ético-moral, possam efetivamente contribuir para criar novas condições que estabeleçam um processo de superação das desigualdades.

Após apontar para as realidades onde as desigualdades são mais acentuadas, a Pastoral Afro-Brasileira referenda os vários Grupos que apresentam programas sobre reparações à Comunidade Negra. Na sua proposta de estreitar cada vez mais o diálogo e as ações comuns com a sociedade civil, na busca de soluções dos problemas básicos da Comunidade, a Pastoral Afro-Brasileira, em comunhão com toda a Igreja no Brasil, permanece aberta para acolher e apresentar a toda a sociedade os projetos que efetivamente venham contribuir para ensejar políticas de reparação e propugnar por novos tempos de igualdade.

[1] Documentos da CNBB-65, n.35.

[2] Ver, Atabaque: Cultura Negra e Teologia - Uma Dívida Muitas Dívidas, Os Afro-Brasileiros querem Receber.

[3] Cf. Nabuco, Joaquim, - Minha Formação. São Paulo, 1943, p. 187

* Jurandyr Azevedo Araújo é assessor da Pastoral Afro-Brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Fonte: Pastoral Afro

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