A intolerância

Maria Regina Canhos *

Venho atravessando uma fase muito difícil em minha vida e tenho repensado sobre algumas convicções que tinha, e que agora se revelam incertas. Uma delas é em relação ao amor. Amor tão decantado, mas tão pouco praticado entre nós. Tudo parece ter nome de amor. Egoísmo em nosso mundo é amor, amor próprio. Ciúme em nosso mundo é amor, amor posse. Intolerância em nosso mundo é amor, amor preconceito. Percebem? Tudo parece ser amor; mas não é! Amor é diferente. Amor escuta primeiro para depois aconselhar, avaliar a situação, orientar... Amor não despreza quem quer que seja; não exclui, não anula... Amor não julga, não sentencia, não condena... Amor acolhe!

Verifico que, mesmo dentro dos templos, os cristãos fingem um amor pelo seu semelhante que na realidade não possuem. Caluniam, falam mal por detrás, fofocam... Apedrejam outras tantas Madalenas e também homossexuais, esquecendo-se que Deus é Pai amoroso, cheio de compaixão com suas criaturas em quaisquer situações. Aliás, as pessoas hoje em dia já não sabem o que é certo ou errado; estão perdidas, desorientadas, vulneráveis em sua fé. Numa época em que tudo é possível, nunca se viu tanta intolerância. As posturas são belicosas e os ânimos beligerantes. Não se procura edificar, mas destruir. Nada de somar e sim dividir. A compreensão está descartada como forma de interagir com os pares, porque aparenta uma fragilidade que se contrapõe ao espírito guerreiro atual.

A diversidade assusta. Não é vista como algo enriquecedor. As pessoas ainda se matam para provar que estão certas num mundo extremamente competitivo e cruel. Mas, eu pergunto: quem está certo? A mão que empunha a arma ou o peito que recebe o golpe? A pessoa que cansa de ser depreciada ou a que chora o relacionamento desfeito? O corpo que se envolve sexualmente ou aquele que se furta da entrega afetiva? A boca que espalha a fofoca ou o coração que possui misericórdia? Complicado, não é mesmo? Alguns dirão: depende do lado em que se está. E nesse ponto, tenho de concordar, pois a maioria advoga em causa própria e puxa a sardinha para a sua brasa. Mimetismo de camaleão.

Peço a todos que ponderem responsavelmente as diferenças atuais, afastando a intolerância do nosso convívio diário. Temos muito a aprender com a diversidade. Todos merecem respeito. Somos gente. Gente tem defeitos, erra, cai, fracassa; mas também tem qualidades, acerta, levanta, triunfa. A palavra que desencoraja pode também estimular. As mãos que destroem podem igualmente construir. Os pés que tomam rumos tortuosos podem nos levar para trilhas de redenção. É tudo uma questão de tempo e amadurecimento. Aguce o olhar, note que além das aparências existe no irmão um ser especial, singular, único. Conviver lado a lado já é o verdadeiro milagre. Abaixo a intolerância!

* Maria Regina Canhos (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.

Fonte: www.mariaregina.com.br

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