Faroeste caboclo

Maria Regina Canhos Vicentin *

Faroeste caboclo é o título de uma canção do grupo Legião Urbana, na voz de Renato Russo, que narra a estória de João de Santo Cristo. A música conta como esse personagem se tornou bandido, discriminado por sua cor e classe social, como foi traído e em que condições foi morto. É o retrato de inúmeros Josés, Joãos, Silvas e Souzas da vida. É o cenário que vem sendo exposto e explorado continuamente pela mídia televisiva através de suas reportagens sobre o tráfico de drogas e o confronto com a polícia. É o que tem alimentado o horário nobre da telinha e enchido de horror o povo brasileiro.

Alguns buscam a justiça ao seu próprio modo. Parece que voltamos atrás no tempo, na fase da vingança privada, que por conta de seus intermináveis conflitos acabou determinando o surgimento da pena de talião, como forma de delimitar os castigos. Assim, a pena consistia na aplicação da mesma agressão sofrida, daí a expressão: "olho por olho, dente por dente". Se observarmos bem, veremos que aparentemente estamos diante de um retrocesso histórico. Nossa Justiça não vem inspirando credibilidade, pois simplesmente, em muitos casos, não há justiça! O clima de insegurança é perturbador e todos têm medo. A desconfiança perpassa qualquer relacionamento e a predisposição em reagir fica automaticamente acionada para alguma eventualidade. Fazemos coisas que sequer imaginávamos fossemos capazes. Ficamos embrutecidos, aborrecidos, esquisitos... e nem sabemos por quê. Mas estamos ali, todos os dias, em frente à telinha, alimentando nosso subconsciente com informações negativas que fomentam nosso desejo de vingança e nos fazem crer que nada de bom existe neste mundo.

Não me admira que alguns tenham partido para ações pouco recomendáveis em função de se acharem no exercício de seu pleno direito. A vida das pessoas parece ter muito pouco valor. Apenas parcos reais. As balas, provavelmente, dão a sensação de que conseguirão aquilo que algumas palavras não conseguiram. Ao final, restam muitas lamentações, meses de expectativa e a dor do arrependimento. Mas quem se interessa por isso? Acaso a TV aborda o peso na consciência, a frustração, o medo de enlouquecer? Nada disso é mostrado. Permanece ignorado, pois não interessa. Mostra-se o sangue, o desejo de vingança, a ira... mas, pouco se retrata acerca da desolação subsequente. Faz-se crer que o homem pode ser feliz dizimando sua própria espécie. Esse clima de animosidade que estamos vivenciando atualmente vem sendo fabricado e alimentado pelos meios de comunicação que, ao invés de promoverem a vida, insistem em promover a morte e a degradação.

Existem muitos homens de bem que não são vistos, não são mostrados, não dão ibope porque não mancham a TV de sangue. É muito triste ver o povo brincando de faroeste, como se o outro fosse um inimigo a ser eliminado da face da terra. Se a moda pega vamos ter que encomendar colete à prova de balas para grande parte da população. Aqui vai um alerta para você que está lendo este artigo: se algo ou alguém o encoraja a praticar um crime contra o seu próximo, muito provavelmente, esse algo ou alguém não é bom para você. Simplesmente se afaste; e sua vida irá, com certeza, melhorar!

* Maria Regina Canhos Vicentin é escritora. (e.mail: contato@mariaregina.com.br)

Fonte: www.mariaregina.com.br

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