Rio+20 oxigenará debate socioambiental no Brasil, diz o geógrafo Wagner Costa Ribeiro

IHU On-Line

"A Rio+20 deve ser analisada integralmente e não apenas pelos resultados que os três dias de reunião dos Chefes de Estado trarão. Ela é mais uma oportunidade de mobilização social, que fortalece o movimento social, que atua em conjunto com o movimento ambientalista desde a Rio 92. Servirá para oxigenar o debate socioambiental e mobilizar a sociedade para temas centrais como a inclusão social com parâmetros ambientais", diz o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, em entrevista à Carta Maior, 08-06-2012.

"A Rio+20 deve ser analisada pela mobilização social que vai gerar já que ela é uma etapa de um necessário processo de transformação social baseado em novas formas de produção econômica e de vida em sociedade". A avaliação é de Wagner Costa Ribeiro, doutor em Geografia Humana e professor titular do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo. Coordenador do Grupo de Pesquisa de Ciências Ambientais do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Grupo de Trabalho Rio+20, Wagner Costa Ribeiro concedeu entrevista à Carta Maior tratando das diretrizes do evento e apontando a atual situação do Brasil frente aos problemas econômico-ambientais.

Eis a entrevista.

Qual a sua expectativa em relação a Rio+20? Que resultados espera desse encontro?

A Rio+20 deve ser analisada integralmente e não apenas pelos resultados que os três dias de reunião dos Chefes de Estado trarão. Ela é mais uma oportunidade de mobilização social, que fortalece o movimento social, que atua em conjunto com o movimento ambientalista desde a Rio 92. Um exemplo dessa articulação é a posição do MST no debate sobre o Código Florestal no Brasil. Eles estavam junto dos que compreendem que a função social da terra implica também em garantir sua capacidade de produção para as gerações futuras, uma premissa ambientalista.

Serão cerca de 1200 eventos em pouco mais de 10 dias, incluindo os que serão realizados na Cúpula dos Povos, o que é extraordinário. E ainda temos os povos indígenas, que discutirão separados dos demais, como fizeram na Rio92. A Rio+20 serve para oxigenar o debate socioambiental e mobilizar a sociedade para temas centrais como a inclusão social com parâmetros ambientais, um desafio que terá que ser enfrentado.

O documento final deverá expressar essa intenção. Ele é produto de um contexto muito difícil pois o cenário internacional é desfavorável: crise financeira e econômica, mais eleições em países importantes. O Brasil já é um protagonista importante que criou um portal (www.riodialogues.org), que permitiu a participação direta dos cidadãos na Conferência por meio de propostas que foram votadas e que serão enviadas aos Chefes de Estado.

Essa iniciativa não vai acabar na Rio+20, ela será mantida como um portal para discussão dos temas socioambientais internacionais. O mesmo ocorrerá com o documento final, que só fará sentido se ganhar aplicação entre os países. Por isso a Rio+20 deve ser analisada pela mobilização social que vai gerar já que ela é uma etapa de um necessário processo de transformação social baseado em novas formas de produção econômica e de vida em sociedade.

O senhor acha que a "economia verde", com seus mecanismos financeiros, seria a resposta para o embate entre recursos naturais finitos e o desenvolvimento econômico?

Economia verde foi uma invenção para tentar dar novos rumos ao debate. Não existe consenso sobre sua definição, muito menos se será eficaz. Os instrumentos de mercado são convenientes, mas deixam a desejar. Veja a oscilação dos preços, por exemplo, de material reciclável diante da crise, ou mesmo dos créditos de carbono dado o fim do período de compromisso de redução de emissões. O mercado, como já sabemos, falha, não seria diferente com os temas ambientais. Por isso esses instrumentos devem ser vistos com atenção, não são uma alternativa durável.

O senhor poderia comentar um pouco esse trecho do seu artigo "Globalização e Geografia em Milton Santos" (2002) à luz da conjuntura econômico-ambiental vigente hoje: "A globalização é fragmentação ao expressar no lugar os particularismos étnicos, nacionais, religiosos e os excluidos dos processos econômicos com objetivo de acumulação de riqueza ou de fomentar o conflito".

Veja a inserção dos países africanos no mundo capitalista, ou mesmo do Brasil e de nossos vizinhos da América do Sul. Ela está baseada na exportação de recursos naturais e em produtos agrícolas, ou seja, possuem relação direta com a exploração da natureza, dos recursos hídricos, do solo. O que sobra desse processo? O passivo ambiental, a injustiça socioambiental e os conflitos.

A globalização para o acesso aos recursos naturais pelos países industrializados gerou possibilidades de ganhos pontuais e episódicos, mas que não serão duradouros porque estão baseados em fontes não renováveis. Os impactos ambientais são a expressão desse processo de acumulação baseado no uso intensivo de recursos naturais. Em 2011 escrevi outro texto, publicado pela Fudan University, de Shangai, no qual afirmei que os países emergentes se tornarão potências apenas se conseguirem impor novos modelos de organização da atividade econômica. Reproduzir modelos que estão em crise ou simplesmente fornecer material para que ele se reproduza, significará a impossibilidade de ruptura e a manutenção de uma posição inferior no sistema internacional.

O que o senhor acha do crescimento da bancada ruralista no Congresso Nacional? Seria um sintoma do recrudescimento conservador das politicas ambientais no Brasil?

Esse é dos desafios que teremos que enfrentar no Brasil contemporâneo. Existe um Brasil dinâmico, urbano, que se modernizou inclusive nas relações políticas. Essa parte do país está, e não é de hoje, sub-representada no Congresso Nacional, porque ela está concentrada nos estados do Sudeste e do Sul, com parcelas também dispersas em parte do Centro-Oeste e em metrópoles e centros regionais do Norte e do Nordeste.

Mas existe um outro Brasil, que também se modernizou, mas apenas para a produção agrícola baseada na exportação, por meio do uso intensivo do solo, da água e com o emprego de muito agrotóxico proibido em países ricos e em países pobres. Essa parte do Brasil não passou por uma modernização política, o que permitiu a transformação do setor agropecuário em um movimento político que tem força no Congresso. Como a Presidenta depende de maioria para aprovar seus projetos, fica refém de negociações que nem sempre espelham o interesse geral, mas de parte dos brasileiros. Para corrigir essa distorção teríamos que alterar o processo eleitoral mudando a representação dos estados no Congresso.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

Fonte: www.ihuonline.unisinos.br

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