Portão fechado, céu aberto

Egon Dionisio Heck *

Fim de linha. O comboio de carros com representantes de vários órgãos e instâncias do governo federal, fica barrado pelo portão fechado a cadeado. Sua eminência a proprieda de privada fala mais alto que qualquer direito. O representante da presidência da república, tenta

argumentar com o portador da chave, que chegou a cavalo. Parece não convencer quem está do outro lado da lei, ou seja, tem a chave na mão. Porém quando chegam os homens da força nacional, a conversa começa ter outro tom, e o cadeado se rende aos argumentos.

No retorno outro transtorno. A porteira no cadeado é recado dado - vocês só saem se eu abrir. E demorou mais de hora para chegar o senhor da chave, desta vez de cavalo de ferro, a moto. E assim o estado brasileiro é retido pelas forças do latifúndio e do agronegócio. Essa situação que priva a comunidade do Ypo'i de se locomover e transitar para necessidades mais básicas de sobrevivência, saúde e educação, quando os homens do cadeado o quiserem. Ou seja, só entra a Funai e Sesai, duas vezes por mês, e com notificação prévia. Assim reza a decisão judicial. Assim impõem a privada propriedade São Luiz, de Firmino Escobar. Porém, como diz dona Maria, a doença não tem hora e nem avisa".

Até os advogados indígenas da ODIN (Observatório Indígena), quando já se encontravam a caminho de Ypo'i foram orientados a mudar de rumo pois não eram do governo, e desta forma estariam impedidos de chegar à comunidade indígena. "Mas nós somos índios", tentou argumentar Arildo, mas não insistiu para não causar problemas à comitiva governamental.

Os representantes da comunidade relataram minuciosamente a sua luta de vários anos para ter seu pedaço de chão e de paz de volta. Paulo ouviu tudo atentamente. Em entrevista à Carta Capital expressou as principais decisões tomadas. "A situação no Cone Sul do Mato Grosso do Sul já ultrapassou todos os limites imagináveis...O governo federal não admite mais esse clima de violência nessa região. Sabemos que o único caminho é a demarcação de terras, mas é um caminho longo, e não podemos esperar. Vamos fortalecer a rede de proteção que está sendo formada entre as comunidades indígenas vítimas de violência. O objetivo é garantir a vida e a integridade das comunidades."

Paulo Maldos assumiu compromissos com a comunidade do Ypo'i e as outras comunidades Kaiowá Guarani em luta pelas suas terras tradicionais "O Estado vai chegar a todas as comunidades, estejam em terras demarcadas ou não, em beiras de estrada ou mesmo dentro de fazendas". Tudo o que for feito será feito em conjunto com eles. A Aty Guasu é nossa parceira."

O secretário disse que a escolha de ir ao MS e fazer o anúncio dessas novidades em Ypo'i foi proposital. "Fomos visitar a comunidade mais violentada das violentadas. Além de tudo o que os Guarani-Kaiowá em geral sofrem, lá eles estão sujeitos a um verdadeiro confinamento...Eu já acompanhava as informações sobre as violências contra os Guarani-Kaiowá havia muitos anos, mas ir até lá me deixou ainda mais indignado com tudo o que vi."(Carta Capital 24-10-11)

As casinhas de lona, de sapé e pau a pique, assim como a casinha feita para o atendimento à saúde e escola, são provas da resistência e teimosia da comunidade de lutar pelo seu sagrado direito à terra.

Os Kaiowá Guarani do Conselho Nacional de Política Indigenista, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e o consulto do MEC para os territórios etno-educacionais, consideraram positiva a visita, esperando que ela abra as porteiras para outras atividades, tanto na área de saúde como de educação, punição dos assassinos e o principal que é a urgente demarcação da terra indígena

* Egon Heck, Cimi 40 anos, equipe Dourados. Povo Guarani Grande Povo.

Fonte: Cimi MS

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