Ele é meu irmão

Rosa Clara Franzoi *

"Se o pobre representa a imagem de Deus, então nunca é demais o que fazemos pelos pobres" (Irmã Dulce).

O trem partiu de Salvador, Bahia, e seguia monótono em direção a Propriá, Sergipe. Poucos passageiros ocupavam os assentos dos vagões. Na estação de Três Rios, embarcaram mais algumas pessoas, dentre elas um senhor de idade, e pela aparência, muito pobre. Parecia um pouco assustado. Foi para o último banco do vagão e lá se acomodou. Antes da partida do trem, entrou o fiscal, e com tom autoritário, dirigiu-se a cada passageiro pedindo documento e passagem. Ao chegar diante do velho e vendo que ele não reagia ao seu pedido, começou a gritar e a chamá-lo de surdo. O velho se encolheu e balbuciou: "Eu preciso ir a Timbó, porque minha filha está morrendo; mas não tenho dinheiro". "Se não tem dinheiro pode descer; trem não é para vagabundos", gritou o fiscal. E pegando o velho pelo braço o arrastava à porta de saída do trem. Uma jovem, bem vestida, estava alguns bancos à frente. Virou-se para ver o que estava acontecendo. Como o fiscal continuava sua grosseria contra o pobre homem, ela gritou: "O senhor não pode fazer isto com ele". E o fiscal já bastante alterado: "Mocinha, fique quieta no seu lugar que isso não é da sua conta". E ela: "Como não é da minha conta, se ele é meu irmão?" Encarando o fiscal com seriedade, tirou da bolsa o dinheiro e pagou a passagem do homem. Depois, sentou-se ao seu lado, confortando-o por aquela humilhação constrangedora. Este fato marcou profundamente a decisão quanto ao futuro desta jovem; e anos mais tarde, ela seria a mãe carinhosa dos pobres da Bahia - irmã Dulce Lopes Pontes, que em breve será beatificada.

Importância das mediações
Embora a vocação seja pessoal, Deus não se apresenta fisicamente à pessoa para lhe dizer que a está chamando para esta ou aquela missão. Ele usa meios, mediações, que geralmente são acontecimentos, situações, pessoas. Deus fala através da história; daí a grande necessidade de estarmos atentos, sempre "ligados/as" a tudo o que acontece ao nosso redor.
Maria Rita - seu nome de batismo - era filha de Augusto Lopes Pontes, professor na cátedra de Prótese Dentária, na Universidade da Bahia. Ainda que tivesse ficado órfã por parte de mãe muito cedo, com apenas sete anos, ela cresceu cercada de amor e de carinho do pai e dos irmãos, que formavam uma bela família de cinco membros: três homens e duas mulheres. Maria Rita tornou-se uma adolescente e uma jovem viva, inteligente, alegre, muito observadora e atenta. Desde cedo, começou a captar o significado do exemplo que seu pai tinha pelo próximo. Ele fundara o Abrigo dos Filhos do Povo, no bairro da Liberdade e ali atendia, gratuitamente, os pacientes no posto odontológico da instituição. Com 13 anos, Maria Rita sempre que podia acompanhava a tia Madalena, irmã de seu pai, em seus trabalhos de caridade com a população mais carente da capital baiana. O choque inicial - pois tinha horror àquela miséria - aos poucos, foi se transformando em vontade de ajudar.

Anjo Bom
O testemunho de bondade do pai, da tia, a situação dos pobres da capital baiana, o caso do homem no trem... foram indicando a direção e sugerindo ao coração de irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia, o que Deus estava querendo dela, como vocação para o seu futuro.

* Rosa Clara Franzoi, MC, é animadora vocacional.

Publicado na edição Nº10 - Dezembro 2010 - Revista Missões.

Fonte: Revista Missões

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