Busca desenfreada por audiência

Ale Rocha *

Ratinho tem o direito de entrevistar Guilherme de Pádua, condenado pela morte da atriz Daniella Perez - assassinada em 1992, aos 22 anos, com 18 golpes de tesoura. Não há nenhum impedimento legal. A discussão pode ser levada até ao campo da moral e da ética. Prefiro, no entanto, restringir o assunto à busca desenfreada por audiência.

Após cumprir pena, todo condenado tem direito a seguir a vida. Esse, aliás, foi um dos argumentos utilizados por Ratinho para justificar a presença de Guilherme de Pádua em seu programa. O apresentador citou o Projeto Começar de Novo, iniciativa do Conselho Nacional de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, que tenta convencer a população para a necessidade de reinserir no mercado de trabalho e na sociedade os presos que já cumpriram suas penas.

Sob protestos antes mesmo da exibição da entrevista, Ratinho tentou se defender no Twitter. "Será que se o entrevistado tivesse assassinado a filha de um trabalhador comum os famosos se manifestariam?"

A pergunta leva a outro questionamento. Se o entrevistado tivesse assassinado a filha de um trabalhador comum, teria espaço no "Programa do Ratinho"? Qual o interesse jornalístico em Guilherme de Pádua?

Ao assistir a atração, era notável a ausência de pauta. O entrevistado não respondeu boa parte das perguntas. Sob o argumento de que poderia ser processado, utilizou a atração para propagandear sua nova vida como homem casado, trabalhador e temente a Deus.

Ratinho, novamente, tentou se defender no Twitter. "Não sou jornalista. Fazer um programa ao vivo, como o de ontem, é preciso ousadia. Porém, nem sempre conseguimos as respostas que queremos. O entrevistado era ex-ator, com experiência com o público. Foi preciso todo cuidado para conduzi-lo, pois ele poderia sair do estúdio."

O apresentador teve ousadia ao levar um condenado por um assassinato ao seu programa, mas não soube sequer arrancar dele a motivação para o crime brutal? Onde estava o Ratinho que adora esbravejar para a câmera, em arroubos de defensor do povo? Evidência de que não havia pauta na entrevista, apenas desejo por audiência.

No passado, já defendi Ratinho algumas vezes. Com seu estilo circense, é um ótimo comunicador com habilidade para comandar atrações de auditório. Porém, sempre pecou ao flertar com a baixaria.

Com a polêmica em torno da presença de Guilherme de Pádua, o "Programa do Ratinho" conseguiu oito pontos de média no Ibope. Muito pouco para um apresentador que, no passado, atingiu o primeiro lugar diversas vezes, em pleno horário nobre.

O público está vacinado contra o sensacionalismo. Hoje, Ratinho disputa as migalhas de audiência que restam aos programas que se digladiam para ver quem espirra mais sangue no sofá do telespectador. É o preço que se paga

* Ale Rocha, casado é jornalista e crítico de televisão.

Fonte: www.yahoo.com

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