Caminhando pelo Equador

Elaine Tavares *

A cidade de Quito é uma belezura. O chamado casco colonial parece sair das páginas de um livro. Não é à toa que foi tombado como patrimônio da humanidade. Tudo está muito bem conservado e a impressão que se tem é de que se está passeando pelas ruas de um longínquo 1800. As igrejas pulam em cada esquina, imensas, descomunais, expressão máxima da dominação. Toda a cultura originária está aplastada. O que assoma é a morada da aristocracia com seus solares, seus pátios internos, suas arcadas.

Muitas das casas hoje se transformaram em pequenos centros de compra e o contraste é inevitável. No meio da cultura colonial o que vende mesmo é o artesanato originário. Ou seja, o produto é a cultura autóctone, mas a arquitetura é a da dominação. Tudo acaba se integrando como o que de fato acontece nesta América mestiça. Nas ruas é a população indígena que aparece com mais vigor, imorrível, apesar de tantos anos de opressão. São originários os vendedores nas ruas, os pequenos comerciantes, a gente que caminha para lá e para cá, num afã febril.

Até mesmo antigos conventos passaram à condição de comércio e muitos chegam ao limite da heresia, o que parece estranho numa cidade tão católica. Contam que as dezenas de igrejas estão sempre lotadas nas missas, mas mesmo assim, fazem-se piadas com as coisas do sagrado. Uma delas diz respeito a um antigo monge, o padre Almeida, que costumava fugir do convento durante a noite para fazer cantorias com sua guitarra. Para sair pela alta janela ele tinha de escalar um crucifixo e pisar na cabeça de Cristo. Diz a lenda que um dia, quando o padre iniciava sua escalada para fora, ao pisar na testa cravejada de espinho de Jesus, ele teria suspirado e dito: Até quando, padre Almeida? E este, assustado, mas não persuadido de ficar no convento, teria respondido: Até a volta, senhor! Pois o lugar deste fato virou restaurante e ali está em destaque a figura do padre a fugir...

Ainda próximo a Praça Maior fica o solar de onde Manuela Saenz atirou uma coroa de flores para Simón Bolívar, quando este entrou na cidade, vitorioso. É uma casa imponente, toda rosa, cheia de janelas. Ali é ponto de peregrinação daqueles que sabem do que foi a força deste amor entre Manuela e Simón. No balcão parece bailar a paixão desesperante que levou aquela pequena mulher quitenha a se transformar na Cabaleresa del Sol, guerreira, indômita, senhora dos exércitos e libertadora do libertador. Seu nome ecoa pela cidade como um mantra e seu retrato está em todos os lugares. Ela, vulcânica, reina, deusa, na Quito das igrejas.

Também pelas estreitas ruas pode-se apreciar os "agachaditos", que são as comidas callejeras. Tudo o que se vende por ali tem algo de milho, a cultura ancestral. Qualquer coisa é "agachadito", pode ser uma fritura, um peixe, uma tortilla, uma sopa, um molho de galinha. Diz a lenda que o nome nasceu por conta do hábito de um antigo habitante que se fazia de dândi, metido a rico sem ter tostão. Ele andava pelas festas, vestido com roupas da moda, mas não tinha dinheiro para comer. Então, quando vinha a fome, ele buscava os vendedores de rua e comia seus quitutes. Para não ser visto pelos que o consideravam rico, ele se abaixava. Daí nasceu o "agachadito". Coisas divinas feitas por mãos populares.

Toda a cidade de Quito pode ser admirada de cima do Panecillo, uma dos montes que cercam a cidade. Este, por ter o formato de um pão é assim chamado: pãozinho. Ao chegar lá em cima outra cena surpreendente desta cidade sem igual. Impávida, domina a paisagem a estátua descomunal de uma virgem, representando a cultura religiosa que é tremendamente opressiva por ali. O curioso é que para mostrar que também respeita a visão dos vencidos, a cidade decidiu colocar sob os pés da virgem imensa, um artefato originário, uma olla, que representa uma espécie de vaso cerimonial das culturas indígenas. Mas, basta uma olhadela para se verificar o quanto aquilo é só um gesto ritual. Enquanto a virgem recebe cuidados e atenção, tendo, inclusive, uma iluminação belíssima, capaz de ser vista de qualquer ponto da cidade, a olla se mantém na escuridão, escondida e abandonada, ruindo sob a ação do tempo.

Do Panecillo também se pode ter uma visão deslumbrante da cidade. Dali, é possível observar como se deu a Batalha de Pichincha, comandada pelo jovem general José Antônio Sucre, em 24 de maio de 1822. Em menor número - ao pé do grande vulcão que leva o nome de Pichincha - mas com uma estratégia genial, o mariscal logrou vencer as tropas realistas e libertar Quito do jugo espanhol. Em pé, no beiral disponível sob a virgem, chega-se a ouvir os gritos da batalha, tamanha é a magia que se desprende na noite quitenha, iluminada como se tivesse milhares de fogueirinhas.

Outro lugar cheio de energia é o mercado de artesanato no bairro de Mariscal. Ali se concentram mulheres e homens que tecem a beleza da cultura originária. Muitos deles vêm da região de Otavalos, onde estão os kichuas. Impossível não se embasbacar com a belezaa das mulheres originárias, com suas saias pretas, blusas bordadas e o indefectível hualca , colar de contas amarelas que representa a riqueza da cultura autóctone. "Isso nos faz ter sempre em conta aquilo que nos dá a vida, o sol, o milho, além de ressaltar a beleza da mulher", dizem.

De resto, a cidade de Quito é cheias de outros escondidos encantos, como o mercado de Hipiales, onde se concentra o comércio popular. Ali, por entre as barracas, as gentes oferecem sacrifícios ao deus consumo. Isso sem contar os milhares de minúsculos bares e cafés que oferecem o tradicional "seco de chivo", que parece ser a comida mais pedida por ali. É feita com carne de bode e me pareceu delicioso. Também tem as dezenas de praças, grandes, pequenas, de todo o tipo, onde as gentes descansam sob o sol andino. Nas fraldas dos vulcões se amontoam as casinhas da gente mais empobrecidas. Mas nada que se compare às favelas brasileiras. Talvez por causa do frio rigoroso, todas elas, mesmo as mais simples, são de material. Luis Gavillán, que trabalha como motorista, esclarece que com Rafael Correa as coisas estão melhorando. "Eu votei nele quatro vezes e não me arrependi".

Outro ponto magnético é a pequena comunidade de Calacalí, a poucos quilômetros da capital. Ali, em meio a casinhas coloridas fica o exato lugar onde uma missão franco-espanhola, em 1736, mediu a metade do mundo, estabelecendo os equinócios e os solstícios. Um pequeno marco estabelece a linha e a pessoa pode ficar com um pé em cada hemisfério da terra. Não sei bem porque, mas algo nos atrai mais ao sul. Creio que é magia!

E assim é uma visão parcial desta cidade pulsante, cheia de contrastes e multicultural. Vigiada pelos vulcões que a circundam, por Sucre, por Manuela. Amada pelas gentes, espaço de disputas. Cidade/país em construção. E, por entre lutas, avanços e desacertos, os equatorianos seguem acreditando que por força de suas livres vontades, a vida vai ficar melhor. "Até hoje todos os presidentes desta república só nos roubaram. Agora, tem problemas, é fato, mas também há avanços incríveis. Nós vamos saber caminhar para um tempo melhor", diz Luis. "E vamos conquistar outro tipo de desenvolvimento que não este, predador, do mundo neoliberal", ensina Gonzalo Guzmán, líder indígena. O rosto altaneiro dos grandes caciques dos povos originários do Equador, que estão unidos em assembléia numa praça em frente ao teatro da Universidade Central, parecem concordar. Haverá de estar sendo gestado um novo Equador. Pluricultural, livre.

* jornalista

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