O Gênesis para nossos dias

Jean Hébette*

O segundo capítulo do livro do Gênesis demonstra como, em tempos imemoriais, as populações que deram origem ao povo de Israel e aos povos que lhe sucederam na fé transmitiam, de geração em geração, a história da gênese de nosso universo. Trata-se de uma maravilhosa narração, cheia de símbolos bastante expressivos para a cultura agrária daqueles tempos. Aquela explicação foi substituída, em tempos recentes, por uma mais coerente com a cultura e a ciência modernas. Uma e outra explicação têm seus méritos, embora não respondam completamente à nossa sempre inquieta razão.

Pode ser bom voltar a refletir sobre o rico simbolismo da narração mais primitiva. Ao dizer que Iahweh, para cuidar do solo ainda estéril, moldou o homem com o próprio barro, insuflando-lhe seu espírito, o Gênesis, mais preocupado com nossos comportamentos e práticas do que com nossas teorias, estabelece nosso laço original com a terra.

Ao complementar que Iahweh tirou da carne do homem sua companheira, a mulher, o Gênesis estabelece simbolicamente o segundo laço fundamental da nossa existência humana: a relação entre os gêneros, que garantiu sua multimilenar reprodução.

Das entranhas da terra e das entranhas dos gêneros procedem nossa vida e nossa sobrevivência. A adesão ao Gênesis, ao big bang ou a ambos deveria nos engajar no maior desafio de nossos tempos: cuidar de nosso éden. Dessas entranhas harmoniosamente conjugadas nasce a vida, geram-se as riquezas, obtêm-se as melhores satisfações e alegrias.

Dessas entranhas dissociadas ou pervertidas nascem, por sua vez, as mortes violentas, as catástrofes, as dores e tristezas. Espetáculos diariamente ilustrados nas páginas dos jornais e na televisão: pais, filhos, irmãos, amigos revoltados, chorando a morte trágica de um ser querido por assassinato, tortura ou acidente de trânsito; despejo de índios de seus territórios ancestrais; exploração perversa da terra e de seus trabalhadores, expulsos de seus lotes ou submetidos ao trabalho semiescravo; dizimação de etnias pela fome, consentida – se não provocada – pelos repletos de riqueza.

Aos leitores e seguidores da Bíblia cabe lembrar aquele Sopro de onde, pela fé, lhes vem o indispensável laço com seu Deus e a necessária força para lhe ser fiel.

* Teólogo, professor, atua na área de sociologia rural.

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