Partilhar a vida com os pobres

Cristiane Oliveira *

Quatro anos atrás fui enviada como missionária para a Etiópia - África. Ao chegar lá fiquei morando na capital (Addis Abeba) durante um ano, com o objetivo de estudar o amárico, que é uma das 83 línguas faladas no país. Em seguida parti para uma missão junto ao povo Gumuz, uma das mais pobres e abandonadas tribos indígenas etíopes.

O abandono dos Gumuz se dá por parte do governo, mas também pela Igreja Ortodoxa que os considera selvagens. Cheguei para ficar com esse povo num dia próximo da Semana Santa. Lembro que na Sexta-feira da Paixão, nós irmãs e os missionários combonianos, que moram a doze quilômetros da nossa casa, éramos os únicos católicos na celebração. Para mim foi um choque, pois me lembrava das igrejas do Brasil, que são sempre lotadas nesse dia. Aos poucos as pessoas foram vendo o nosso trabalho, como vivíamos e como os tratávamos e logo começaram a se interessar por nós e pela nossa religião. Hoje, temos um grupo de setenta católicos e outros que estão se preparando para receber os sacramentos.

No geral o povo etíope, Gumuz ou não, é bastante acolhedor e pacífico (talvez seja um dos mais tranqüilos de toda a África). A Etiópia possui uma cultura religiosa milenar e muito rica. Por causa disso, o povo é bastante religioso. É muito bonito ver como os jovens levam a religião a sério e como esta tem muita influência em tudo o que eles fazem. Só para se ter uma idéia: é muito difícil ver os jovens ouvindo músicas que não sejam religiosas. A prática do jejum é levada muito a sério não só entre eles, mas também pelos adultos e até pelas crianças.

Atualmente, na missão, somos quatro irmãs e o nosso trabalho é mais direcionado para a promoção das mulheres que são as mais injustiçadas daquela sociedade. Lá temos uma escola de jardim de infância, a qual tem uma tarefa bastante desafiadora, pois na sociedade do povo Gumuz quase 100% das pessoas nunca foram à escola. Portanto, é muito difícil conscientizar os pais sobre a importância da educação para o desenvolvimento do grupo. Aliás, muitos preferem levar os filhos para trabalhar na lavoura ou os deixam em casa cuidando dos irmãos menores que quase sempre são muitos, pois entre os Gumuz os homens podem ter várias mulheres, garantindo assim a bênção de uma descendência numerosa!

Temos também um posto de saúde que atende as pessoas que vivem dentro das aldeias e nos arredores e não tem acesso aos hospitais, que por sinal são pouquíssimos e precários em todo o país. Com a ajuda de um grupo missionário conseguimos comprar uma ambulância com a qual portamos as pessoas mais graves para o hospital mais próximo, que fica a cerca de 200 km da missão. Também utilizamos o mesmo veículo como "clínica móvel" que vai até as aldeias mais distantes duas vezes por semana para tratar, sobretudo, de casos de malária e febre tifóide, que são muito comuns naquelas regiões.

Com a ajuda de alguns doadores conseguimos fazer alguns projetos sociais como: poços artesianos, programas de educação para mulheres, treinamento para parteiras, cooperativas e outros. O meu trabalho é mais na área pastoral; primeiramente na formação e depois dos catecúmenos... Quase tudo precisa ser começado do zero. E todo esse trabalho só é possível por causa da ajuda generosa de católicos que sabem partilhar o pouco do que tem com quem recebeu menos ainda. Sem essas ajudas não seríamos capazes de fazer nada, nem mesmo de sobreviver lá.

Depois de alguns anos de missão senti a necessidade de me preparar melhor para esse trabalho desafiador... Atualmente estou em Curitiba e, se Deus permitir, em pouco tempo estarei de volta na Etiópia para ficar junto daquele povo que tanto amo e que já passou a fazer parte da minha vida.

* Cristiane Oliveira é Missionária Comboniana.

Fonte: http://ecooos.org

 

Deixe uma resposta

13 + 3 =