Ascese Solidária

Dom Walmor Oliveira de Azevedo*

A tirania do desejo e o entendimento de uma autonomia pelo direito de uso da própria liberdade, entre outros vetores, têm criado uma cultura pouco solidária em se considerando os padrões exigidos para um adequado enfrentamento dos problemas e demandas que são gritantes nos cenários mundiais contemporâneos. A referência a padrões adequados de solidariedade é convicção de que a solidariedade é um ingrediente indispensável para a configuração de uma nova compreensão cultural e uma definição nova de dinâmicas organizacionais e funcionamentos nas instituições e na sociedade. Na verdade, solidariedade, fonte de valor moral, é um remédio indispensável para as labutas desta hora. As definições estratégicas e os redesenhos na geografia da gestão não podem dispensar o exercício da solidariedade presidindo os corações e influindo nos processos de discernimentos e escolha de prioridades.

Do contrário, a hegemonia será dada a interesses e prioridades que geram, ao contrário de promover a superação, a exclusão, a cultura da desonestidade, a mesquinhez dos próprios interesses com a incapacidade de perceber a necessidade dos que precisam mais. Solidariedade, portanto, não pode ser um gesto esporádico ou um ato pontual na vida de alguém para alguém. O entendimento de solidariedade é a exigência de reconhecer, no conjunto dos liames que unem os homens e os grupos sociais entre si, o espaço oferecido à liberdade humana para prover o crescimento comum, compartilhado por todos. A aplicação nesta direção se traduz no positivo contributo que não se há de deixar faltar à causa comum e na busca dos pontos de possível acordo, mesmo quando prevalece uma lógica de divisão e fragmentação; na disponibilidade a consumir-se pelo bem do outro para além de todo individualismo e particularismo, aponta o Magistério da Igreja Católica.

Na verdade, a convicção que precisa ser recuperada e fecundada é de que o princípio da solidariedade exige que os homens e mulheres deste tempo cultivem a consciência do débito que têm para com a sociedade em que estão inseridos. A consciência deste débito supõe uma novidade na conduta humana contemporânea. A proposta é o cultivo de uma ascese, isto é, uma vida ascética como possibilidade de crescimento e avanço numa configuração menos indiferente, egoísta e perversa que têm marcado as feições deste tempo. Isto significa compreender e assumir um novo discernimento a respeito da própria vida, do exercício das próprias responsabilidades e a co-responsabilidade pelo bem de todos e pelo crescimento da coisa pública. Ora, não se pode admitir mais que se pense e organize a própria vida, fazendo uso do que está disponível para o bem de todos, com a meta de atendimento, a todo custo, dos próprios interesses e mesmo das próprias necessidades.

Esta direção é a direção do fracasso de qualquer sociedade ou grupo humano. Cria-se o desejo tirânico e a convicção do direito de se usufruir de tudo sem comprometer a própria comodidade, devendo lutar, egoisticamente, para garanti-la previamente. Assim, a ascese é o conjunto de esforços para progredir na vida moral, religiosa, política e cívica. É preciso esforço e método para se alcançar um modo de viver mais digno e mais solidário em se pensando os mais pobres e sofredores, aos milhares nos diferentes cenários do mundo. O esforço não pode ser apenas para se conquistar comodidades e garantias. Há um esforço indispensável para se alcançar uma compreensão e conduta moral que alavanquem a vivência cidadã pautada por valores cidadãos, pelo altruísmo, pela capacidade e gosto de fazer esforços e mesmo sacrifícios pelo bem dos outros.

Esta é uma proposta na contramão da cultura atual. Mas, indispensável sob pena de fazermos da sociedade contemporânea um verdadeiro inferno de disputa e usufruto desenfreado de tudo, valendo qualquer coisa, desde que se atenda a necessidade tirânica do desejo ou a convicção do direito de respeito à própria liberdade a qualquer custo. Ascese solidária é uma exigência que adverte e aponta acerca dos excessos que estão na configuração do viver contemporâneo, acentuando a exclusão e perpetuando barbaridades contra pessoas e instituições, impedindo crescimento, atualização e novas respostas. Por isso, muitos não querem mudanças de nenhum tipo, em nada do que é seu com medo de não mais viver as ilusórias e medíocres garantias de comodidades.

Dom Hélder Câmara, o pastor da paz e irmão dos pobres, nas comemorações do seu centenário de nascimento neste ano, do seu coração fez nascer uma grande indicação, numa de suas poesias: "Não desça da Cruz! Que será dos homens se teu sacrifício parar no meio? Deixe que se arrastem as três horas intermináveis. Espera o fel para os teus lábios e oferece o peito para o rasgão bendito. Fica até o fim. Ensina ao mundo a distinção essencial entre acabar e consumar-se."

*Arcebispo de Belo Horizonte

Fonte: CNBB

 

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