A Igreja em busca de um caminho

Carlos C. Santos *

O OLHAR DO PASTOR

No dia 12 de fevereiro de 2009, tive a honra, o privilégio e a alegria de ser recebido por Dom José Eugênio Corrêa, entre nós conhecido como Dom Corrêa, que me concedeu uma longa e belíssima entrevista. Aos 95 anos de idade, Bispo Emérito de Caratinga e Padre Conciliar no Concílio Ecumênico Vaticano II, Dom Corrêa reúne qualidades como lucidez, sabedoria, humildade, bondade e, sobretudo, um grande amor pela Igreja e pelo Concílio. Este, entre muitos outros, foi tema do nosso diálogo na entrevista que segue.

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Carlos: Dom Corrêa, durante 21 anos o senhor esteve à frente da Diocese de Caratinga. Entre as boas notícias que chegavam daí, estava a de que o senhor iniciou seu trabalho, descentralizando o poder para dividir as responsabilidades, como ensina, por exemplo, Jetro a Moisés (cf. Ex 18,13-27). Diz-se que o senhor começou valorizando, em especial, o laicato e os ministérios confiados aos leigos e leigas. Como isto aconteceu na prática?
Dom Corrêa: Quando cheguei em Caratinga a realidade da Diocese era muito difícil. Basta lembrar que em 1957, quando fui nomeado, não havia acontecido o Concílio, o que tornava a situação ainda mais complexa. Intuí, então, que uma boa alternativa seria dividir a Diocese no que, na época, chamávamos de decanatos ou, como conhecemos hoje, regiões pastorais. E assim o fiz. Esta iniciativa foi o grande dom do Espírito para a Igreja de Caratinga. Através dela conseguimos dar novo vigor à missão, juntando os poucos padres dispersos e investindo, simultaneamente, no trabalho vocacional para formar presbíteros com espírito e projeto missionário. Ao mesmo tempo, apostamos nos leigos e leigas, procurando promovê-los, oferecendo-lhes a formação adequada para torná-los capazes de assumir seu batismo e atuar vivamente na Igreja, ocupando seu lugar.

Carlos: Ouvi dizer que quando o senhor chegou a Caratinga, no primeiro encontro com o presbitério, o senhor teria dito aos padres: "Vim aqui para evangelizar. Vocês podem fazer tudo o que um bispo faz, exceto ordenar outro padre porque isso é específico do Bispo. Quanto ao mais, deixem-me livre para evangelizar". Isto é verdade?
Dom Corrêa: Sim, é verdade. A missão de todo batizado é o anúncio do Evangelho: "Ide pelo mundo todo e anunciai a Boa Notícia para toda a humanidade" (Mc 16,15). De acordo com este mandato do Senhor, o Bispo, para cumprir fielmente sua missão, deverá ser o primeiro grande evangelizador de sua Igreja Particular.

Carlos: No seu conjunto, o senhor avalia toda esta experiência como positiva? Ou seja, ela contribuiu para que a Igreja de Caratinga crescesse em comunhão e participação, no serviço ao Povo e ao Reino de Deus? Como?
Dom Corrêa: Julgo que foi uma aventura que deu certo. Se olhamos ainda hoje para a Diocese de Caratinga, logo é possível perceber que se trata de uma Igreja amadurecida, adulta. A caminhada foi certamente difícil. Iniciamos e demos seguimento ao trabalho vocacional em tempos de crise. Mesmo assim conseguimos construir o Seminário que proporciona a filosofia e teologia, sempre acompanhadas de uma consciência indispensável da missionariedade do presbítero. É uma Igreja que hoje pode se vangloriar de poder enviar padres para a Amazônia ou para as "terras de missão" espalhadas por todo o país. Também os leigos foram formados com fundamentação bíblica, catequética, litúrgica etc. e, por isso, estão aptos a colaborar nos projetos de evangelização. No meu último encontro com o Bispo atual de Caratinga ele me dizia que a Diocese conta com cerca de cinco mil CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que oferecem sua parcela de contribuição para fermentar o Evangelho na massa. Por tudo isso damos graças a Deus que mantém vivo e atuante seu Espírito agindo no meio do povo.

Carlos: Olhando para as datas logo é possível dar-se conta de que o senhor renunciou ao governo pastoral de Caratinga muito cedo, aos 64 anos. Por que? Algum motivo especial?
Dom Corrêa: Um primeiro motivo é de saúde. Estou hoje com 95 anos de idade, mas costumo dizer que vivi tanto porque sempre fui doente. E, quando a gente é doente procura cuidar-se melhor, vai mais ao médico, está mais atento às reações do organismo etc. Talvez, por isso, Deus ainda me conserve com vida. Pois bem, este já seria um motivo suficiente. Mas há também outros que estão relatados na minha Carta de Despedida da Diocese de Caratinga. Nela falo, sobretudo, da importância de renovar e entregar a condução da Igreja a gente mais jovem que tenha capacidade, vigor, entusiasmo e criatividade e que, por conseguinte, contribua mais eficazmente para rejuvenescer a Igreja.

Carlos: Caratinga é referencial importante e uma das pioneiras na promoção e valorização das CEBs. Como tudo começou?
Dom Corrêa: Pois é, quando cheguei lá, nem se ouvia falar em CEBs. Elas começarão a ser conhecidas mais de dez anos depois, com a Conferência de Medellín (1968). É aí que vejo a importância de se aproveitar o que se tem. Não tínhamos CEBs, mas tínhamos os Vicentinos que eram numerosos. As Conferências Vicentinas se reuniam, primeiro para rezar, depois, com o tempo e a formação, para rezar e para a celebração do culto. Tomamos, então, um antigo, mas muito bom, manual de religião do Pe. Negromonte e o espalhamos pela Diocese inteira. Com o passar do tempo, foi despertado em todos o interesse pela reflexão bíblica nos Círculos Bíblicos. Não demorou muito e começamos a chamar as Conferências dos Vicentinos de Conferências Religiosas Populares que, por sua vez, deram origem às nossas CEBs. A partir daí, uma rede de comunidades se constituiu em toda a Diocese, reunindo-se nas varandas, nas casas, debaixo de árvores, cumprindo a missão de fermentar toda a Igreja Particular.

Carlos: As CEBs já foram definidas como o "novo/velho jeito de toda a Igreja ser". Mas também já houve quem as entendesse como "um dos jeitos" de ser Igreja (em relação com muitos outros). A partir de sua experiência, o senhor acredita que as CEBs são "um jeito" de ser Igreja ou "o jeito" de ser Igreja?
Dom Corrêa: As CEBs são "o jeito" de ser igreja. E a fundamentação é muito simples. Somos criados à imagem e semelhança de Deus que é uma comunidade de amor, de justiça e de vida, a Trindade. A Igreja não tem outro sentido de existir no mundo, se não o de ser imagem e semelhança de Deus e, portanto, da Trindade. Por isso, as CEBs não são "um jeito", mas o único jeito de ser Igreja, em conformidade, por exemplo, com as primeiras comunidades (cf. At 2,42-47; 4,32-37).

Carlos: O que propriamente faz com que as CEBs sejam diferentes de movimentos ou pastorais da Igreja. Ou, em outras palavras, qual a identidade das CEBs?
Dom Corrêa: Veja bem, CEBs, como disse, é o único jeito de ser Igreja, enquanto pastorais, movimentos, associações, e outros, são atividades, serviços que são prestados pela Igreja nas comunidades e paróquias. Deste modo, a identidade das CEBs é ser sal e luz (cf. MT 5,13.14) que fermenta essas atividades e serviços, para que produzam frutos e contribuam para a construção do Reino de Deus no mundo do trabalho, da família, da escola, do lazer, da política...

Carlos: Em recente publicação[1] que é homenagem póstuma ao Cardeal Dom Aloísio Lorscheider, ele diz: "A Igreja necessita das comunidades eclesiais de base no mundo de hoje, sobretudo no mundo dos empobrecidos, dos marginalizados, dos esquecidos. A Igreja é e deve ser essencialmente comunidade de fé e de luta, construindo laços fraternos de verdade, não apenas agregar multidões e entretê-las. Todos os movimentos católicos e todas as pastorais devem ter as CEBs como modelo, como forma de ser Igreja". O senhor acredita que as CEBs, ainda que sem a visibilidade do passado e atualizadas para o contexto do nosso tempo, podem conservar a mesma força de atuação e transformação da sociedade e da Igreja?
Dom Corrêa: O Cardeal Lorscheider, brilhante como sempre... Homem de cultura e sabedoria finas, conciso e claro como a luz e, talvez, por isso, tão afinado e comprometido com os pobres. É daqueles homens que nunca deviam morrer... Estou totalmente de acordo com o que ele diz. As CEBs foram, são e sempre serão o abrigo dos pobres, dos excluídos, dos mais humildes, dos que não têm outro espaço para dizer e fazer, para ver respeitada sua dignidade. E é assim porque Jesus veio para os pobres (cf. Lc 4,18), para destinar a eles um lugar especial no seu Reino (cf. Mt 5,3) que começa aqui (Mt 12,28). As CEBs são lugar privilegiado de evangelização dos pobres, em que também os pobres evangelizam (cf. Lc 10,21), não para permanecerem pobres, mas para se transformarem a si mesmos, vencendo as causas da pobreza e transformando o mundo à luz do projeto de Deus que é vida em abundância para todos (cf. Jo 10,10).

Carlos: Parece que o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) foi o principal dinamizador desta renovação da Igreja. O senhor participou dele como Padre Conciliar. Que mudanças o senhor apontaria como as mais importantes definidas pelo Vaticano II e que, de fato, provocaram o aggiornamento sonhado pelo Papa João XXIII?
Dom Corrêa: Bom, aqui convém lembrar que o principal entusiasta do Concílio era, de fato, João XXIII. Personalidade com carismas especiais: acolhedor, bonachão, alegre, espontâneo, humorista, de bem com a vida... Ainda guardo na memória o dia que recebeu os Bispos brasileiros para uma refeição. Rimos o tempo todo. Era uma pessoa admirável! Por causa desse seu temperamento, talvez tenha encontrado a expressão mais certa para realizar a obra a que se propunha: "O Concílio quer ser um abrir de portas e janelas da Igreja para que ela entre no mundo de ar novo". Ou seja, qual a proposta fundamental do Concílio? A renovação da Igreja. O que de fato aconteceu. No meu modo de ver, foi o maior Concílio depois de Pentecostes! Renovou e, para quem está aberto à ação do Espírito, continua renovando. Sim, porque o Vaticano II, como o Concílio de Jerusalém, narrado em At 15, foi obra e dom do Espírito Santo. O que é que para mim é o mais importante no Vaticano II? A Constituição Dogmática Lumen Gentium. Por quê? Porque coloca tudo e todos que estão relacionados à Igreja em seus devidos lugares. Os debates foram muitos e extensos. Num primeiro momento, o documento sugeria o capítulo sobre a hierarquia antes do capítulo sobre o povo de Deus. Depois de muita discussão e debates, muitas vezes, calorosos, conseguiu-se inverter a ordem que prevaleceu: o 2º capítulo sobre o povo de Deus e o 3º capítulo sobre a hierarquia. Qual a relevância desta mudança? Muito simples. A Igreja somos todos nós. A Igreja é primordialmente o povo de Deus (cf. 1Pd 2,9.10). Os pastores (hierarquia) são tirados do meio do povo (cf. Hb 5,1) para se tornarem seus humildes servidores, a exemplo de Cristo que não veio para ser servido, mas para servir (cf. Mt 20,28). Conclusão: no ensinamento do Concílio, quem "manda" é a Igreja que é o povo de Deus porque à Igreja inteira é prometida a infalibilidade (cf. LG 25c; ver também: LG 34b; 35a; DV 10a). É claro que isso exige uma mudança radical de mentalidade. Já evoluímos, mas ainda temos uma longa estrada pela frente. Talvez sejam necessários 200, 300 anos para mudar. O importante, no entanto, é que o Concílio abriu as portas. Agora é continuar motivando e mobilizando o povo de Deus para que se instrua e ocupe o seu lugar como protagonista, capaz de querer, de organizar, de mandar.

Carlos: O Concílio tem sido alvo, ao longo da história, de diversas interpretações. Há quem diga que foi precipitado; há quem defenda que foi profético e já estava na hora de mudar; há quem denuncie que muitos de seus documentos foram engavetados; há quem reivindique um novo Concílio; e, também há quem sequer conhece os documentos conciliares. E o senhor, o que diz?
Dom Corrêa: Tenho uma percepção muito clara de que em tudo está o dedo de Deus. O Concílio, sem sombra de dúvida, foi profético porque obra e graça do Espírito Santo. Mas é bom lembrar que há muita resistência ao Espírito. Curiosamente, quem se opôs, em primeiro lugar, ao Vaticano II foi a Cúria Romana, que não queria a renovação e não estava de acordo com nada. O Papa João XXIII se viu, então, obrigado a nomear uma comissão especial que foi trabalhando todo o processo, apesar do conservadorismo Cúria Romana. Quanto a se já era hora de mudar, para mim já passava da hora de mudar ou já era até tarde para mudar. Um atraso de 400 anos em relação a Trento, o que tornava a Igreja distante e fora do mundo, sem envolvimento e participação do povo de Deus, com pouco ou nenhum espírito missionário, enfim, totalmente anacrônica. É bem verdade que ainda não vivemos, nem realizamos plenamente o Concílio. Como você diz, muita gente sequer conhece seus documentos que são pérolas preciosas... Por outro lado, também acredito e defendo a idéia de um novo Concílio...
Carlos: ...Sim, quando convocou o Vaticano II João XXIII declarou que seria um Concílio pastoral... Tenho defendido a idéia de um Concílio que pode ser pastoral, mas que reflita também questões que levem a discernir o que, hoje, na Igreja, é do Espírito e o que é fruto de iniciativa pessoal ou da vaidade humana, ou até de fanatismos...
Dom Corrêa: ...Ah, sim... Certamente. Pois então, como vinha dizendo, vivemos novos tempos e novos desafios que são diferentes daqueles da década de 60. Estão aí colocados diante de nossos olhos os problemas relativos à tecnologia, à bioética, à ecologia, ao drama da AIDS, ao diálogo com as ciências, e muitos outros, e a Igreja, se de fato proclama a inculturação do Evangelho, deve encontrar respostas novas para o mundo moderno e ser a mãe da esperança para todos.

Carlos: Em 1968 o episcopado latino-americano celebrou a Conferência de Medellín (Colômbia), interpretada como a "recepção criativa" do Vaticano II para o nosso Continente. Aí a Igreja toma consciência de sua "latinoamericanidade" ou assume seu rosto latino-americano. Daí surgem, entre outras, a opção pelos pobres, pelas comunidades cristãs de base, sistematizadas, depois, pela TdL (teologia da libertação). Qual a importância dessas opções para um continente, como o nosso, majoritariamente pobre e oprimido?
Dom Corrêa: O Concílio Vaticano II cumpriu seu objetivo de lançar um olhar sobre o mundo, abrir-se para dialogar com ele e oferecer propostas para transformá-lo no Reino de Deus, que é Reino de amor e de justiça. Mas a Igreja deve se adaptar às diversas realidades sociais, econômicas, políticas, culturais. Ora, o problema grave e que contradiz o projeto de Deus na nossa América Latina é o do empobrecimento e miséria das massas excluídas. Deste modo, a opção pelos pobres, como as CEBs e a teologia da libertação são caminhos inspirados pelo mesmo Espírito Santo que soprou, desta vez em Medellín, para organizar os pobres, de modo que possam enfrentar e superar todas estas situações emergentes, como a fome, a doença, o analfabetismo, o desemprego etc. Em uma palavra: a Igreja latino-americana inculturada será sempre mais fiel à sua missão se for Igreja dos pobres, para os pobres e com os pobres.

Carlos: Quem lança um olhar crítico sobre a realidade percebe claramente que cresceu, nos últimos anos, um movimento, em alguns casos até doentio, de resistência ao Concílio e às Conferências, sobretudo, de Medellín e Puebla (México, 1979). Este movimento tem expressões como o triunfalismo, o autoritarismo, o carreirismo, o culto à personalidade etc. A que o senhor atribui estes fenômenos que destoam tanto do Evangelho quanto dos ensinamentos conciliares?
Dom Corrêa: Duas palavras resumem tudo: vaidade e pecado. Nós, cristãos, seja leigo, padre ou bispo, se nos deixássemos conduzir pela Palavra de Deus, certamente erraríamos menos. E o que é que nos propõe a Palavra? "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" (Ecl 1,2). Qual a proposta que Jesus tem para seus discípulos? Que o maior seja o servo de todos (cf. Mt 23,11), que seja humilde como ele, que se fez obediente ao projeto do Pai até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2,8). Mais, à luz de uma teologia sadia e da eclesiologia conciliar, uma reflexão sobre a Trindade (comunhão do Pai, com o Filho, no Espírito Santo) ou sobre o Corpo Místico de Cristo (cf. 1Cor 12,12ss), nos leva a compreender que a Igreja não pode ser constituída de superiores e subalternos, mas é fundamentalmente comunhão fraterna, onde todos têm um só coração e uma só alma (cf. At 4,32).

Carlos: A partir deste movimento de restauração ou de "volta à grande disciplina" (Pe. Libânio) são relembrados pastores que andavam no meio do Povo, comungando de sua vida e de sua luta. Entre eles estão Dom Hélder Câmara, Dom Aloísio Lorscheider, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno, e tantos outros, que fazem parte da chamada "geração de Medellín". O que caracterizou propriamente, para o senhor, o ministério desses irmãos Bispos?
Dom Corrêa: Pastor é aquele que pega a ovelha e a põe no ombro, amando-a e tratando dela com carinho e compaixão, mas jamais com brutalidade (cf. Ez 34,4). Pastor não é quem se apascenta a si mesmo (Ez 34,2), mas quem dá a vida por suas ovelhas (cf. Jo 10,11). A primeira Carta de Pedro nos traz uma síntese bonita da missão do pastor: "Cuidai do rebanho de Deus que vos foi confiado, não por imposição, mas de livre e espontânea vontade, como Deus o quer; não por causa de lucro sujo, mas com generosidade; não como donos daqueles que vos foram confiados, mas como modelos para o rebanho" (1Pd 5,1-3). Se os Bispos que você citou, entre muitos outros, são admiráveis e têm seus nomes inscritos no céu (cf. Lc 10,20), é porque souberam repetir no meio do povo a imagem viva e atual do Cristo Bom Pastor.

Carlos: Diálogos noturnos em Jerusalém é o novo livro do Cardeal Martini [2] que está fazendo grande sucesso dentro e fora dos meios eclesiásticos. Aí ele defende algumas das teses importantes do Vaticano II: o rejuvenescimento da Igreja; sua abertura ao mundo e capacidade de dialogar com o diferente; sua solicitude pela juventude, a partir de suas experiências e de seus valores; enfim, sua parceria com a humanidade toda, na luta contra o mal para defender a vida. O senhor está convencido de que estas são mesmo alternativas para que a Igreja volte a reatar com a humanidade, tornando-se parceira e samaritana (cf. Lc 10,30-37)?
Dom Corrêa: O Cardeal Martini... Outro ser humano exemplar. Sábio e sereno. Totalmente despojado do poder. Foi papabili, mas teve a humildade de renunciar por motivos de saúde. Mesmo assim, era meu candidato favorito. O mundo acolhe e lê entusiasmado seus escritos que falam para o nosso tempo. Como Arcebispo de Milão, a maior Arquidiocese do mundo, mantinha um programa radiofônico que era das maiores audiências já vistas. Quanto às propostas do Cardeal Martini, estou plenamente de acordo. É o único caminho, mais que claro e necessário. Só uma Igreja jovem, aberta, acolhedora, dialogante, ecumênica, parceira e solidária, comprometida com o Reino e com os pobres, pode resgatar os valores do Vaticano II e, quem sabe, conforme nos inspire o Espírito, levar-nos a celebrar um novo Concílio.

Carlos: Um colega me contava, sensibilizado com o amor que o senhor demonstra ter pela Igreja, que em uma de nossas assembléias de presbíteros o senhor resumia sua fala, conclamando, emocionado e enfaticamente, os presentes a "viver o Concílio". O que o senhor queria dizer precisamente com este apelo?
Dom Corrêa: Queria dizer que o Concilio é obra da Igreja e do Espírito Santo. Por isso, tanto quanto amamos a Palavra de Deus, devemos amar também o Concílio. Mas, como já lembrava o apóstolo, ninguém ama o que não conhece. Para conhecer, porém, é preciso abertura de espírito, ler, refletir, estudar, aprofundar. Quantos de nós ou daqueles que se encontram hoje em processo de formação para o ministério ordenado lemos e conhecemos os textos conciliares?

Carlos: Confesso que tenho até receio de fazer uma estatística...
Dom Corrêa: Pois é, este seria o primeiro grande passo: conhecer as pérolas preciosas que estão contidas no Vaticano II para, então, num segundo momento, acolhê-lo de coração e realizá-lo de maneira plena em nossa vida. Foi isto que quis dizer.

Carlos: Este ano estamos celebrando o centenário do nascimento de Dom Hélder Câmara que, como o senhor, colaborou para a realização do Vaticano II. Certamente, no Concílio, os senhores estiveram perto um do outro. O senhor teria alguma mensagem sobre a pessoa e a obra de Dom Hélder?
Dom Corrêa: Outro imortal, Dom Hélder Câmara. Um detalhe importante, que talvez nem todos conheçam, Dom Hélder era filho de maçons, o que certamente contribuiu para fazer dele o ser humano especial que era: acolhedor, aberto ao diálogo com todos, compreensivo, cheio de misericórdia e compaixão, sobretudo pelos mais pobres. Pastor, profeta, poeta e santo, sem nunca ter deixado suas marcas de origem: humildade, simplicidade, pobreza evangélica. Durante todo o Concílio, na Domus Mariae, era ele que tinha o poder de convocação, assumia a liderança e tomava a dianteira. Devemos, especialmente a ele, os muitos encontros com os peritos, discussões e debates calorosos que nos foram ajudando a ver a realidade no seu conjunto, para que o Vaticano II viesse a ser o que, de fato, foi: a renovação da Igreja que se converte aos sinais dos tempos e entra de ar novo no mundo, superando o grande déficit com a história. Defensor implacável dos direitos dos pobres, Dom Hélder é e será sempre modelo para a Igreja discípula e missionária que repete, no mundo, as palavras e os gestos do seu Senhor.

Carlos: Dom Clemente Isnard, Bispo Emérito de Nova Friburgo, RJ, e também Padre Conciliar, em opúsculo intitulado Reflexões de um Bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais,[3] levanta algumas quaestiones disputatae que foram ventiladas pelo Concílio, mas permanecem pendentes. Entre elas estão: a participação do Povo de Deus nas nomeações episcopais, a desburocratização da cúria romana e nunciatura, o celibato obrigatório, a ordenação de mulheres etc. O senhor considera que um debate amplo sobre essas questões, com eventuais encaminhamentos em perspectiva evangélica e pastoral, poderia contribuir para dar maior qualidade à missão no Brasil e na América Latina?
Dom Corrêa: Mais um grande Bispo, Dom Clemente... Grande liturgo a quem devemos a renovação litúrgica, lembrando que o Movimento Litúrgico por ele liderado começou antes mesmo do Vaticano II, no Rio de Janeiro. Por muitos anos foi Presidente da Comissão de Liturgia da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Graças à sua iniciativa abençoada, tivemos a felicidade de evoluir na liturgia que, depois do Concílio, se abre para a língua vernácula, tornando-se mais popular, mais participativa, mais inculturada. Dom Clemente esteve também na Vice-presidência da mesma CNBB e do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). Toda essa experiência faz, evidentemente, com que sua palavra tenha peso. No que diz respeito às suas propostas, tomemos logo, por exemplo, a questão das nomeações episcopais. Não pretendo aqui desqualificar a proposta, mas, fazendo o papel do "advogado do diabo", oferecer elementos para discernir a questão. Os bispos hoje são nomeados através de uma sindicância sigilosa, em que os nomes dos que são apresentados são preservados.

Carlos: Sim, mas o problema é que já não se nomeiam bispos como o senhor e tantos outros da geração do Concílio e de Medellín... (rsrsrsrs)
Dom Corrêa: É, pode ser (rsrsrsrs)... Nesta maneira de fazer, como ia dizendo, ninguém fica difamado. Não vivemos mais os tempos do Novo Testamento. Os tempos são outros. Hoje se você convoca uma assembléia (leigos, presbíteros) para escolher o bispo, com certeza haveria a interferência midiática, política etc., e poderíamos acabar contribuindo para a difamação das pessoas. Tudo bem, mas e você, como acha que deveria ser?

Carlos: É claro que agora o senhor traz um elemento novo, que nunca havia pensado. Contudo, quando se fala em participação do povo na escolha do bispo, penso que não se trata de reunir todo o povo de Deus, o que, na prática, seria até inviável, mas reuni-lo por representatividade (representantes, por exemplo, das comunidades de uma Igreja Particular). Em conversa recente com um colega biblista, ele acrescentava a este processo de eleição, depois de se chegar a uma lista de três ou quatro nomes proposta pela assembléia, uma última etapa que já não seria a de eleger um dos escolhidos, mas a de sortear o novo bispo. Este modelo, fundamentado no Novo Testamento, exclui toda eventual ingerência política.
Dom Corrêa: É, interessante, mas mesmo assim, no mundo globalizado de hoje, acredito que sempre será um risco. Em qualquer hipótese, para todas as questões levantadas por Dom Clemente, penso que vale o que disse em relação aos avanços do Concílio. Precisamos evoluir na mentalidade e no coração. O povo de Deus deve se instruir à luz do Concílio, de Medellín, agora de Aparecida também, e deve se organizar para poder mandar. É claro que são questões que merecem debates, reflexões, aprofundamento, discernimento. Quem sabe sejam necessários séculos ou até milênios para se chegar ao que se pretende, mas o importante é sempre começar. Confio muito no Espírito que age através da história e estou convencido de que ele, no momento certo, soprará, como sempre o fez, para conduzir a Igreja de modo mais evangelicamente conveniente.

Carlos: O Evangelho, no seu conjunto, estabelece o princípio misericórdia e Jesus é a revelação mais plena do rosto amoroso e misericordioso do Pai. A partir desta fundamentação evangélica, o senhor acha justificável a reinserção de divorciados ou casais que vivem uma segunda união na Igreja e, por conseguinte, nos sacramentos?
Dom Corrêa: Pois é, estamos fazendo isso devagar. Moralistas conceituados como Bernard Häring, Marciano Vidal e outros, e a própria Igreja em alguns de seus setores, contribuíram com suas reflexões para compreendermos que cada situação é única e, como tal, deve ser avaliada. Há dioceses que caminharam mais timidamente, há outras que já enfrentam e debatem o assunto, promovendo inclusive encontros com os chamados "casais de segunda união". Em suma, também para este caso, o princípio continua sendo o mesmo: precisamos evoluir, mudar a mentalidade, converter-nos e educar-nos para acolher a todos, olhando cada caso, e sendo misericordiosos com todos, como foi Jesus.

Carlos: Questão não menos pertinente que teólogos renomados e até o Papa João Paulo II levantou (cf. Ut Unum Sint, 88-96) é a da necessidade de uma revisão corajosa do ministério de Pedro. O argumento fundamental é que o modo do Bispo de Roma exercer o ministério da unidade não pode nem deve ser impedimento para o diálogo ecumênico, "macroecumênico" e inter-religioso. O senhor acha possível encontrar uma forma de exercício do ministério petrino que, sem renunciar ao que é característico de sua missão, se abra a uma situação nova (cf. Ut Unum Sint, nº 95)?
Dom Corrêa: O problema aqui vem lá do Vaticano I, que deixou o Papa muito autoritário. Por isso, urge resgatar outro princípio fundamental do Vaticano II: o da colegialidade. A colegialidade é oposta ao autoritarismo. A Igreja é colégio presidido pelo Papa na caridade. O Papa, portanto, não age conforme sua própria cabeça ou segundo seus próprios critérios, mas em colegiado. Em colegiado ouve, dialoga, pondera, conduz a um consenso e, só então, decide colegiadamente o que for melhor para o bem de toda a Igreja. Um exemplo, no meu modo de ver, infelizmente negativo, foi o que aconteceu no pontificado de João Paulo II em relação à Arquidiocese de São Paulo. Você lembra disso?...

Carlos: ...sim, claro!
Dom Corrêa: Então, um Papa conservador, Dom Paulo Evaristo Arns progressista, o Papa vai e divide toda a Arquidiocese sem consultar o Cardeal. Não vi o fato como justo. Se trabalharmos, portanto, para resgatar o sentido mais profundo da colegialidade o Papa será o que é por vocação e missão: "Servo dos servos de Deus"; Bispo de Roma que, em comunhão com os demais bispos, seus irmãos no episcopado, aspira a unidade que não é uniformidade e, por isso, respeita as divergências; Pastor ecumênico em relação com todas as Igrejas, com todos os credos e com todos os que, mesmo inconscientemente, lutam pela construção do Reino, como lembrava o grande teólogo Karl Rahner; aberto ao diálogo com todos e com o mundo moderno, que exige novas respostas para os novos problemas.

Carlos: O DA - Documento de Aparecida (Brasil, 2007) foi acolhido como "novo impulso à missão continental" e defende, entre outros, o protagonismo das mulheres, vítimas de exclusão social e eclesial. Em que consistiria, especialmente para a Igreja, resgatar a dignidade feminina?
Dom Corrêa: Trata-se de um campo que, sem dúvida, precisamos avançar, mas também vejo que passos importantes já foram dados. Já iniciamos. Já podemos ver mulheres que ocupam seus lugares tanto no governo civil quanto eclesial. Felizmente há mulheres teólogas, mulheres biblistas, mulheres que conduzem a animação e coordenação de comunidades e paróquias. O DA que você cita apresenta uma boa síntese sobre a importância da mulher, já não como objeto, mas como protagonista de uma nova sociedade e uma nova Igreja: "Nesta hora da América Latina e do Caribe é urgente escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas. Entre elas, as mulheres pobres, indígenas e afro-americanas têm sofrido dupla marginalização. É urgente que todas as mulheres possam participar plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão" (DA 454). Por isso, no que se refere propriamente à comunidade de fé, é preciso "garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios que na Igreja são confiados aos leigos, como também nas instâncias de planejamento e decisão pastorais, valorizando sua contribuição" (DA 458b).

Carlos: Outra questão que não foi resolvida é a dos padres casados. O mesmo DA chega a propor uma relação amistosa, de aproximação, sem, contudo, solucionar o problema (cf. nº 200). Levando em consideração a extensão do Continente, os apelos da missão e o anseio das comunidades por partir e repartir o Pão da Palavra e da Eucaristia, estes irmãos presbíteros não poderiam e deveriam ser reintegrados ao ministério?
Dom Corrêa: Hoje já há pelo menos abertura para falar desta situação concreta. Há dioceses em que padres casados participam ativamente e dão sua parcela de colaboração importante e eficaz no projeto de evangelização. Dom Aloísio Lorscheider, por exemplo, sobre quem já falamos, mantinha, em Fortaleza, uma relação muito estreita de acolhimento e respeito por esses nossos irmãos. De modo que o processo é lento. É assim na Igreja. Tudo depende sempre, na minha maneira de ver, por um lado, da mudança de mentalidade e da evolução das mentes e, por outro, da ação do Espírito que conduz a Igreja.

Carlos: Nosso saudoso e inesquecível Dom Hélder profetizou: "Temos de entrar no terceiro milênio sentados a mesa, comendo, saudáveis, fraternos, abrigados do frio, da chuva e do vento". A Igreja, em muitos de seus documentos, é portadora desta boa nova para os pobres e excluídos, vítimas hoje da "ditadura do mercado". Mas quando chega a hora de praticar, cai naquele velho engodo que separa fé e vida, celebração e ação, compromisso cristão e luta pela justiça. Como transformar a palavra em ação libertadora, para que a Igreja volte a ser a casa de todos, que abriga e acolhe a todos?
Dom Corrêa: A realidade que vivemos hoje é fruto do egoísmo, do individualismo, da violência contra os pobres, da injustiça, que têm raízes no pecado humano. Fomos nós que rompemos com o projeto de Deus e acabamos criando situações limites que degradam a natureza humana e ecológica, colocando em risco a vida, dom maior do Criador. Por isso, somos também nós os principais responsáveis pelas respostas a estes desafios que nós mesmos criamos. Neste sentido, é mais do que urgente passar da palavra à ação transformadora porque é a ação que transforma, e isso Jesus mostrou a todos com sua vida, morte e ressurreição. Estar hoje onde o povo está, lutando por dignidade e vida, é, sem dúvida, a missão da Igreja que queira ver, não o homem humilhado, mas, como ensinava Santo Irineu, "o homem de pé" para a glória de Deus e para a nossa libertação.

Carlos: Como palavra final, que mensagem o senhor deixaria para o povo brasileiro e latino-americano?
Dom Corrêa: Como Padre Conciliar exorto, em primeiro lugar, os presbíteros: leiam, conheçam e amem o Concílio Ecumênico Vaticano II. Garanto que vocês não se arrependerão. Nele encontramos tudo o que precisamos para atualizar a ação da Igreja de Jesus Cristo em nossa história, concretamente, na vida de nossas comunidades e paróquias. Depois, comuniquem este maravilhoso dom do Espírito, que é o Concílio, às suas bases, para que também o povo possa conhecê-lo e amá-lo. Num terceiro momento, já de posse do conhecimento e do amor pelo Concílio, será bem mais fácil trabalhar e lutar para transformar nossa realidade, ainda desumana e injusta, no Reino de Deus.

* Carlos C. Santos é presbítero da arquidiocese de Juiz de Fora e assessor das CEBs.

Notas:
[1] O GRUPO. Mantenham as lâmpadas acesas. Revisitando o caminho, recriando a caminhada. Fortaleza: Edições UFC, 2008. O livro pode ser encomendado por telefone: (85) 4009-7485 ou e-mail: editora@ufc.br.
[2] São Paulo: Paulus, 2008.
[3] São Paulo: Editora Olho d'Água, 2008.

Fonte: Carlos C. Santos

 

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