Em que tempos vivemos?

Fartura de bombas escassez de alimentos. Qual a situação atual dos indígenas Yanomami? O inferno de Darién.

Por Alfredo J. Gonçalves

Fartura de bombas escassez de alimentos. O desenrolar da guerra na faixa de Gaza estarrece até mesmo os corações e as nações mais empedernidos. Por uma parte, os palestinos são encurralados e atacados a ferro e fogo pelas tropas de Israel. Por outro, impedidos de receber alimentos e ajuda humanitária, não de Israel, mas de várias nações que se solidarizam com essa população abandonada. Em outras palavras, a fome pura e simples tornou-se uma arma da própria guerra. Uma chantagem imperdoável diante de milhares de crianças subnutridas. Semelhante situação conduz à pergunta inevitável: quem ganha com os conflitos bélicos hoje dispersos por várias partes do planeta? Somente quem fabrica e quem comercializa com a armas. E estas com potencial de destruição cada vez mais avassalador. Tem razão o Papa Francisco quando fala em Terceira Guerra Mundial “a pezzi” – aos pedaços.

Que faz e que pode fazer a ONU? Diante de um mundo pontilhado por confrontos armados, que pode fazer e que faz efetivamente a Organização das Nações Unidas (ONU). Encontros, sessões extraordinárias, advertências e muitos discursos!... Palavras tortas e mortas. Países que, contemporaneamente, fazem parte da ONU e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), estão muito mais preocupados com o poder, o domínio e a defesa desta última. Pouco ou nada se importam com os apelos dos representantes das nações pobres e excluídas do tabuleiro geopolítico mundial, seja este de ordem social ou econômica. A concentração de renda no sistema-mundo cresce na exata medida em que crescem, de outro lado, a pobreza, a miséria e a fome, bem como o desperdício diário de toneladas de alimentos.

A fila dos olhos no chão. A primeira vez que a vi, nas imediações do parque Dom Pedro II, supus que se tratasse apenas de mais uma das filas tão comuns na realidade e no imaginário da Metrópole de São Paulo. Na segunda vez, me dei conta de algumas dezenas de homens, mulheres e crianças desfiguradas, malvestidas e quase descalças. E me dei conta que a fila convergia para um carro, onde algumas pessoas distribuíam pão com manteiga e café da manhã. Quase todos os que faziam parte dela tinham os olhos fixos no chão, como que engolindo a vergonha e as lágrimas. Com efeito, manter os olhos pregados no chão, historicamente, era próprio do negro escravo que não podia encarar o senhor. Quando o olhar varre o pó do caminho é sinal de que a dignidade humana, juntamente com seus direitos básicos, já está prostrada, aviltada, ignorada, tanto pelo Estado quanto pela mídia e não raro pela opinião pública.

Euforia da construção civil e déficit habitacional. Como equalizar a febre crônica da construção civil, em especial na entrega de apartamentos para a classe média, por um lado, e, por outro, o déficit habitacional e o grande número de unidades vazias? Aqui entra a face perversa da equação: o gigantesco conglomerado de empresas construtoras não tem como foco as necessidades básicas da população, e sim a especulação seja da terra urbana, seja dos apartamentos. Mesmo vazios e ociosos, eles seguem gerando renda, acumulando dividendos, lucros e capital. Por outro lado, a indústria do aluguel utiliza de tais unidades para se locupletar às custas do desespero de quem, a todo custo, precisa encontrar moradia. Pouca coisa é mais melindrosa e delicada do que não dispor de um endereço fixo, não poder receber amigos e parentes, nem contar com a possibilidade de oferecer aquilo que todos anseiam por fazê-lo – a hospitalidade. Por conta disso, ouvimos com frequência a expressão “eu não moro, me escondo”. Ditado cheio de razão: de fato, esconderijo pode ser tudo, menos moradia, lar, ambiente aconchegante, refúgio familiar.

Qual a situação atual dos indígenas Yanomami? Depois daquela “tentativa de genocídio” perpetrada pelo governo anterior, cabe perguntar como está a situação real e atual do povo originário Yanomami. Os olhares parecem ansiosos e sedentos de outras novidades (pão nosso de cada dia dos tempos pós-modernos), esquecendo a presença do garimpo ilegal, as águas contaminadas e a população yanomami desfigurada pela subnutrição. Certo, o atual governo tomou algumas iniciativas no sentido de combater a extração do minério e de prover o alimento e a saúde daquela população. Mas, em determinados lugares, as empresas do garimpo resistem inclusive com defesa armada. As informações andam escassas, interrompidas, fragmentadas. O que efetivamente ocorre nessas terras longínquos e, por vezes, abandonadas ao poder do mais forte?

O inferno de Darién. Entre os territórios da Colômbia, por um lado, e do Panamá, por outro, localiza-se uma das florestas mais densas e perigosas do mundo. Para ela convergem milhares de migrantes que, a partir dos países da América do Sul, tentam chegar à América Central para unir-se às caravanas que caminham em direção à América do Norte. Ali, entretanto, o funil aperta e a fronteira vem se tornando uma das mais letais. Não poucos dos que tentam cruzá-la através do Estreito de Darién acabam convertendo o sondo do eldorado norte-americano em pesadelo. Além disso, os migrantes encurralados na mata fechada, muitas vezes tornam-se vítimas fáceis dos coiotes e dos narcotraficantes, ambos tentando extrair os últimos trocados de quem tudo deixou para trás, em vista de um futuro mais promissor. Na “selva da morte” como vem sendo chamada aquela fronteira, como também nas águas traiçoeiras do mar Mediterrâneo, ou ainda nos desertos da África, da Ásia, e dos confins entre México e Estados Unidos, o fenômeno migratório globalizado vem semeando verdadeiros “cemitérios da morte”. A migração legal (com passaporte e documentos em dia) tornou-se um luxo de poucos. Os países se encerram em si mesmo como bolhas incomunicáveis. Milhões de fugitivos da violência e das guerras, da pobreza, miséria e fome, das mudanças climáticas, bem como de outras situações de extrema carência, convergem para as fronteiras geográfico-territoriais. Ali,junto com outros irmãos de infortúnio, devem disputar uma passagem que pode custar os últimos centavos, a separação de parentes e amigos ou até mesmo a morte.

Seis situações-limite. Seis abismos que tragam e trituram sonhos, esperanças e vidas humanas. Não à toa se ouve falar de tempos apocalípticos. Talvez não seja para tanto! Mas uma coisa parece certa, inquestionável: tamanha agitação febril mexe radicalmente com princípios pétreos, referências tradicionalmente positivas, valores e expressões culturais, visões de mundo!... E com o próprio sentido da vida. Onde estão os alicerces da chamada modernidade? Quais os pontos firmes e sólidos sobre os quais apostar em novas bases para uma reconstrução da sociedade e da civilização? Nesse processo de recriação, lento e laborioso, qual o papel das organizações populares e internacionais, do Estado, das Igrejas, dos movimentos e pastorais sociais, de cada um de nós em particular?

 Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM), SP.

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