Cimi recebe prêmio Alceu Amoroso Lima de Direitos Humanos 2022

A entrega da premiação ocorreu na noite de 15 de dezembro. Além do Cimi, o Centro de Defesa de Direitos Humanos de Petrópolis, Dom Phillips e Bruno Pereira foram homenageados.

Por Assessoria de Imprensa

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) recebeu, na noite dessa quinta-feira (15), o prêmio Alceu Amoroso Lima de Direitos Humanos 2022. O objetivo da premiação é homenagear pessoas, instituições e organizações que lutam pelos direitos humanos, pela justiça e paz. A cerimônia foi realizada em formato virtual, transmitida por meio do canal do Youtube da Universidade Cândido Mendes (UCAM).

indigenas-onu-denunciaA live do evento, mediada pela diretora da UCAM, Maria Helena Arrochellas, contou com a presença do presidente do Cimi, Dom Roque Paloschi, e do assessor teológico, Paulo Suess. Participaram também do momento a reitora da UCAM, Andreya Mendes Navarro, a companheira do jornalista Dom Phillips, Alessandra Sampaio, amigos do indigenista Bruno Pereira e representantes do Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH) de Petrópolis – todos homenageados na noite dessa quinta-feira.

Logo no início da live, a reitora Andreya Mendes reconheceu a importância da trajetória do Cimi no país. “Não podia deixar de homenagear o Cimi, que é brilhantemente presente na história do nosso país e continuará levando a nossa luta adiante”, afirmou Andreya.

Em seguida, Padre Oscar Beozzo, membro do Grupo de Trabalho (GT) Alceu Amoroso Lima, responsável pela escolha dos homenageados e premiados –, lembrou da luta enfrentada pelos povos indígenas e pelo Cimi ao longo dos últimos anos no Brasil.

“O Cimi viveu, de modo muito especial nesses últimos quatro anos, uma batalha difícil, porque a vida dos povos indígenas e territórios foram sistematicamente violados e destruídos por aqueles que deveriam protegê-los”, relembrou Padre Oscar. Ele continuou sua fala homenageando também o CDDH de Petrópolis, o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira.

“A escolha também foi do Centro de Defesa dos Direitos Humanos [CDDH] de Petrópolis, que se desdobrou nesse tempo de enchentes e tragédias [os episódios ocorreram em fevereiro de 2022]. E não podemos deixar de reconhecer e trazer para toda a sociedade o que foi essa entrega do Bruno Pereira e do Dom Phillips. Eu homenageio também tanto a Beatriz, esposa de Bruno, como Alessandra [esposa de Dom Phillips], que está aqui conosco, dizendo que a dor de vocês é nossa também. A luta de vocês também é nossa”, concluiu.

Cimi: resistência, memórias e partilhas

Paulo Suess abriu as falas pela entidade durante a premiação. Em seu momento de fala, Paulo agradeceu a homenagem e traçou um breve histórico dos 50 anos de caminhada do Cimi.

“Para saudar o Cimi, vou me concentrar nos seus começos, na origem de sua trajetória.  Ele nasceu como organismo anexo à CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], em 1972, oitavo ano da ditadura militar, quando o general Médici era presidente do Brasil. Foi o secretário-geral da CNBB à época que convocou um pequeno grupo de 25 pessoas para discutir o projeto de lei que tramitava na Câmara Federal e dispunha sobre o Estatuto do Índio. No grupo convocado, que vai se constituir o núcleo do Cimi, encontramos os bispos Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno e missionários. A origem do Cimi se deu sete anos depois do final do Concílio Vaticano, quatro anos depois da segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medelín”, na Colômbia.

Nesse momento, Paulo Suess também lembrou que o Cimi nasceu no mesmo ano da inauguração da rodovia federal Transamazônica. “Em 1972, foram inaugurados os primeiros 1254 quilômetros da Transamazônica, cuja o traçado atingiu mortalmente 29 territórios indígenas. O traçado da BR-364, de Cuiabá a Porto Velho, cortou o território Nambiquara e causou a morte de toda a população menor de 15 anos desse povo devido à transmissão de sarampo”, lamentou Paulo.

Diante desse contexto, o Cimi traçou três linhas a seguir pela defesa e proteção dos povos originários. De acordo com Paulo, essas vertentes dividem-se em: unir setores da sociedade civil, que, através da causa indígena, encontraram um espaço político para uma luta anti-sistêmica; unir o trabalho dos setores da Igreja; e articular os próprios indígenas através de assembleias e formações políticas.

“Configuraram-se trechos que atravessaram três frentes, fortalecendo a defesa da vida dos povos indígenas e convertendo as próprias comunidades indígenas e a sociedade civil para aceitar que o futuro específico dos povos indígenas poderá um dia ser relevante para a própria Igreja e Nação”, explicou o assessor teológico do Cimi.

O teólogo Paulo Suess também falou sobre o enfrentamento do Cimi à lógica desenvolvimentista baseada no capital, considerado por ele uma “estrutura destrutiva de produção”.

“Toda experiência de caminhar por novos caminhos, corrigir as estruturas destrutivas de produção e de humanizar a convivência das pessoas com a natureza de que as mudanças profundas no estilo de vida adaptam-se. A opção missionária do Cimi contrariou os interesses do latifúndio, do grande capital e do modelo de desenvolvimento. Em consequência, a história dos povos indígenas é marcada por suspeitas, perseguições e martírios”.

“Hoje os povos indígenas convocam suas assembleias e se realizam do jeito que entendem, sem os conselheiros e protetores de ontem. Esses têm que aprender. Nós, do Cimi, temos sempre que escutar mais para servir melhor. O Cimi segue aprendendo a aceitar os povos indígenas assim como são. Sem idealizá-los. Somos alunos dos povos indígenas, as vezes conselheiros. Mas nunca seus mestres. E a missão que o Cimi assumiu em 1972, no silêncio e na solidão da ditadura militar, continua. Depois de 50 anos, o horror não passou. A missão do Cimi e de seus aliados continua como defesa das vítimas”, completou.

Após a fala de Paulo Suess, o presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho (RO), Dom Roque Paloschi, foi quem partilhou as vivências da entidade. Assim como o Padre Oscar Beozzo e o teólogo Paulo Suess, Dom Roque lamentou, profundamente, o histórico de violência enfrentado pelos povos originários – especialmente de 2019 a 2022.

“E, aquilo que foi um momento triste e sombrio da história [ditadura militar], vimos repetir nesses últimos quatro anos. Novamente, duras violências, ameaças à vida, aos territórios, ao meio ambiente, aos direitos humanos. Nunca na história os povos indígenas estiveram tão ameaçados como agora. Por isso, eles têm mostrado com suas organizações, mais uma vez, sua força resistência e resiliência, apoiados por aliados de todos os cantos do Brasil e do mundo”, pontuou Dom Roque.

“Povos indígenas seguem em frente, com garra e esperança, prontos para continuar a luta da construção da ‘Casa Comum’, onde prevalece o Bem-Viver para todas e todos. Grandes mobilizações em plena pandemia, os gritos por ‘demarcação, já’, ‘não ao marco temporal, ‘sangue indígena, nenhuma gota a mais’ conduziram a chama que irradiou para toda a sociedade brasileira e internacional, unindo-se na luta pela democracia. Queremos sim também nos avizinhar com os demais homenageados e, de modo muito especial, das famílias de Dom Phillips e de Bruno Pereira”, continuou.

Dom-Roque-Paloschi-cimiEm sua intervenção, Dom Roque enfatizou que a homenagem recebida pelo Cimi é também “a memória de tantas pessoas que derramaram sangue, tantos missionários e missionárias do Cimi, mas, de modo particular, de tantas vidas indígenas que foram destruídas, seja pela repressão do próprio Estado, pela ganância daquilo que é um direito originário”.

“Queremos agradecer, de modo especial, aos missionários e missionárias do Cimi, que têm procurado trilhar caminhos de proximidade, vizinhança e de acreditar na força dos pequenos. Queremos agradecer aos povos indígenas, que têm procurado ser um sinal de esperança. É um momento marcante para todos nós, não só do Cimi, mas por todas as pessoas, entidades, cidadãos e cidadãs que lutam pela causa da justiça e, de modo especial, pela causa dos primeiros habitantes dessas terras”.

Homenagens

Além do prêmio recebido pelo Cimi, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH) de Petrópolis, o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira também foram homenageados na mesma noite de cerimônia realizada pela Universidade Cândido Mendes (UCAM).

Neste ano, a Menção Honrosa foi para o CDDH de Petrópolis, criado em 1979 com o objetivo de realizar, apoiar, assessorar e orientar iniciativas que contribuam para a concretização dos Direitos Humanos nas sociedades. O Centro foi reconhecido em 2022 devido ao trabalho que realizaram em Petrópolis perante as enchentes que levaram vidas, histórias e parte da estrutura da cidade, em fevereiro deste ano.

Amigos e familiares de Dom Phillips e Bruno Pereira também participaram da homenagem – ambos receberam o prêmio Post Mortem Alceu Amoroso Lima. Presente na live, a esposa de Dom Phillips, Alessandra Sampaio, disse que começou a se aprofundar nos estudos socioambientais ao lado do companheiro.

“Eu não sou jornalista nem ambientalista. Conheci a causa da conservação e dos povos da floresta através do olhar do Dom. E, agora, tenho que caminhar com as minhas próprias pernas, que será, naturalmente, seguir a caminhada no meio ambiental. Inspirar tanto em pessoas que já trabalham, que têm o conhecimento dos povos originários e que entendem tão profundamente a autodeterminação e a cultura desses povos é fundamental para a conservação da floresta e das próprias vidas”.

Ricardo Lustosa, pesquisador, amigo e colega de Dom Phillips no projeto Jovens Pensantes da Associação Emília Machado Bahia (Aemba), lembrou, com alegria e orgulho, do legado deixado por Dom Phillips. O jornalista fazia parte desse projeto da Aemba, cuja missão é prestar assistência às pessoas de baixa renda nas áreas de educação, saúde, trabalho, esporte, cultura e lazer, capacitando adolescentes e jovens.

“Nós somos uma equipe de 72 pesquisadores nesse projeto e Dom era o único voluntário. Era o único profissional voluntário que ministrava aula de inglês para jovens. Ele tinha um brilho especial no olhar, um olhar aguçado e penetrante em tudo que ele se propunha a conversar. Ele era muito comprometido com as atividades. Era tudo muito planejado, eram aulas que ocorriam todos os sábados pela manhã. Os jovens gostavam muito. Ele deixou um legado aqui. Para a nossa alegria, dois amigos de Dom e da Alessandra se propuseram a dar continuidade ao curso, também de forma voluntária, após o falecimento de Dom”.

“Diversas pessoas nos procuraram e disseram que gostariam de fazer uma atividade semelhante ao que Dom executou. Ele é inspirador, gerou motivação em outras pessoas para fazer esse trabalho. Ele lançou sementes e essas sementes estão virando árvores, tanto entre os colegas de trabalho quanto para os jovens quanto para a sociedade. O trabalho do Dom não parou, é um legado. E neste, sábado [17], iremos fazer a entrega dos certificados e homenagem ao Dom. E, apesar de todos os desafios e a perda, nos consideramos vitoriosos por ter o Dom como nosso colega e professor”, disse, com emoção, Ricardo.

Indicada por Bia Matos, esposa de Bruno Pereira – que não pôde participar do momento –, Carol Santana, assessora do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) e amiga do indigenista, também recordou, com admiração, os ensinamentos deixados por ele.

“Esse prêmio, além de reconhecer a importância do que Bruno fazia, é um alento necessário e um sinal de respeito à memória do Bruno. Ele era conhecido por ser um dos mais experientes e competentes indigenistas da nossa geração. O Bruno é gigante. Eu vou seguir usando os verbos no presente para me definir a ele. A coragem do Bruno ainda está muito viva. Em todos aqueles que sonham com um mundo mais justo”.

Mas, por outro lado, Carol lamentou o enfrentamento vivido por Bruno Pereira como indigenista e protetor dos povos em situação de isolamento voluntário e de recente contato.

“Infelizmente, o Bruno estava muito preocupado e estava impossibilitado de fazer o trabalho dele na Funai [Fundação Nacional do Índio] devido à perseguição política. E, lamentavelmente, tivemos que assistir, ainda durante as buscar, o posicionamento do presidente. Disse que [Bruno e Dom] estavam em uma ‘aventura’ no Vale do Javari”, lamentou Carol.

“Queria dizer que seguimos, por meio do OPI, cobrando investigações consistentes e imparciais, porque os indígenas e indigenistas que trabalham no Vale do Javari ainda estão ameaçados. Essas investigações são importantes para que tenhamos provas substanciais”, finalizou.

Prêmio Alceu Amoroso Lima

O Prêmio Alceu Amoroso Lima de Direitos Humanos é patrocinado pelo Centro Alceu Amoroso Lima (CAAL), unidade da Universidade Cândido Mendes (UCAM), em Petrópolis (RJ). Segundo informações do próprio CAAL, o Centro foi criado pela Sociedade Brasileira de Instrução e “propõe-se a divulgar a vida e a mensagem de seu patrono, aprofundando seu compromisso com a liberdade, a justiça e os valores da pessoa humana”.

São objetivos do Centro: a preservação do legado de Alceu Amoroso Lima, através da organização e edição de seus escritos inéditos e reedição de suas obras; o patrocínio jurídico a manifestações que concorram para a conquista e o aperfeiçoamento dos direitos da pessoa humana; a promoção de cursos, colóquios, seminários e debates que difundam a visão universalista de Alceu Amoroso Lima sobre os problemas do nosso tempo, à luz de seu compromisso cristão e da sua abertura a todos os homens de boa vontade; o estudo e a pesquisa sistemática de temas relativos à liberdade e à libertação.

Fonte: CIMI

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