Igreja sinodal, missionária e profética

Iguais pelo batismo e onde todos devem verdadeiramente ouvir toda a gente.

Por Juacy da Silva

Para iniciar esta reflexão vamos procurar entender os termos que fazem parte do título da mesma: sinodal, missionária (em saída) e profética, como adjetivos que qualificam a Igreja, como deseja e nos exorta o Papa Francisco constantemente ao longo desses quase dez anos de seu pontificado.
Ser uma “Igreja sinodal” significa encontrar-se em terreno comum como iguais pelo batismo e onde todos, incluindo padres e bispos, devem verdadeiramente ouvir toda a gente. Site Sínodo em Braga, Portugal 2021.

O papa Francisco não deseja nada mais que todo o Povo de Deus possa participar da vida da Igreja, que ninguém se sinta excluído ou excluída da vida eclesial, mas todos e todas se sintam amados e acolhidos por Deus. A “Igreja em saída” (missionária) é justamente uma Igreja de portas abertas, a fim de acolher e oferecer a todos o testemunho salvífico do Senhor. É uma Igreja que busca iluminar a humanidade com as luzes do evangelho, sem condicionar a fé cristã num emaranhado de obsessões e procedimentos. Fonte, Por uma Igreja em Saída (missionária), site Vida Pastoral.

“O papa quer uma Igreja que tem uma marcada opção preferencial pelos pobres. nos impulsiona para que sejamos uma Igreja profética, material, servidora e com esperança, uma Igreja que se coloque de pé e olhe nos olhos do outro de frente para o futuro”. Fonte: Pronunciamento do Cardeal Gregório Rosa Chaves, ao retornar a El Salvador, em Julho de 2017, após ter sido investido, em Roma, com a púrpura cardinalícia.

Na esteira da convocação do Sínodo dos Bispos, pelo Papa Francisco, a ser realizado, presencialmente em Roma, em Outubro de 2023, tendo como etapa preparatória uma fase de escuta das Igrejas locais no mundo todo, estamos nesta fase, em diferentes momentos, nas diversas Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades católicas no Brasil.

Vejamos um trecho do Documento Preparatório para o Sínodo, divulgado em 07 de Setembro de 2021, onde podemos perceber os rumos que o Papa Francisco pretende dar à caminhada da Igreja: “Documento preparatório Sínodo 2023 - Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”

“1. A Igreja de Deus é convocada em Sínodo. O caminho, intitulado «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão», iniciará solenemente nos dias 9-10 de outubro de 2021, em Roma, e a 17 de outubro seguinte, em cada uma das Igrejas particulares. Uma etapa fundamental será a celebração da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2023, a que se seguirá a fase de execução, que envolverá novamente as Igrejas particulares (cf. EC, art. 19-21). Com esta convocação, o Papa Francisco convida a Igreja inteira a interrogar-se sobre um tema decisivo para a sua vida e a sua missão: «O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio». Este itinerário, que se insere no sulco da “atualização” da Igreja, proposta pelo Concílio Vaticano II, constitui um dom e uma tarefa: caminhando lado a lado e refletindo em conjunto sobre o caminho percorrido, com o que for experimentando, a Igreja poderá aprender quais são os processos que a podem ajudar a viver a comunhão, a realizar a participação e a abrir-se à missão. Com efeito, o nosso “caminhar juntos” é o que mais implementa e manifesta a natureza da Igreja como Povo de Deus peregrino e missionário.

2. Uma interrogação fundamental impele-nos e orienta-nos: como se realiza hoje, a diferentes níveis (do local ao universal) aquele “caminhar juntos” que permite à Igreja anunciar o Evangelho, em conformidade com a missão que lhe foi confiada; e que passos o Espírito nos convida a dar para crescer como Igreja sinodal?

Enfrentar juntos esta interrogação exige que nos coloquemos à escuta do Espírito Santo que, como o vento, «sopra onde quer; ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai» (Jo 3, 8), permanecendo abertos às surpresas para as quais certamente nos predisporá ao longo do caminho. Ativa-se deste modo um dinamismo que permite começar a colher alguns frutos de uma conversão sinodal, que amadurecerão progressivamente. Trata-se de objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização, na qual todos nós participamos em virtude do Batismo e da Confirmação”.

Paralelamente a este processo de escuta, tendo em vista as diferentes realidades em que a ação evangelizadora, sinodal, missionária e profética que a Igreja realiza no mundo todo, bem como as diferentes realidades dentro de cada país, como é o caso do Brasil, a Igreja continua sua caminhada diariamente e, busca, constantemente ressignificar sua ação diante dos desafios que a fustigam ao longo dos tempos.

Todos sabemos que o Papa Francisco, aquele que “veio do fim do mundo”, tem sido um incansável defensor de reformas mais profundas no “modo de ser igreja” neste século XXI, razão pela qual tem enfrentado também internamente desafios e até mesmo certo nível de contestação por parte de um clero ainda bastante conservador, arredio e avesso a todos os tipos de reforma na e da Igreja, que se opõe, discreta ou abertamente, a tais reformas, principalmente na Cúria Romana, que as vezes tenta controlar as ações do Papa.

Corajoso, porém de forma cordial, atenciosa e amorosa, o Papa Francisco, mesmo com sua saúde física um tanto fragilizada não tem medido esforços para seguir em sua missão de promover essas reformas, coerentes, diga-se de passagem, com as decisões emanadas do Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, em 25 de Janeiro de 1959 e que tinha como objetivo principal refletir sobre as relações da Igreja com o mundo moderno e, neste contexto foi um marco decisivo na caminhada da Igreja desde então até os dias atuais, passando, inclusive, a ser referido na convocação do Assembleia dos Bispos, pelo Papa Francisco, a ser realizado em outubro de 2013 em Roma.

O Concílio Vaticano II teve início em 11 de outubro de 1962, ainda sob a direção e orientação do Papa (hoje Santo) João XXIII, que acabou falecendo em 03 de junho de 1963, tendo sido substituído por Paulo VI (também hoje Santo), sob cuja orientação o referido conclave foi concluído em 08 de Dezembro de 1965.

Não resta dúvida que o Concílio Vaticano II foi um marco importante e significativo na caminhada da Igreja no mundo inteiro e contribuiu para diversas reformas, algumas muito profundas, mas que até hoje, 2022; ainda não são bem aceitas pelos setores mais conservadores da Igreja.

É neste contexto, inclusive tendo o magistério do Papa Francisco, suas Exortações Apostólicas, suas Encíclicas, seus pronunciamentos e ações do cotidiano que a Igreja que vai se realizar o Sínodo dos Bispos em Roma, no próximo ano (2023).

Cabe destaque especial para as Encíclicas Laudato Si, Fratelli Tutti, a Exortação Minha Querida Amazônia, a sua ênfase nos três “Ts”: Terra, teto e trabalho, a Economia de Francisco e Clara e o Pacto Global pela Educação, como fundamentos para uma ação mais profunda por parte da Igreja, caminhando ao lado e participando da caminhada do povo de Deus, principalmente quem sofre injustiças, são pobres, passam fome, sofrem e são excluídos.

O Papa Francisco, como um homem de fé e de ação, moldado não apenas pela sua formação teológica e acadêmica, mas também e principalmente pela sua caminhada junto à Igreja local na Argentina, de onde saiu para ser o atual sucessor de Pedro, em Roma, viveu sob os efeitos e resultados do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação ou o que também é chamada de Teologia dos Pobres, ou seja, sempre esteve aberto para uma Igreja pobre, que faz opção preferencial pelos pobres e, por isso mesmo, samaritana, em saída e profética.

Cabe aqui destacar alguns aspectos da biografia do Papa Francisco, nascido em Buenos Aires, Argentina em 17 de Dezembro de 1936, filho de imigrantes italianos, Em 13 de dezembro de 1969; em 31 de Julho de 1973 foi eleito provincial dos Jesuítas na Argentina, cargo que ocupou por seis anos. Em 20 de Maio de 1992 foi nomeado bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires, quando escolheu como lema “Miserando atque eligendo” (por ter piedade, escolhendo-o) e em seu brasão inseriu o cristograma HIS, símbolo da Companhia de Jesus (ordem dos Jesuítas).

Em 21 de fevereiro de 2001, foi nomeado cardeal pelo Papa João Paulo II, como cardeal desempenhou diversas atribuições tanto na Argentina quanto em Roma, como, por exemplo em Outubro de 2001 quando foi nomeado relator-geral adjunto da décima assembleia geral ordinária do Sínodo dos bispos, dedicada ao ministério episcopal e no Sínodo dos Bispos deixou sua marca ao destacar, de modo particular, a «missão profética do bispo», o seu «ser profeta de justiça», o seu dever de «pregar incessantemente» a doutrina social da Igreja, mas também de «expressar um juízo autêntico em matéria.

Conforme consta de sua biografia oficial divulgada logo após sua escolha como Papa enfatiza “Como arcebispo de Buenos Aires - diocese com mais de três milhões de habitantes - pensou num projeto missionário centrado na comunhão e na evangelização, com quatro finalidades principais: comunidades abertas e fraternas; protagonismo de um laicato consciente; evangelização destinada a cada habitante da cidade; assistência aos pobres e aos enfermos”.

Como sacerdote, bispo ou cardeal o Papa Francisco sempre teve suas ações voltadas, preferencialmente, para a defesa dos pobres, dos marginalizados e excluídos e foi esta experiência que ele levou para Roma quando, em 13 de Março de 2013 foi escolhido Papa, em substituição a Bento XVI que havia renunciado há pouco mais mais de um mês antes, em 10 de fevereiro de 2013.

Seu magistério à frente da Igreja, como pastor e guia, não poderia ser outro, razões pelas quais pode ser considerado um profeta nos tempos atuais e de forma semelhante assim é a Igreja que ele pretende pastorear, sinodal, samaritana, em saída, pobre e que tenha na opção preferencial pelos pobres a sua cara e, também, profética, tendo a coragem de denunciar as injustiças, as violências e desrespeito aos direitos humanos, principalmente dos pobres e excluídos.

É neste contexto e antes mesmo da Assembleia dos Bispos a ser realizado em 2023 em Roma, que o Papa Francisco acaba de aprovar uma profunda reforma na Cúria Romana, conforme podemos identificar tanto na Constituição Apostólica Praedicate evangelium (Pregai o Evangelho), publicada em 19 de marco de 2022 e que entrou em pleno vigor em 05 deste mês de junho de 2022, documento disponível no site do Vaticano (por enquanto apenas em Italiano), quanto de alguns artigos e reflexões como de Francisco Orofino que considera esta reforma como “Um golpe fatal no clericalismo” da Igreja ao legislar e reformar sobre os encargos centrais na vida da Igreja Católica, ou seja, a máquina burocrática conhecida como Cúria Romana”.

No entanto, é o próprio Papa Francisco na parte introdutória da nova Constituição Apostólica Praedicate evangelium (Pregai o Evangelho), quem esclarece as razões e os aspectos fundamentais que justificam tal reforma.

Assim, o significado da reforma da Cúria Romana não está voltada ou direcionada para a questão do poder interno das estruturas burocráticas da Igreja, como alguns imaginam, mas, fundamentalmente, para o “paradigma da espiritualidade do Concílio (Vaticano II), expressa na parábola do bom samaritano”.

No documento também é destacado ou realçado que “a conversão missionária da Igreja, destina-se a renovar/reforma-la segundo ou de acordo com a imagem/exemplo da missão do amor de Cristo e que os discípulos e discípulas devem ser “a luz do mundo” (sal da terra e luz do mundo), conforme o Evangelho de São Mateus 5:14; “luz que orienta nossa caminhada no tempo, na história”. Mais ainda, enfatiza que “neste contexto da missionariedade da Igreja, impõe-se a reforma da Cúria Romana”.

Creio que como cristãos, leigos e leigas, não podemos e nem devemos ficar alheios e alheias às exortações e ensinamentos contidos no magistério do Papa Francisco, como Sumo Pontífice de uma Igreja espalhada pelos quatro cantos do mundo, em todos os países e continentes, em um momento tão conturbado da história mundial, incluindo guerras, conflitos armados localizados, aumento da violência, discriminação, racismo estrutural, pobreza, miséria, fome e de constantes demonstrações de desrespeito aos direitos humanos e `a ecologia integral, Precisamos fazer coro com este esforço do Papa Francisco em busca de um mundo melhor, com justiça, solidariedade e o cuidado necessário da Casa Comum.

Lembremos uma máxima que diz, a Igreja não é constituída apenas por suas estruturas burocráticas e sua hierarquia eclesiástica, mas, fundamentalmente, pelo conjunto dos fiéis, leigos e leigas, que com seus carismas e vocações devem estar a serviço do reino, seguindo os ensinamentos e os passos do Cristo Ressuscitado, enquanto caminhamos aqui neste planeta terra.

Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, articulador voluntário da Pastoral da Ecologia Integral em Cuiabá e Mato Grosso. Email profjuacy@yahoo.com.br Twitter@profjuacy Whats app 65 9 9272 0052

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