Educação e conversão

“É preciso uma aldeia para se educar uma criança”.

Por Paulo Mzé *

Em 2022 à luz da fé, queremos refletir sobre a educação em nosso país, convictos de que ela é indispensável para a construção de um mundo mais justo e fraterno. Até porque, educar é uma tarefa humana. Assim como também é uma ação divina. Primeiro, porque somos renovados quando aprendemos mais a respeito da vida e seu sentido. Segundo, a Bíblia nos mostra a história de um Deus que educa seu povo.

É com esta certeza que a Campanha da Fraternidade (CF) nos convida a refletir sobre a indispensável relação entre fraternidade e educação. A realidade da educação nos interpela e exige profunda conversão. Verdadeira mudança de mentalidade, reorientação de vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para a vida fraterna e para a cidadania. A educação é um indispensável serviço à vida. Ela nos ajuda a crescer na vivência do amor, do cuidado e da fraternidade.

De fato, o mundo está diante de um desafio: redescobrir caminhos para uma reconstrução que não é parcial, mas global. O mundo de nosso tempo precisa encontrar caminhos para se reconstruir, ouvindo os clamores dos vulneráveis em uma casa comum cada vez mais vulnerável.

Trata-se, portanto, de uma Campanha em forte linha de continuidade com os temas que nos vêm sendo propostos desde 2018. Neste sentido, nada disso poderá, entretanto, ocorrer se não se considerar a importância da educação.

A CF 2022 nos convoca a refletir sobre os fundamentos do ato de educar e nos adverte que mais importante e urgente é a pergunta pelos motivos, pela abrangência e pelas metas de qualquer processo educativo.

O grande educador

Quando contemplamos as ações e palavras de Jesus, encontramos um caminho educativo. No texto bíblico referência para a CF 2022, Jesus Cristo, o grande educador, está no templo.

O primeiro capítulo de João serve de introdução a todo o Evangelho, apresentando ao leitor a teologia do autor – o que ele vê sobre Deus e Jesus – e o ministério de Jesus. Em Jo 8, 1-11, o relato da mulher surpreendida em adultério desperta muita curiosidade. Até porque em edições modernas do quarto Evangelho, essa passagem costuma ser colocada entre colchetes para indicar que não faz parte do texto original de João. Está em falta, inclusive, em manuscritos gregos mais antigos e é desconhecida dos padres gregos primitivos, pois eles não a comentam. Assim, em diversos manuscritos antigos, encontra-se ou em 8, 1, ou depois de 7, 36, ou ainda no fim do Evangelho ou depois de Lc 21, 38. A mais antiga referência incontestável à história encontra-se em um escrito do século III sobre disciplina religiosa chamado Didascalia. Em suma, não fazia parte do Evangelho original de João.

Apesar do mistério de sua transmissão e inserção em João, a história contém uma das mais notáveis descrições da misericórdia de Jesus e é forte argumentação a favor de sua autenticidade evangélica. Deve ser uma narrativa que remonta a Jesus e foi transmitida pela tradição oral e usada, talvez, para solucionar o problema do perdão dos pecados para os cristãos batizados. Como narrativa lucana, trata de misericórdia, pecado e uma mulher. A ele foram levadas algumas mazelas do mundo: uma mulher flagrada em adultério, um adultério que se esconde, ardilosos utilizadores da lei e pedras como instrumentos de morte. Jesus não está em uma sala de aula, mas mostra que educar é contribuir para a superação do pecado, preservando a vida, atingindo as consciências e transformando relações. Uma das perguntas que sempre se faz sobre esta bela passagem é: o que Jesus escreveu no chão? Duas sugestões aceitas como plausíveis são que o rabiscar no chão indicava falta de interesse ou que João queria referir-se ao texto grego de Jr 17, 13: “...todos os que te abandonam são cobertos de vergonha... pois abandonam a fonte de água viva, o Senhor”. O texto apresenta uma visão panorâmica da realidade educativa em nosso país, com seus desafios potencializados pela pandemia e seus impactos nas políticas públicas para a educação.

À luz da palavra de Deus, a CF 2022 quer nos ajudar a compreender duas lições sobre o ato de educar: a primeira, diz respeito ao valor da pessoa como princípio da educação. A segunda, se refere ao ato de correção, que é conduzir ao caminho reto. Não é repressão, mas é orientar a pessoa no caminho de uma vida transformada, verdadeiramente convertida à luz da verdade.

Em tempos marcados pela pandemia da Covid-19 e por diversos conflitos, distanciamentos e polarizações, é preciso reaprender a amar, a perdoar, a cuidar, a verdadeira fraternidade alicerçada na justiça e na paz.

Diante de tudo isso, a CF 2022 nos recorda que educar não é um ato isolado. É encontro no qual todos são educadores e educandos. É tarefa da própria pessoa, da família, da escola, da Igreja e de toda a sociedade. Afinal, como nos ensina o conhecido provérbio de origem africana, “é preciso uma aldeia para se educar uma criança”.

* Paulo Mzé, imc, é diretor da revista Missões.

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