A multidão dos desterrados e errantes

Guerras, conflitos e catástrofes naturais resultam em mais de 80 milhões de refugiados no mundo.

Por Alfredo J. Gonçalves*
Foto: ©ACNUR/ J. Brouwer/ Agosto, 2011

A guerra entre Rússia e Ucrânia desencadeou um rio humano de pessoas em fuga. Nos últimos decênios vimos os casos do Iraque, da Venezuela, da Síria, de Mianmar, do Afeganistão, do Sudão do Sul e, agora, da Ucrânia. Refugiados que se contam aos milhões: ao redor de 6 fogem da Síria, mais de 5 da Venezuela, 3,5 no Sudão do Sul, 1,5 em Mianmar!... Somando os refugiados de todo mundo, a ACNUR já os estima em mais de 80 milhões. Tensão, violência, conflito e guerra estão por trás desses deslocamentos de massa.

Desde o início deste século (e milênio), temos assistido a um aumento não somente dos focos de refugiados, bem como do número destes últimos. Não podemos esquecer que refugiado é aquele que não pode voltar atrás e, muitas vezes, encontra pela frente barreiras intransponíveis. Águas represadas, encurraladas, em campos marcados em geral por extrema precariedade de vida e de acolhida. Bastaria uma simples olhada aos campos da Líbia, da Turquia, do México, da Grécia, do Bangladesh, entre outros. Olhando para trás, o refugiado vê a hostilidade, a perseguição, o julgamento, o cárcere ou até mesmo a morte. Trata-se, quase sempre, de pessoas banidas do próprio país ou região, por motivos políticos, religiosos ou ideológicos, quando não tudo isso ao mesmo tempo. O certo é que o retorno é proibido sob pena de severa punição.

Horizonte sombrio

Olhando para frente, o refugiado depara-se com um horizonte sombrio e esfumaçado, incerto e inseguro. Uma árvore arrancada da terra, com as raízes expostas ao sol. Podem murchar, secar, definhar e morrer. Os valores, expressões e referências, só com muita dificuldade, reflorescem em solo estranho. O recomeço costuma ser árduo e íngreme, com frequentes possibilidades de fracasso. A qualificação e experiência, longa e laboriosamente acumuladas na origem, por vezes perdem o valor nos países de destino. Nem sempre são considerados válidos o estudo, o “saber” e o currículo trazido na bagagem, da mesma forma que nem sempre é possível traduzir tudo isso no novo idioma. Começar do zero – eis o grande desafio! E para grande parte dos migrantes, a idade já não o permite. Além disso, o trabalho e a moradia constituem dois imperativos que não podem esperar, devido às condições da família.

Aqui, porém, talvez seja necessário ampliar o conceito de refugiado. Parte considerável dos chamados “migrantes socioeconômicos” passam pelas mesmas turbulências e adversidades. De fato, igualmente para eles, atrás ficou a pobreza, a miséria, a falta de oportunidades e, embora a gota-gotas, também a morte. Fogem de um solo seco e estéril, de uma inundação ou catástrofe repentina, de crises climáticas cada vez mais imprevistas e violentas, de furacões, terremotos ou outros tremores de ordem físico-geográfica. Na frente, tropeçam com a falta de qualificação, os serviços mais pesados e perigosos, mais sujos e mal remunerados. Novamente neste caso, sem qualquer tipo de proteção, o recomeço encontra-se fadado ao fracasso. Repete-se o desafio de antes: recomeçar do zero!

Uns e outros – refugiados e migrantes – se vêm encurralados. O ambiente do passado reflete a impossibilidade de florescer e produzir frutos; a incerteza do futuro, revela a dificuldade de replantar as raízes em terra estrangeira. Ambos se encontram sujeitos às vicissitudes da estrada, às vezes de um vaivém ininterrupto, tal como folhas secas que o vento arrasta para onde quer. Terminam por cair num tipo de existência dependente, seja em relação aos fluxos e refluxos da globalização, seja em relação às migalhas do capital. Desnecessário acrescentar que a pandemia da Covid-19 e, em determinados países, o modo pandemônico de gerir suas implicações e consequências, desnudou e ao mesmo tempo agravou a situação dos grupos mais vulneráveis. Os países e regiões onde a vida já se encontrava mais frágil e ameaçada sofreram maiores perdas tanto devido à letalidade do coronavírus quanto devido à letalidade do confronto bélico. Ambos deixam feridas e sequelas que remédio algum será capaz de cicatrizar.

*Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do Serviço de Proteção ao Migrante, SPM.

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