Ecologia Integral e a Igreja Católica no Brasil

“O clamor da terra e o clamor dos pobres constituem um único clamor e a Igreja deve escutá-lo e clamar com eles”. Papa Francisco.

Por Juacy da Silva

“A América Latina es el Continente que posee una de las mayores biodiversidades del planeta y una rica socio diversidad, representada por sus pueblos y culturas” CELAM Documento de Aparecida, 2007, 83.

“En las decisiones sobre las riquezas de la biodiversidad y de la naturaleza, las poblaciones tradicionales han sido prácticamente excluidas. La naturaleza ha sido y continúa siendo agredida. La tierra fue depredada. Las aguas están siendo tratadas como si fueran una mercancía negociable por las empresas, además de haber sido transformadas en un bien disputado por las grandes potencias. Un ejemplo muy importante en esta situación es la Amazonia” CELAM Documento de Aparecida, 2007, 84

“En su discurso a los jóvenes, en el Estadio de Pacaembu, en San Pablo, (Maio de 2007), el Papa Benedicto XVI llamó la atención sobre la “devastación ambiental de la Amazonia y las amenazas a la dignidad humana de sus pueblos”, y pidió a los jóvenes “un mayor compromiso en los más diversos espacios de acción” CELAM Documento de Aparecida, 2007,85.

Há décadas as questões ambientais e os grandes desafios ecológicos estão presentes em todos os círculos sociais, políticos e econômicos e, como não poderia deixar de ser, também tem ocupado boa parte das preocupações de diferentes religiões, com destaque para a Igreja Católica, mundo afora.

No Brasil este debate e essas preocupações também tem estado presentes ao longo da nossa história, afinal, desde o descobrimento até os dias de hoje, a Igreja Católica está presente física, espiritual, política, cultural, econômica e ideologicamente em nosso país.

Como em qualquer agrupamento humano, nas religiões e na Igreja Católica isto não é diferente, existem diversas correntes de pensamento e de ação, grupos que tem uma visão de mundo, um olhar diferente ou até mesmo antagônico dentro dessas Instituições.

A-Amazônia-Precisa-de-Você-AtualizaçãoPor conveniência metodológica ou conceitual tais agrupamentos e instituições, às vezes são classificados ou denominados de progressistas, revolucionários, conservadores, liberais, neoliberais, democráticos ou totalitários e, dependendo a qual agrupamento ou corrente de pensamento com os e as quais as pessoas se identificam ou se inserem, seus posicionamentos são diferentes em inúmeras questões cruciais, como no caso da crise ecológica/ambiental que estamos presenciando na atualidade, para o destino de uma comunidade, de um estado, de uma região ou até mesmo quanto ao destino do planeta Terra.

Seja por uma questão de princípios, de fé, de dogma, de doutrina, de ideologia, ou enfim, de uma crença, as pessoas se agrupam e tendem a atuar de forma conjunta face aos desafios que se lhes são apresentados. E isto é o que está acontecendo no Brasil na atualidade em relação aos desafios ambientais/ecológicos que estão presentes em nosso cotidiano, não apenas nas pautas de discussões públicas, políticas, mas também nas discussões quanto `a necessidade e importância da estruturação, da organização da PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL , de uma forma ampla do conceito de pastoral como base para a ação evangelizadora da Igreja ou PASTORAIS DA ECOLOGIA INTEGRAL, no plural, ou seja, como forma de organizar esta ação evangelizadora no âmbito das Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades.

Neste sentido, uma PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL, independente do espaço físico ou do território em que ela seja ou esteja organizado, estruturada,  ou em vias de organização, não pode ser considerada como “apenas mais uma pastoral”, como tem sido muito bem dito por diferentes pessoas e autoridades, inclusive Bispos, Padres, Religiosos, Religiosas, Leigos ou Leigas.

A PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL tem seus fundamentos na necessidade impostergável que a Igreja Católica, como também, imagino eu, as demais igrejas e religiões (evangélicas ou de base afro), de oferecer uma resposta ao processo de degradação ambiental acelerada e de destruição  criminosa dos ecossistemas/biomas brasileiros, como tantas reportagens, noticias, estudos e pesquisas tem, sobejamente, demonstrado.

Diariamente lemos matérias, ouvimos discursos, debates ou vemos imagens chocantes de desmatamentos e incêndios (legais ou ilegais, pouco importa) que destroem a biodiversidade em imensas áreas como tem ocorrido nos últimos 4 ou 5 anos no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia e que tem aumentado tremendamente ao longo do Governo Bolsonaro, que tem no negacionismo e nas teorias da conspiração sua base ideológica e elementos definidores de suas políticas de governo, na contramão do que vem sendo realizado na grande maioria dos países, conspurcando a imagem do Brasil no contexto internacional.

No caso da Amazônia existe uma verdadeira paranoia governamental e de setores ultra conservadores e pseudonacionalistas que utilizam a teoria da conspiração para atacar a atuação de ONGs e de organismos e setores da Igreja Católica, como CIMI, CPT e organismos católicos que atuam na defesa dos direitos humanos, principalmente dos povos indígenas e quilombolas, como sendo “braços” de ideologias socialistas e comunistas.

Boa parte deste negacionismo é nutrido  também por princípios conservadores arraigados tanto em algumas correntes de pensamento laicas, quanto em posições de grupos evangélicos, principalmente de base Pentecostal ou neopentecostal e também de setores da Igreja Católica que muito se assemelham a tais grupos.

A paranoia conservadora e negacionista chega ao extrema de considerar/taxar ambientalistas, defensores do meio ambiente e toda a base científica que tem oferecido suporte para denunciar a gravidade da degradação ambiental, da degradação dos ecossistemas, como a ONU tem reconhecido seja através das conferências e acordos mundiais sobre o clima, os relatórios do painel intergovernamental do clima, inúmeros estudos e pesquisas realizadas  em instituições renomadas mundialmente, que consideram tudo isso como uma nova forma ou um disfarce de avanço do pensamento de esquerda e do socialismo, tentando denegrir, desacreditar esses ambientalistas e amedrontar a população quanto ao que “estaria” por traz do despertar da consciência ambiental, dos “limites” de um modelo econômico, social, político e ambiental que gera degradação ambiental, destruição da biodiversidade, pobreza, miséria, concentração de renda, riqueza e oportunidades de um lado e exclusão de grandes massas de outro, enfim, um modelo que gera morte em todas as dimensões.

Nesta paranoia chegam a dizer que “verde é a nova cor do comunismo e do socialismo” e não apenas tentam denegrir a cor vermelha mas também tentam ressuscitar ideias e chavões ultrapassados do período da Guerra Fria. É o caso de se perguntar a esses negacionistas, que tanto se ufanam ao dizerem “nossa bandeira jamais será vermelha”, e se tirarem o verde, já que esta é a nova cor do socialismo,  como ficará nossa Bandeira, sem o verde? Que cor vão colocar no lugar do verde?

Em recente artigo intitulado “Ambientalismo e Catolicismo no Brasil: entre afinidades, instrumentalização e repulsas”, apresentado no 43° encontro anual da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), realizado em 2019, na cidade de Caxambu, MG, o doutorando em Sociologia na USP, Renan William dos Santos, analisa esta questão a partir de três vertentes, como pode-se perceber pelo resumo apresentado pelo mesmo no inicio de seu bem atual texto.

“Pretende-se abordar a mobilização da Igreja Católica no Brasil em torno das questões ambientais e as contraofensivas organizadas (também oriundas do próprio campo religioso católico) que esse engajamento vem suscitando no atual cenário nacional, marcado pela ascensão conservadora. A análise é feita a partir de três eixos principais: 1) o do âmbito católico oficial – o ativismo de sacerdotes brasileiros que procuram incentivar teologicamente a adesão dos fiéis ao ativismo ambientalista; 2) o do âmbito católico extraoficial simpático à pauta ambiental, mas que atua fora da esfera de influência institucional da Igreja Católica no Brasil – sendo representado aqui sobretudo pelo ativismo de Leonardo Boff; 3) o do âmbito católico extraoficial avesso à onda verde – que tem como expoente no cenário nacional o famigerado Instituto Plínio Correia de Oliveira (IPCO), uma espécie de think tank do conservadorismo católico brasileiro.”

De forma também bem elaborada, em um livro de autoria do Pe. José Carlos Pereira e Rodrigo Cerqueira do Nascimento Borba, publicado pela CNBB em 2016, intitulado PASTORAL DA ECOLOGIA E DO MEIO AMBIENTE: por uma PARÓQUIA SUSTENTÁVEL, COMPROMETIDA COM A DEFESA DA VIDA E DA “CASA COMUM”,  coincidindo em temporalidade com a Encíclica LAUDATO SI (2015), parte do Magistério do PAPA FRANCISCO e com o lançamento da AGENDA 2030 da ONU “OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL”, oferece as bases, orientações e “dicas” para que as Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades possam articular organicamente suas ações na defesa da ecologia integral, a partir da realidade da qual fazem parte ou onde  se pretender atuar, mas sempre tendo em vista que os desafios ambientais, ecológicos não são apenas problemas locais, momentâneos, mas fazem parte de um processo de degradação global e planetário, que se não forem barrados a tempo, poderão colocar em risco a própria sobrevivência da humanidade.

Em duas LIVES (falas) recentes pela internet/youtube, a última no sábado 31 de julho de 2021, discorrendo sobre a “ESTRUTURAÇÃO DE UMA PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL”, o Padre José Carlos Dias, fez um breve relato sobre a origem das preocupações da Igreja no Brasil com as questões ambientais/ecológicas, sobre o surgimento da primeira pastoral da ecologia e do meio ambiente na década de 1980; há 40 anos, bem antes da Conferência da ONU RIO/ECO 92; dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, das Metas do  Milênio, dos Acordos de Kyoto e de Paris, das diversas Conferências do Clima e inclusive antes do surgimento também  da LAUDATO SI, a Igreja já vinha pontuando e enfatizando a necessidade de uma atuação mais articulada quanto aos problemas ambientais, através de documentos e também dos temas das Campanhas da Fraternidade, como a água, o saneamento básico, a “casa comum”, a Amazônia, os biomas brasileiros, a defesa da vida (onde também está incluída a defesa do planeta, da biodiversidade), os indígenas, os migrantes e outros temas correlatos.

De acordo com o Pe. José Carlos Pereira, “a questão ecológica deve ser entendida como um clamor profético no mundo atual” e a Igreja não pode cruzar os braços, não pode se calar e nem se omitir, pois defender o meio ambiente (na dimensão da ecologia integral, imagino eu) também faz parte da defesa da vida, em sua integralidade e plenitude.

Todavia, mesmo que as Campanhas da Fraternidade, inclusive as de natureza Ecumênica, tenham colocado ou coloquem na agenda da Igreja, durante o período da Quaresma essas pautas ambientais, a falta de uma pastoral da ecologia integral, como as demais pastorais através das quais a Igreja atua na evangelização, repetindo, a falta de uma pastoral específica, que articule com as demais pastorais temas fundamentalmente ambientais e ecológicas e também a esses conexos, limita a atuação da Igreja e não atende ao chamamento e exortação do Papa Francisco no que concerne `a ECOLOGIA INTEGRAL e também ao que já foi discutido e aprovado pelo CELAM – Quarta Conferência Episcopal Latino-americana em Santo Domingo , em outubro de 1992 e na Quinta Conferência do CELAM em  Aparecida em maio de 2007, bem como no Sínodo dos Bispos para a Amazônia (Pan Amazônia) em 2019, incluindo o relatório final daquele conclave e a exortação do Papa Francisco no documento “Minha querida Amazônia”.

Cabe aqui uma referência quanto ao objeto da Pastoral da Ecologia Integral, que por estar ancorada na LAUDATO SI, tendo em vista que “A ecologia integral é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social”(LS 156); esta “perspectiva ampla” inclui as gerações futuras (LS 159), precisa ter uma dimensão realmente integral, incluindo aspectos além dos meramente ambientais ou locais.

Neste sentido, conforme tem falado e exortado o Papa Francisco, além da LAUDATO SI e, por extensão a Pastoral da Ecologia Integral também ancorada na Doutrina Social da Igreja, pode-se dizer que “ A ecologia integral representa uma nova síntese da doutrina social da Igreja”, e deve ter uma gama ampla de problemas/desafios a serem tratados, sejam por outras pastorais, movimentos ou organismos de ação da Igreja, dai sua dimensão integradora e, ao mesmo tempo, desafiadora, incluindo a discussão, participação na definição e implementação das várias políticas públicas, principalmente relativas ao meio ambiente, à agricultura, à economia, às relações internacionais, ao desenvolvimento urbano e outras mais, em todos os níveis: federal, estadual e municipal.

Apesar da importância da Pastoral da Ecologia Integral tanto para a vida e as ações de evangelização das paróquias quanto para a caminhada da Igreja no Brasil, principalmente nas regiões compreendidas pelos biomas Pantanal, Amazônia e Cerrado, referindo-se à região Centro Oeste, onde a degradação ambiental e a destruição da biodiversidade são mais intensas e alarmantes, não existem registros da existência dessa pastoral nas Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e comunidades neste vasto território com mais de 1,6 milhão de km2 e com uma população de 14,1 milhões de habitantes, dos quais 88,8% vivem no meio urbano.

Na opinião do Padre José Carlos Pereira, a maior parte das paróquias no Brasil ainda não despertou para a gravidade da crise ecológica e para a importância da Pastoral da Ecologia Integral como canal ou instrumento para a ação evangelizadora da Igreja Católica nesta área/região em nosso país.

Por isso, para quem já tenha se despertado para este desafio e tenha passado por um processo de conversão ecológica, como tem insistido e deseja o Papa Francisco, o momento para assumirmos e regaçarmos as mangas para a organização da Pastoral da Ecologia Integral é agora, não podemos  continuar nesta letargia, que reflete, em certo sentido, uma omissão tanto da Igreja como instituição quanto dos fiéis, católicos como pessoas e cidadãos/cidadãs.

Basta recordarmos que desde que a LAUDATO SI foi publicada já se passaram seis anos e em muitas paroquias, comunidades, Dioceses e Arquidioceses pouco se fala desta que, quando de seu surgimento, foi considerado uma bússula para a Igreja na busca de novos paradigmas que se juntam com outras exortações, pronunciamentos e chamamentos do Papa Francisco, como quando propõe um novo modelo socioeconômico, consubstanciado na Economia de Francisco e Clara e as ações da REPAM na PAN AMAZÔNIA e, mais recentemente quando da definição do que passa a ser MOVIMENTO LAUDATO SI, em substituição ao movimento católico global pelo clima.

A Igreja Católica realiza a sua ação pastoral através de três funções: Função profética, Função litúrgica e Função missionária, por isso é que o Papa Francisco tem insistido tanto em uma “Igreja em saída” que tenha um compromisso preferencial pelos pobres.

As pastorais tem o objetivo de agir por meio da igreja no conjunto de atividades pelas quais a mesma realiza a sua missão de continuar a ação de Jesus Cristo, junto a diferentes grupos e realidades.

Com certeza, “ação pastoral Católica ou simplesmente pastoral é a ação da Igreja Católica no mundo ou o conjunto de atividades pelas quais a Igreja realiza a sua missão evangelizadora, que consiste primariamente em continuar a ação de Jesus Cristo em diferentes realidades”.

Diante disso, no que concerne à PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL, cabe a mesma promover a integração de ações relativas às questões ecológicas/ambientais e demais que com essas se relacionam em todas as demais pastorais, inclusive na Catequese e nos movimentos, CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), nas instituições educacionais católicas, e, também, em parcerias com entidades e organizações laicas, de tal maneira que as preocupações e ações, inclusive a educação ambiental estejam presentes em todos os espaços e territórios em que a Igreja atua.

Assim agindo, com certeza a Pastoral da Ecologia Integral atenderá ao que se espera da Igreja Católica em relação ao conteúdo e abrangência da Encíclica LAUDATO SI e em outras exortações do Papa Francisco sobre essas questões cruciais.

Todas essas iniciativas reforçam a importância e a necessidade da estruturação da Pastoral da Ecologia Integral em todas as Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades Católicas, como resposta aos desafios ecológicos que estamos enfrentando na atualidade Brasil afora.

A hora é agora. Postergar ou se omitir significa facilitar o avanço da degradação ambiental/ecológica em nosso país, este é, também, um atentado contra a vida em sua plenitude.

Juacy da Silva, professor titular, fundador e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia. Email profjuacy@yahoo.com.br" profjuacy@yahoo.com.br Twitter@profjuacy

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