Um Deus ciumento, vingativo e castigador

espiritualidade

A fidelidade ao Deus Pai e Mãe supõe respeito à vida, diversidade étnica, religiosa e de gênero.

Por Shigeyuki Nakanose e Maria Antônia Marques

Com frequência ouvimos notícias de ataques contra diferentes igrejas e movimentos religiosos. Em nome de uma fé pura, destroem-se símbolos religiosos de diferentes igrejas. O Antigo Testamento também registra várias perseguições contra outras religiões e divindades. Um das perseguições mais conhecidas é a reforma do rei Josias (2Rs 22-23), que destrói os santuários do interior e as divindades domésticas dos camponeses em nome de Javé, o Deus do Estado. Mandou matar quem servir a outras divindades:

Se seu irmão, filho de seu pai ou de sua mãe, ou seu filho ou filha, ou a mulher que repousa em seu peito, ou um amigo que você quer como a si mesmo, tentarem seduzir você secretamente, convidando: “Vamos servir a outros deuses, não concorde, nem o escute. Que seu olho não tenha piedade dele, não use de compaixão, nem acoberte o erro dele. Pelo contrário, você deverá matá-lo. E para matá-lo, sua mão será a primeira. Em seguida, a mão de todo o povo. Apedreja-o até que morra, pois tentou afastar você de Javé, o seu Deus, que o tirou do Egito, da casa da escravidão. Sabendo disso, todo o Israel ficará temeroso e nunca mais se fará em seu meio ação assim tão má (Dt 13, 7-12).

Por que o rei executou a perseguição? Quem era Javé oficial? Nossa compreensão tradicional do Antigo Testamento é marcada pelo monoteísmo consolidado por volta do ano 400 a.C., que apresenta Javé como o Deus único de Israel. No entanto, nas últimas décadas, a arqueologia e as pesquisas literárias têm revelado, no período da sociedade israelita (1250-1000 a.C.), a existência de um panteão de divindades e Javé como uma delas, ao lado de El (deus supremo), Baal (senhor do solo e o deus da chuva) e Aserá (deusa da fecundidade).
Com a chegada da monarquia em Israel, Javé, Deus do exército, pouco a pouco ganhou espaço oficial e passou a ser cultuado como Deus nacional do Estado, eliminando os outros deuses. Na história de Judá, o rei Ezequias (2Rs 18) e o rei Josias impuseram o templo de Jerusalém como centro religioso único em nome do Javé oficial, para a centralização do culto no local a serviço do poder do Estado, e perseguiram as manifestações religiosas de qualquer outra divindade (Dt 12).

Com a consolidação do monoteísmo a serviço do governo teocrata de Neemias e de Esdras, sob o domínio da Pérsia, os teocratas descreviam Javé como o único Deus e o Deus criador, como em “a você ele mostrou tudo isso, para você reconhecer que Javé é que é Deus, e que não existe outro além dele. Do céu, ele fez que você lhe ouvisse a voz que o corrigia, e na terra ele fez que você visse o seu grande fogo, e do meio do fogo você pôde ouvir as palavras dele” (Dt 4, 35-36). Javé era considerado o único deus do universo! Por isso, qualquer representação cúltica (estátuas de culto, ídolos, imagens) devia ser rejeitada (Dt 4, 9-20). Era o Deus ciumento, vingador e castigador: “Javé, o nosso Deus, o entregou diante de nós, e nós o derrotamos, como também a seus filhos e a todo o seu povo. De homens, mulheres e crianças, não deixamos nenhum sobrevivente” (Dt 2, 33-34).

A teologia do Javé oficial e sua lei do puro e do impuro contra pobres, mulheres e estrangeiros (Jó 24, 1-12; Ne 13, 23-27; Eclo 25, 13-26) perpassaram a história, consolidaram-se e chegaram ao Sinédrio do tempo de Jesus. Fariseus pregaram a salvação pela estrita observância da lei do puro e do impuro e impunham o Deus poderoso, legalista e castigador a fim de incentivar o medo na população judaica e a perseguição contra outras religiões e divindades, visando o controle. Chegaram até a condenar Jesus de Nazaré em nome de Javé, o Deus oficial do Sinédrio.

Porém, não se apagou a fé no Javé do êxodo (Ex 3, 7-10), pregado pelos profetas e sábios de Israel, em favor dos pobres, mulheres, estrangeiros e impuros (Dt 15, 11; 24, 10-22; 26, 5-7; Os 11, 1-4; Is 42, 1-7; 49, 14-16; Jn 4, 1-11). Os pobres afirmavam que Javé, o Deus libertador e misericordioso dos impuros, estava no meio deles: “Eu te louvo. Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado” (Lc 10, 21). Deus Pai dos pequenos! O Deus da vida não se encontra na observância legalista de normas, rituais e doutrinas dos "sábios” autossuficientes, mas no seguimento dos “pequenos” ao amor de Deus.

A fidelidade ao Deus Pai e Mãe supõe respeito à vida, diversidade étnica, religiosa e de gênero. A não aceitação das diferenças e a intolerância provocam violência e morte. A imagem de um deus que legitima o medo, a violência, a opressão, a morte do próximo, o assassinato do inocente é contrária a uma experiência libertadora de Deus, sensível às injustiças, que vê e escuta as pessoas oprimidas e levanta-se para libertá-las, através de Jesus de Nazaré (Mc 6, 30-34; 7, 24-30; Lc 6, 20-23).

* Shigeyuki Nakanose, svd, e Maria Antônia Marques são professores do Centro Bíblico Verbo

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