Em série no Canal Futura, indígenas falam da resistência contra devastação na Amazônia

Canal Futura irá transmitir, a partir do dia 20, série "Guerreiros da Floresta", contando a luta de três lideranças. Elas contestam visão de "desenvolvimento" de Bolsonaro.

Por Clara Assunção, da RBA

"Guerreiros da Floresta" conta as particularidades, cultura e luta das etnias Yanomani, Suruí e Huni Kuin.

O lugar não poderia ser mais simbólico: floresta amazônica. E os protagonistas para dar voz a ela também não poderiam ser outros, as lideranças indígenas. A série Guerreiros da Floresta, que estreia na próxima quarta-feira (20 de fevereiro) no canal Futura, às 22h30, parece o enredo ideal para ilustrar as contradições do atual cenário nacional, marcado por vozes que protestam contra a exploração dos madeireiros e grandes mineradoras, além dos interesses políticos justificados em nome do "desenvolvimento".

Desde a chegada dos colonizadores europeus, há mais de 500 anos, o Brasil acumula uma dívida em relação aos indígenas. Uma conta que ainda está longe de ser fechada e que demanda como parte do pagamento um processo de reconhecimento, escuta e visibilidade. E é nesse sentido que a série não se encerra em si mesma.

indiodourado2Nas vozes dos líderes Davi Kopenawa, Almir Suruí e Ninawa Inu Huni Kuin, das etnias Yanomami, Suruí e Huni Kuin, respectivamente, é possível adentrar na cultura indígena para além das referências particulares e perceber que, apesar das distâncias geográficas e culturais que separam uma comunidade da outra e também do restante da população brasileira, a luta pela preservação da natureza e da herança dos povos originários é, na verdade, um compromisso de todos.

"Ninguém está pensando como o branco, em fazer um Congresso Nacional. O nosso Congresso Nacional é preservar a natureza, conservar para todo mundo", explica em um dos trechos da série o xamã Davi Kopenawa.

O desafio de aproximar as diferentes visões de mundo que se cruzam em torno do meio ambiente e da causa indígena para um projeto de preservação e desenvolvimento é também um dos principais objetivos da série. Ela contará ao todo com 13 episódios com 26 minutos cada, de acordo com a diretora Andrea Pilar Marranquiel e o produtor executivo Marcelo Braga, da Santa Rita Filmes.

"A gente foi atrás dos que estão nas frentes, no front e sendo ameaçados", ressalta a autora do argumento. "O que está ali não foi pautado, roteirizado, o que está ali foi dito e é a verdade de povos perseguidos, povos que ainda estão na linha de extermínio (...). A gente está errando de novo, estamos referendando um modelo anti-indigenista que pode acabar com uma história que é a nossa, a verdadeira história brasileira", adverte Andrea.

Não à toa os relatos dos indígenas confirmam essa realidade de invasão sobre seus territórios e sua cultura.

A partir deste cenário, tecem estratégias de sobrevivência e propostas alternativas às hegemônicas para sua própria manutenção e, nesse sentido, conseguem debater dinâmicas mais sustentáveis para o manejo e produção da floresta até a expansão do conhecimento indígena por meio de escolas e universidades, como a que vem sendo elaborada pelo povo Pater Suruí em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"Essa série pode contribuir para a causa porque o movimento indígena não é só um movimento. Quando você vai para a rua protestar ou fazer uma cobrança do governo, o movimento indígena mais forte está dentro da própria aldeia", afirma um dos guerreiros, Ninawa, presidente da Federação do Povo Huni Kui do Acre.

Desenvolvimento para quem?

Mas é no limite com as grandes produções de soja, com a criação de gado e ao lado das zonas de garimpos expandidas sobre o território da Amazônia que etnias como Yanomami, Huni Kuin e Suruí precisam reafirmar sua luta pela conquista da terra, principalmente em estados como Roraima, Rondônia, Acre e Amazonas.

Foi em nome dessa "integração" e do "desenvolvimento" que o atual governo de Jair Bolsonaro tem elaborado e acenado com iniciativas para a região que afetam principalmente os povos indígenas.

Desde o segundo turno das eleições até o decorrer do segundo mês do gestão, já foi indicada a paralisação da demarcação de reservas indígenas; parte das competências da Fundação Nacional do Índio (Funai) foram transferidas para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos por meio da Medida Provisória (MP) 870/2019, e toda estrutura destinada ao reconhecimento de terras indígenas alocada para a pasta da Agricultura, chefiada por Tereza Cristina, apelidada de "musa do veneno" por estar associada aos interesses do agronegócio.

As propostas mais recentes dão conta ainda da tentativa de enfraquecimento de organizações não-governamentais, de um pacote de obras de infraestrutura na Amazônia até a defesa de que indígenas possam produzir em larga escala, declaração dada na última quarta-feira (13) pela ministra da Agricultura.

Mas, na prática, os líderes, chamados na série de "guerreiros da floresta", contestam a visão de desenvolvimento evocada pelo governo.

Ninawa, da etnia Huni Kuin, e Almir Suruí, do povo Suruí, também biólogo, têm visões diferentes sobre o que consideram a via ideal para o manejo da floresta, mas concordam que as propostas do novo governo vão no sentido contrário ao da preservação, soberania nacional e preocupação com a sobrevivência de todos.

"As ideias dele (Bolsonaro) são geradas a partir de interesses de alguns grupos, que não entendem nada sobre a questão indígena", afirma Almir Suruí. "Se o governo entendessem a importância dos indígenas, das nossas comunidades para a humanidade, jamais nos trataria dessa forma. O problema é que nós não temos um poder econômico para poder bancar a campanha deles", ironiza Ninawa.

De acordo com Instituto Socioambiental (ISA), em geral, as terras indígenas continuam sendo a "principal barreira contra a destruição da floresta", cuja preservação é fundamental, por exemplo, para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Muito por conta disso, para o líder do povo Huni Kuin, qualquer projeto que promova uma compreensão do meio ambiente somente do ponto de vista econômico não corresponde às aspirações dos povos originários pela preservação.

"Nossa relação é com o sagrado, o espiritual, uma relação de proteger um ao outro. Em nenhum momento nós, os Huni Kuin, estamos separados da floresta. Nós somos a floresta, temos essa convicção", explica à RBA.

Já para Almir Suruí, que vem tentando um diálogo com o governo tanto para explicar as ações indígenas como para entender os objetivos de Bolsonaro, a aproximação da sociedade em geral com o ponto de vista indígena sobre a natureza precisa estar conjugada também do ponto de vista econômico, por exemplo, permitindo linhas de concessão de créditos para agricultura.

“Não somos apenas vítimas da política e do desenvolvimento, nós temos propostas para o Brasil se desenvolver", afirma. "Nós (indígenas) temos produção, nós produzimos, contribuímos com o país da maneira que a gente pode, mas dentro de um equilíbrio da consciência ambiental, econômica, cultural", explica. "Não é quantidade que vai definir que nós somos agricultores." 

Fonte: Rede Brasil Atual

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